Daniel Pereira (mau passo)
Deus sabe o quanto eu tentei resistir. Longe de mim querer jogar a responsabilidade dos meus atos para aquele que tudo pode e tudo vê. Pelo contrário, minha única esperança é a sua misericórdia.
Era só mais um dia como outro qualquer. Uma madrugada, para ser mais exato. Outra vez convivendo com a tentação. Não era o emprego do sonhos, mas era o plano que ele tinha para mim. E quem sou eu para questionar isso? É claro que viver do pecado dos outros não me confortava. Por outro lado, era o meu ganha pão. E eu lutei muito para chegar aonde cheguei. Quatro anos limpando banheiro. Recolhendo camisinhas. Lavando lençóis sujos. Ao menos a minha consciência estava limpa. E nosso senhor viu que eu fazia das tripas o coração naquele serviço. Tanto via, que me deu a oportunidade de ocupar a gerência. Agradeço até hoje por isso. Não foi uma conquista minha, foi de Deus.
Quartas não eram movimentadas lá no motel. Sendo honesto, nem os finais de semana. Com ainda mais franqueza, confesso desconhecer a razão daquela espelunca ter se mantido por tanto tempo. É evidente que tinha lá seus gatos pingados. O André da academia ao lado, sempre fazia o seu pré-treino com a filha do pastor Elias ali. É feio usar essa linguagem? É, mas não adianta matar o carteiro para não ler a mensagem. Primeiro que eu sempre achei esse André muito dos metidos. Como um personal trainer de uma academia de quinta categoria no Jabaquara pode ter um Audi? Tem coisa errada nisso aí. Fora que o cara é casado com uma mulher maravilhosa, gentil e trabalhadora. A Luciana. Uma pessoa caridosa, séria e cristã. Não perde um culto! E ainda ajuda tanta gente. Mesmo assim, o que ela ganha com isso? Traição. Chifre. Gaia. Eu sei, eu sei. Meu tom está meio raivoso. É que eu não me conformo, sabe. Como Deus permite isso? Enquanto isso, eu que sempre tentei andar na linha, correr pelo certo, seguir a palavra, sigo sozinho. Quer dizer, não estou sozinho. Mas a companhia não é minha opção. Muito menos o lugar e o tempo em que permanecerei por aqui.
Voltemos à derrocada. Ao dia fatídico. Ao juízo final. Meu Deus, o que eu fui fazer? Como tentei começar a dizer, antes de me lembrar daquele verme, o motel estava vazio. Recordo muito bem de ter visto exatamente a virada do relógio das 2:59 para às 3:00. Juro pelo o que é mais sagrado neste mundo. Eu estava no balcão, tentando ler a bíblia, deus está de prova. Eis que vejo pela câmera. Não podia acreditar. O infeliz do Audi A3 imbicado no portão. O interfone toca e é André. Libero a entrada e observo o veículo entrar no estacionamento. Ele estaciona e alguns segundos depois abre a porta. Espero para ver quem era a da vez. Não se tratava do horário habitual. Na sequência também percebo outra diferença. Ele estava com duas mulheres. Não bastasse isso, uma delas era, a Luciana. A outra, Iris, a filha do pastor. Jesus amado, que decepção. Queria dizer que sabia de toda essa safadeza? Sim, queria. E mais, participava de tudo isso? E como fica Deus nisso tudo?
Entraram pela porta que separava a garagem da recepção. André exalava bebida barata, quer dizer, eu não sei se era barata, nunca havia bebido na vida, então não sei precisar. O fato é que as duas meninas eram lindas. Especialmente Luciana. A gente já havia se cruzado algumas vezes na padaria vizinha à academia e ao motel. Ah, e nos cultos. Ela nem devia saber quem eu era. Eu a conhecia pelo projeto social que tocava ao lado do pastor Elias. Sim. Então tinha ciência de que a filha dele tinha um caso com o seu marido. E mais, pelo jeito ela participava dessa sem vergonhice. Isso tudo passando por minha cabeça ao mesmo tempo em que André passava o cartão. Meus olhos permaneciam na esposa dele, embora Iris também fosse de chamar a atenção. Só que parecia ser muito nova, talvez uns 18 ou 19 anos. Já Luciana, com seus 28, era uma coisa de outro mundo. Só podia ser coisa de Deus. Uma pele morena que só podia ser macia. Olhos castanhos claros e uma boca que eu nem sei descrever. Alta, devia ter lá seus 1,73 ou 74. Peitos enormes que eu só percebia naquele dia. Ah, e tinha a bunda. Deus que me perdoe, mas o que era aquilo? Dei as chaves e eles subiram. Elas nem me olharam. Ela, nem me olhou. O que esse sujeito mereceu pra merecer isso? Era só o que eu pensava.
Uma hora já havia se passado e eles permaneciam no quarto. À essa altura eram os únicos clientes. O sono, a raiva e a inveja se misturavam na minha cabeça. Nada para fazer. Já sabem onde vou chegar né? Mente vazia, a oficina do diabo. Deus sabe o quanto tentei resistir.
Fui até o estacionamento. Tentei e consegui abrir a porta. Sentei no banco do motorista e tirei meu pênis para fora. Imaginei a Luciana no passageiro. Inclinada em mim. Aquela boca carnuda. Chupa, André! Ou melhor: chupa, Luciana.
Que porra é essa? Escutei e antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, André já tinha me jogado no chão. Devo ter levado cinco ou seis pontapés. Nenhum deles doeu tanto quanto a cara de nojo da Luciana. Fui denunciado ao meu chefe. Que por acaso era o pastor Elias. Sim, ele era o dono do motel e da academia. E da padaria também, o que não vem ao caso. O fato é que sonho havia acabado. Fui demitido. Os minutos de prazer se converteram em uma acusação de atentado ao pudor. Na época esse termo ainda era usado. Isso foi em 2008. Fui preso e por aqui permaneço. Não sei dizer se faz sentido. Se eu mereço ou não. Deus sabe.
