Bastardo

Por Liu Lage

Quando Marina abre a porta, ela e Tom se olham e ficam um tempo ali, perplexos. A lembrança da noite ainda está fresca na memória. Os dois dentro do carro, olhando um para o outro, exaustos e suados, com a pele grudada no couro do banco.

Minutos antes, Marina acorda com o barulho do interfone, olha o relógio, são dez horas. Levanta da cama, com uma sensação gostosa, um frio na barriga ao lembrar da noite. Vai até a cozinha e, no caminho, encontra a filha adolescente e a melhor amiga se arrumando no banheiro: “Bom dia, mãe! “Bom dia, tia!” “Bom dia, meninas. Nossa, tão lindas! Mas já?” “Claro, o bloco sai agora. O namorado da Ada tá passando aqui pra buscar a gente.” A campainha toca. “Mãe, abre a porta, é o Tom. Ele vai entrar rapidinho pra passar glitter!”

Era o sábado seguinte ao carnaval quando Ana passou na casa de Marina com a filha. Ada e Ju ficariam em casa, enquanto as mães se aprontavam para a festa de carnaval. “Você tá irreconhecível com a minha fantasia de Emília, mãe!” “Não tô, filha? Ainda bem que continuo com meu corpinho de jovem, né? Vão achar que é você.” “Bora, Má, parece que a festa tá lotada já”, disse Ana. Saindo do apartamento, completou, “O Bloco Bastardo é uma putaria, você vai ver, a melhor festa do pós.” “Desculpa, amiga, mas não consigo acreditar nesse carnaval.” Marina é carioca e totalmente descrente do carnaval paulista. Já mora em São Paulo há oito anos, mas sempre vai pro Rio nessa época. É profissional do carnaval, daquelas pessoas que acordam com o dia amanhecendo pra se fantasiar pros blocos. Já Ana é superenvolvida com o carnaval de São Paulo, o Bastardo é o bloco de todos os amigos dela.

Chegando lá, uma fila enorme na porta, e uma conhecida que organizava a entrada, gritou assim que viu as duas, “Continua na fila!” Ana, então, tirou um pacote prateado da bolsa. “Que tal? Cogumelo.” Depois de meia-hora na fila, elas, finalmente, entraram e seguiram até a pista por um corredor estreito de chão de pedra ao lado da casa. A casa era enorme, com três ou quatro andares, e uma arquitetura brutalista, com o acabamento todo em cimento e o pé direito altíssimo. Entrando na sala, elas se depararam com uma cena lisérgica, não só pelo efeito do cogumelo, mas também pela quantidade de gente, todos se beijando, dançando em cima da lareira, nas escadas. Cena digna de um sonho. Ou de um filme, do Pasolini.

Depois de comprar um gim tônica, as duas atravessaram a massa de corpos molhados em direção ao dj. No som, Dona Onete, e, na pista, todos lindos, suados e tremendo até o chão. As duas estavam ótimas na onda do cogumelo, batendo forte naquela hora. As cores realçadas, os sentidos mais aguçados, os corpos num ritmo só, dançando até o chão, todos sorrindo e se beijando e se olhando. Uma catarse. Quando Marina saiu do transe, não viu mais a Ana. Tudo bem, a pista tá mara. Adoro quando me desapego de qualquer conhecido e curto o som, sozinha e junto com pessoas que não conheço. Uma sensação de liberdade. Logo um casal, que já estava de olho, a agarra, e os três ficam dançando e se beijando por um tempo. Marina sempre preferiu beijar mulheres, apesar de se considerar heterossexual, em relação ao ato sexual. A pele feminina é mais macia, o beijo mais suave, o corpo, mais delicado e gostoso de abraçar. Existe uma cumplicidade no beijo entre duas mulheres de que eu nunca vou abrir mão, mesmo sabendo do tesão que sinto por uma rola me comendo.

