Coração com as chaves

Por Susy Freitas

Foi uma péssima ideia. Quando me dei conta, ouvi o zumbido e aquela sensação de que uma bola de basquete tinha batido na minha cabeça com muita força. Ainda olhei pros lados, jurava que a ouviria quicando no chão, mas só vi sangue mesmo, e canudo pra tudo que é lado. Quando os meninos correram das bombas de gasolina pra loja foi que eu me toquei da merda que fiz. A máquina do café estava com um rombo enorme. Foi uma péssima ideia.

Depois de quatro meses trabalhando na loja de conveniência nas madrugadas, você perde a fé na humanidade, mas continua atrás do balcão de boas. E foi pra passar o tempo que criei o Sistema. Por exemplo, eu escolhia as vítimas quando a clientela era um grupo grande ou se, por um acaso, muitas pessoas estivessem lá ao mesmo tempo. Às vezes, era o barulhento; noutras, o quieto. Aprendi o ponto exato em que cada salgado estaria quente demais, mas sem queimá-lo ou deixar escapar qualquer cheiro estranho do forno. O da coxinha, do pão de queijo, do pão de batata. Como era bom ver a cara daqueles condenados com a língua ardendo, se entupindo de coca pra disfarçar. A primeira ou a última cervejinha da noite, arruinadas.

Outra opção era deixar disponíveis os piores sachês de ketchup, maionese e mostarda. Por pior, entenda que não se trata apenas de sabor, mas do grau de dificuldade de se abrir as embalagens e as chances de que o rasgo feito nelas para melecar os quitutes tivesse um padrão torto, desses que faz a pessoa sujar a blusa ao se servir. Teve uma época em que fiz tanto isso que passei a levar os sachês da Heinz pra casa. A bolsa ia carregada no ônibus, fazendo barulhinho de plástico. Em compensação, faltava Kikero no posto, porque eu distribuía aos montes pra quem lanchasse lá. A vítima sempre era um daqueles caras barbudos, laricados, que depois precisavam de uns 14 lenços de papel pra dar conta do estrago na fuça; se estivessem muito bêbados, iam cagados mesmo pra casa. Às vezes, eles dormiam em cima dos próprios restos, enquanto os amigos tiravam fotos com o celular. Dava trabalho limpar a sujeira que deixavam, mas era divertido. Pensando agora, dava um puta prejuízo também.

Sem sombra de dúvida, meu item favorito no Sistema era com as cervejas. Mas primeiro eu tenho que explicar que a lojinha era um point meio badalado por causa da variedade de bebidas alcoólicas. Realmente, depois que passei a prestar atenção nisso, vi que tínhamos um estoque bem bacana, eu mesma roubei umas garrafinhas de caipivodka muito boas. O preço, claro, era aquela merda, mas isso é outra história. O que interessa é que os sommeliers de loja de conveniência já tinham o posto como parada obrigatória, e muitos deles eram um porre. Uma vez, um cara botou o pau pra fora e mijou na bomba de gasolina; noutra, um imbecil roubou um cone. No geral, esses tipos falam alto e ficam cada vez mais machões, nunca dá pra saber em que momento vão começar a brigar ou se beijarem de língua. Então, o negócio era colocar as cervejas interessantes por trás das mais populares nos freezers, e resfria-las por menos tempo. Assim, elas sempre pareciam frias para algum apressadinho empolgado, mas quentes quando eles iam beber. Aqueles abestados sempre percebiam tarde demais. Eram bons tempos.

A única parte do Sistema que me deixava pra baixo depois era o banheiro feminino. Eu gostava de ficar por lá. Era um banheiro muito limpo, muito limpo mesmo, eu até trazia de casa aqueles aromatizadores de ambiente só pra me sentir mais à vontade. Também comprei um chaveiro lindo, de coração, e pendurei suas chaves nele. É válido eu dizer também que vivia tirando fotos pelada me masturbando naquele banheiro pra vender na internet. Depois, limpava os dedos no espelho. Ao longo da semana, deixava uma espécie de moldura de digitais sebosas, limpava e começava tudo de novo. Se alguém perguntasse por que eu ia tanto ao banheiro, dizia que estava naqueles dias ou com diarreia, e ninguém falava mais nada.

