Mão macia

Mão macia

Helô Mello

Era uma idade indefinida. Já despontava o peito, alguns outros interesses secretos e brincadeiras infantis. O corpo de mulher, a cabeça nem tanto.

Era carnaval. As mesmas músicas no mesmo baile de todas as férias. Era o primeiro sem fantasia. Mas foi obrigada a ir de sutiã. Bem hoje. Coisa incomoda. Não teve negociação. Colocou um colar de havaiana para disfarçar.  

Dançava na roda grande, pulando o quanto podia. O menino entrou e pegou na sua mão. Sentiu a textura e o aperto suave. Sensação boa, nova, ninguém precisava explicar, sabia. Fingiu ignorar. Olhou para a melhor amiga, bem na sua frente, que também reparou no menino. 

Ele a puxou da roda. Saíram oscilando, abraçados. Nada perguntou. Nem se falaram. O braço no seu pescoço, envolveu ela toda. Um calor chegando mansinho, no contra ritmo das músicas altas, do confete amontoado no chão que chutavam enquanto sambavam. Flutuava. 

Ele falou alguma coisa no seu ouvido. Tanto faz. Só aquele arrepio, era maravilhoso. Já tinha se desconectado do carnaval, da festa, da amiga, que a acompanhava de longe numa mistura de recriminação e inveja. Foram devagar, para fora do salão. Ela se dava conta. Não queria pensar. Só sentir. 

Chegaram no jardim, quase sem querer. Ou sabendo muito bem. Amarrou um lenço no seu pulso. Espirrou lança perfume. Nunca tinha experimentado. Mas já tinha escutado muitas vezes que se alguém oferecesse era para ir embora, sair correndo, se fosse preciso. Era muito perigoso, diziam em casa. A primeira cheirada foi funda, um zumbido no ouvido e o mundo girando. A boca na boca, o amasso, a mistura de lança e o corpo se despertando. Mais uma cheirada. Chegou num lugar que nunca antes tinha estado. Esqueceu o cara, esqueceu o baile. Só esse prazer. Mundo maravilhoso.

Acordou com muitos em sua volta. Procurou por ele. Não recordava seu rosto, não sabia seu nome. Estava estirada no chão, no banco, ainda no jardim. A ambulância chegou em seguida. Sem lembrar de tudo que aconteceu, queria só guardar o gosto da mão macia que abriu sua blusa. 

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