
Tive, sim, um homem de cada tipo até hoje e nenhum se parecia com os demais. Sou, digamos, eclética, por mais que me critiquem por causa disso. Talvez a única característica em comum em cada um dos caras que passaram por mim seja, em diferentes níveis, a dificuldade em elaborar os próprios sentimentos.
Matos era aquele tipo magrelo, meio corcunda, cabelo curto e preto com a franja um pouco maior do que a parte de trás. Se ele quisesse, dava pra fazer um topete. Usava um relogião com pulseira de borracha, um celular Nokia tijolinho e um Samsung de flip e luz azul. Nunca o ouvi dizer que ia visitar alguém da família. Ele tinha dois “broders” que não desgrudavam e mal saiam de sua casa no Condomínio da Vila. Aliás, taí mais uma característica em comum que pude notar: macho só anda com macho.
Nessa época de Matos, eu estava loira e com os cabelos compridos. Me passaria por alternativa de sandália de couro ou por patricinha com um toque mais intenso na maquiagem. Foi a época de homens mais heterogêneos e, cada um que eu arrumava, mudava meu estilo. Teve o forrozeiro; o percussionista de banda de samba; o Matos, dealer peixe pequeno, do Trance e que também se encaixava como playboy; fora meu primeiro namorado, o bonzinho do emocore.
Matos vivia nos corres de entregar os “CDs” – na época a mídia ainda era usada. Podíamos ir a pouquíssimos lugares, de preferência os de luzes baixas. Nos conhecemos numa festa no campus de biologia, o reduto dos caras tipo “bicho do mato”. Em locais de “fauna” mais diversa, além do perigo de alguém furar o regime de segurança de Matos, ele fatalmente era reconhecido, porque em 2005 se tornou a foto de capa da comunidade “Frito passa mal” no Orkut. Sim, ele é aquele de sunga amarela que tenta entrar na caixa de som. Lamentável mesmo, mas na época eu e minhas amigas dávamos risada.
Essas festinhas como a que conheci Matos rendiam vendas boas para ele, de pelo menos 3 dos 5 produtos de seu cardápio. Na Biologia a galera só não era muito adepta de pó. Numa noite sem se empenhar muito, Matos fazia de 3 a 5 mil reais. Matos parecia discreto, mas quando entrávamos em algum lugar com paredes e sofá, fosse na casa de quem fosse, ele se soltava. Falava da grana, pedia whisky bom, gesticulava que só com um copo na mão e o cigarro na outra.
_ Sábado na Raiar [festa rave que acontecia de 6 em 6 meses], vou pra fechar negócio. Consegui um relógio com miolo falso pra colocar as balas e tem um colar de sol com o mesmo princípio pro pó. O resto vai no cinto, como sempre.
A gente olhava e ria. Por mais que tentasse ser discreto no dia a dia, Matos falava muito alto. Ele preparou um haxixe e pediu que as pessoas provassem para dizer se era bom – era produto novo no negócio. Passou a bola primeiro para mim.
_ Nem vou te levar, Carolina. Vai ser corriiiido.
_ Mas eu quero ir. Vou ver se Ciça pega o carro.
Mas Ciça jamais toparia. E eu ficaria mais um final de semana sozinha, enquanto ele iria se drogar e vender na mesma proporção, o que já era lucro pra ele.
Matos sumiu por uma semana. Na quarta-feira seguinte à Raiar, que foi num sábado/domingo, peguei um ônibus e fui até a casa dele. Tinha um Honda Civic preto parado na porta. O carro dele era um Gol 4 portas modelo novo prata. Como sempre, as cortinas estavam todas fechadas. Toquei a campainha e gritei, pra ele saber que era eu e não a polícia. Ele abriu com a cara amassada, vestindo uma das 30 bermudas de tactel que ele usava, sem camisa e fumando um cigarro.
_Oi, princesa! Entra.
Não deu nem tempo de pedir explicações. Ele já foi logo dizendo do corre da semana, ligou uma música, acendeu os abajures.
_ Vou fazer uma pipoquinha pra gente ver um filminho.
E enquanto esperava o óleo esquentar, lá da cozinha ele gritava histórias intermináveis dos últimos quatro dias. Os fritos que ele tinha visto na festa e o novo carregamento que ele tinha pegado, que ainda estava em processo de estocagem no quarto do andar de cima que ele usava para catalogar e controlar a mercadoria e as finanças. Ele veio manso jogando sal na pipoca, disse que já tinha baixado um filme – não tive nem tempo de pensar em sugerir algum título. Carinho vai, carinho vem, acordei com o sol raiando por detrás da cortina branca e sem blackout do quarto dele. Levantei para ir ao banheiro, pensando que, se Matos ficou com alguém na festa, parecia indiferente. Será que um dia ele se apaixonaria por alguém? Largaria o tráfico? Seria, pelo menos, um grande traficante? Ou envelheceria como playboy acomodado? Não entendia por que ele não me dispensava, nem me pedia em namoro.
Ia voltando do banheiro quando reparei a porta do quarto das drogas aberta. Vesti a roupa e vi que Matos ainda dormia. Mesmo de busão, daria tempo de chegar na rodoviária.