Você precisa entender: eu usava aqueles uniformes horrorosos, com calça cáqui e umas botas feias, e o pior de tudo, um boné! Tinha que amarrar os cabelos e usar umas luvinhas plásticas quando fosse manipular alimentos, e claro que eu sempre esquecia de coloca-las. Então ver aquelas donas ali, de salto agulha, com aqueles vestidos coladinhos e a escova toda fodida no cabelo, a cara pastosa de tanto primer, base, corretivo, pó compacto e o caralho a quatro, era duro, sabe? Me fazia sentir muito deprê por não poder aproveitar a noite – não que eu tivesse dinheiro pra isso. Queria muito que elas acabassem com uma infecção urinária, e é por isso que eu nunca as deixava usar meu banheiro.

Mas regras foram feitas para serem quebradas, eu só escolhi o pior momento para burlar o Sistema, certo? Tudo ia bem até aquela menina aparecer de novo no posto. Ela estava com uns colegas, uns caras um pouco mais velhos que pareciam ansiosos para captar o momento em que ela iria de “um pouco alta” para “totalmente tchunay”. A noite prometia. Eles compraram muita cerveja (quente) e ficaram frescando ali pela área do estacionamento. Antes que vocês me perguntem, é claro que eles colocaram um som bem alto pra tocar. Sim, é claro que foi alguma merda pretensiosa, não consigo lembrar o que era, Muse, sei lá, não importa.

Mas a menina não era como eles. Era esperta, eu já tinha reparado: comia a coxinha depois de um bom tempo de espera, nunca queria sachês, e apalpava latas e mais latas de Soda até encontrar uma geladinha. Olhando por alto, ela parecia uma metida do caralho, mas demos uma papeada uma vez e ela era legal, daí quando a vi de novo, na hora larguei a revista que estava folheando.

Ela era tão fofa. Usava um cabelo com uma franja metade preta, metade verde, e um vestido curto imitando veludo com umas botas de EPI idênticas às minhas que, por algum motivo, ficavam uma gracinha nela. Quando perguntou o preço da seda, deu pra ver que tinha um piercing verde na língua. Estava animada, falando sobre sua viagem de mudança pra Minas, bateu um ciúme. O que eu mais gostava nela é que ao invés de falar alto por causa da música, ela chegava bem pertinho. Foi como percebi que o batom que ela vivia usando não era preto, mas meio azul, como a asa de alguma barata bem bonita.

Não lembro exatamente como, mas acabou que eu fiz a merda. Ela tinha uma lábia irresistível, isso eu lembro, e me convenceu a dar a chave do banheiro. Tinha bebido muito, precisava fazer xixi. E perguntou se eu queria ir junto. Claro que eu queria, né? Tenho a impressão que nem respondi, só fiquei sorrindo com cara de idiota.  Disse que fosse na frente e entreguei a ela o meu coração com as chaves. Mal pegou o chaveiro, deu uns passos, e ouvi o estampido que devolveu o equilíbrio ao Sistema.

Porque eu não percebi o que tinha acontecido, na minha cabeça ela tinha ido pro banheiro. Talvez estivesse me esperando até hoje, mas me falaram que ela nem olhou pra trás, só saiu correndo e largou meu coração ali mesmo, no meio dos canudos. Ninguém identificou a origem da bala perdida. O menino da segurança veio aqui outro dia e me disse que se eu não tivesse ficado de cabeça baixa, segurando o fantasma do chaveiro no bolso, eu não teria sido baleada. Ele olhou nas câmeras de segurança, passou no jornal também, diz que. Engraçado, né? Talvez eu esteja falando muito. É que vocês me deram tantas drogas legais pra tentar tirar a bala daqui de dentro, e no final nem deu certo! Mas não tinha como dizer não pra ela.

 

Links da autora:

Alerta, Selvagem (Ed. Patuá)

Véu sem voz (Ed. Bartlebee)

Revista Torquato

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