Apesar da putaria estar deliciosa, Marina, bem doida nessa hora, decidiu dar uma volta pela festa, e descobriu vários ambientes do lado de fora da casa. Muitas plantas imensas, um verde intenso e pulsante. O som das vozes se misturava com a música, produzindo um mash up psilocibínico. Então, depois de algumas voltas dançando pelo jardim, ela reencontrou Ana, que lhe ofereceu mais cogumelos. Ela também estava louca e amando tudo. Suas únicas críticas eram de que não conhecia ninguém, um aspecto que Marina adora; e que viu muitos ‘héteros top’. “Hétero o quê?” “Aqueles caras que te puxam pelo braço e no carnaval só se ‘fantasiam’ com uma camisa florida aberta, um short com outra padronagem, também colorido, e uma viseira.” Na mesma hora, Marina pensou no amigo escritor paulista que foi passar um dia de carnaval no Rio, mostrando a “fantasia” assim que chegou lá. Era exatamente isso.

Esclarecida a questão, as duas decidiram voltar pra pista. Mas guiada pelas sensações, Marina acabou parando numa corrente de ar no caminho, e passados alguns minutos ali, apareceu um cara com uma fantasia, de milho ou de abacaxi. Mais cedo tinha rolado o cortejo de um bloco chamado Abacaxi de Irará, que tocava músicas do Tom Zé, por isso a confusão. Mas só por isso. Óbvio que era um milho, era o Visconde de Sabugosa! No mínimo inesperado o encontro da Emília com o Visconde, mas esse boy parou ao seu lado e não a beijou direto como o casal de antes, a olhou nos olhos e disse que estava sem palavras. A onda do cogumelo nessa hora estava baixando, senão claro que ela teria agarrado o cara. Ao invés disso, indo pra pista, ela perguntou: “De que é, milho ou abacaxi?” “O que você prefere?” E se beijaram. Foi diferente, um beijo gostoso, as bocas se encaixaram. Os corpos também se encaixaram, parece que foram feitos na medida certa. A altura, a pele, o suor. O pau dele logo ficou duro e ela, sentindo algo tocando a sua virilha, colocou a mão lá, naquele pau duro e grande, no meio da pista. Quando ela sentiu sua boceta molhada, puxou o menino pela mão e saíram da casa à procura de um lugar mais discreto. Acharam um banco no canto do jardim, debaixo das árvores.

Ao se sentar no colo do boy, a rola ficou ainda mais dura. Ela roçando a boceta enquanto ele chupava seus mamilos, alternadamente. Marina, que ficava cada vez mais molhada, colocou a mão dentro de sua calcinha e enfiou na boca do garoto. Ele chupou seus dedos e a beijou, com um gosto azedo adocicado. E os dois ficaram, por um momento imóveis, olhando nos olhos um do outro, completamente envolvidos por um tesão louco, como se não estivessem cercados de gente. Então, decidiram procurar um lugar pra trepar ali mesmo, já que não tinham outra opção. O menino, que, naquela hora, Marina já tinha percebido ser bastante jovem, tinha que voltar logo para casa, tocava trompete num bloco de cúmbia, no dia seguinte cedo. Acharam melhor tentar no banheiro. Porém, chegando lá, outra fila enorme, só tinha um banheiro pra festa toda. Uma conhecida que estava na fila, depois de agarrar Marina, disse que podia ajudar e os levou para o andar de cima, onde tinha um quarto, do dono da casa.

Abrindo a porta, uma cama de casal linda, um sonho. Só que o quarto não estava vazio. Eles, então, viram um terraço nos fundos, onde tinha um grupo pequeno de pessoas conversando, e foram pra lá. O boy sentou numa cadeira no canto e Marina sentou no seu colo, de novo. Depois de um tempo se agarrando, Marina ajoelhou de costas para o grupo e, sem hesitar, começou a chupar o pau do cara. A vontade de trepar só aumentava. Mas o dono da casa, educadamente, veio avisar que as pessoas estavam descendo, ou melhor, “get a room”. Era exatamente o que estava faltando! Quando desceram, o boy lembrou que o carro dele estava estacionado na esquina da casa. Os dois não pensaram duas vezes. Saindo da festa, a amiga organizadora ainda estava na porta. “Quem sair não volta, hein!” Olhando no relógio, Marina pensou em voltar, já que era cedo e a festa continuava animadíssima.

Uma hora depois, Marina bateu a porta do carro, limpando a porra espalhada pelo rosto. Olhou para trás, os vidros completamente embaçados. Com um misto de sono e excitação, entrou no Uber, ainda sob o efeito da noite, surpreendentemente devassa.

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