O ano, eu não sei muito bem ao certo. Só sei que usavam calças xadrez compridas e tudo aquilo que era popular e simples, ainda hoje me parece elegante e sofisticado em fotos. Não era só a Nona Josefa que sabia do causo, outros munícipes da comunidade de Burro Morto, também compartilhavam a mesma lembrança. Não sei quem contou primeiro, mas a coisa foi espalhando feito pinhão na serra, cada um aumentava um tiquinho, tomando um bocado das dores para si. Uma coisa era fato: não se pode dar uns pinotes em festa em tempos de quaresma.
Claudete era formada no curso de prendas da paróquia, Nossa Senhora do Caravaggio, em Flor de Sertão. Desta temporã da família Bosquetti, era esperado um bom casamento na cidade, faculdade de agronomia ou um enlace rural em troca de uma dúzia de bezerros. Como o filho do meio, Ricieri, já estava em caminhos de se tornar ministro da igreja católica, não sobrara nem um subterfúgio dela se tornar freira em Santo Ângelo. Dois na reza na família, não pagaria hectares de fumo.
– Déteeeee, nena, vem cá um pouquinho. Ajuda a manhê a concertar o vestitinho do butijon de gás.
Disse Nona Josefa, de olho no brilho que saltava no vai vem da linha e agulha nas mãos da filha.
– Calma alí, me falta pregar uma carerinha de lantejola e já lavo a louça.
– Crendios padre não lavo as orechias? Falei ajudar a colocar o VES-TI-TI-NHO do butijon de gás.
– Esses filho, acham que tudo é desculpa pra não lavar a loça. – Xingava a filha enquanto a botija de gás rolava entre suas pernas.
Realmente não era fácil para uma senhora de 70 anos, comprimida por outros 50 anos de sol-a-pino na roça, fazer atividades aeróbicas na cozinha. Seria mais fácil ela antes instalar a botija nova no fogão e depois vestir a camisinha. Mas as “véias”, insistem em fazer as coisas na ordem que bem entendem.
Claudete, largou o bustiê bordado de vermelho e prata em cima da caixa de lenha e foi ao auxílio de sua mãe, agachada no meio da cozinha como se parisse a botija.
– Ma que diacho é esse treco brilhante ali?
Soltou Nona Josefa em reprovação a filha, que arrastava a botija em cima do tapete desde a entrada da casa até o espaço entre o fogão e a geladeira.
– Último grito do carnaval, né manhê. Não é a senhora que fica preocupada que eu tô solteirona?
O carnaval de rua voltou com tudo nas grandes cidades e também teve seu surto no interior de Santa Catarina. Os blocos de marchinhas populares, eram trocados por canções de “sofrência do carnalejo “- uma mistura de Bruno e Marrone com pandeiro e cuícas – mais um motivo qualquer para se ter um baile na linha Pedra Branca.
Nona Josefina, aposentada por duas hérnias de disco, não se envolvia mais com os trabalhos da roça, passava o dia futricando a vida da filha mais nova. Mexia na sua gaveta de calcinhas, fungava seus perfumes e bisbilhotava em vão os diários de Claudete, tentando decifrar com seu analfabetismo o desenho das letras no caderno tal qual fazia com o jornalzinho bíblico aos domingos. Ela sabia a missa de cor. Copiando quem estivesse ao seu lado, lambia o dedo e virava a folha certinho, seja no creio ou no cântico dos cânticos.
– Crendios padre! Eu não criei filho pra ser excomungada da igreja. Déte, já me basta os bailon que tu foi com o filho do Gatto la no tope da Serra. Gente de Deus, voltaron tudo tchuco e o piá do Tibola quase que me perde a perna!
– Quem mandou ele mijar no escuro no acostamento? Eu vou pular carnaval nem que tenha que sambar com o Demo!
O fato de uma moça da idade de Claudete querer pular carnaval, não era um problema. Nem beber ou usar sainhas. A penalidade moral mediante Nona Josefa, era o fato do carnaval se estender até os domínios da quaresma. Era a modinha, contra as leis divinas. Um horror! – ela dizia. Sem mencionar que a última frase proferida por Claudete, fez lembrar de um longínquo ocorrido em Arvorezinha…
Como já disse, não sei bem ao certo quando ocorreu essa história. Talvez tenha que forçar um pouco a memória da Nona Josefa, mas ela jura com os pés juntinhos, de frente para a foto da Santa Luzia com os olhos esbugalhados no prato, que aconteceu assim:
“Estavam diante do espelho. A moça que curiosamente ninguém sabe o nome – ou não ousam dizer – e sua mãe, que lhe trançava os longos cabelos.
– Dionisio está me esperando.
– Quem é Tionisio? Disse a mãe apertando os fechos de cabelo da menina até puxar o couro cabeludo.
– Aííí manhê! Dioniso, o moço de branco que me aparece nos sonhos. Tenho certeza que vou encontrar ele no baile amanhã.
– Paile? Onde já se viu dançar na quaresma? Não sabe que é pecaminoso?
A moça desolada, viu a fúria da mãe no reflexo do espelho. A dias pensava no sapato que iria escolher, a cor das fitinhas no cabelo. Sozinha, fazendo uma camisola de renda às vezes de seu par, dançava no quarto ensaiando passos de um xote caso o moço-do-sonho a tirasse para dançar. Não queria fazer feio. Tudo estava milimetricamente sonhado.
– Vou no baile nem que tenha que dançar com o Diabo!
As mãos fortes e ossudas da matriarca aceleraram o trançado. A moça tentou levantar da penteadeira, mas sua mãe já tinha enrolado as tranças na cadeira e dado um nó. Antes que tentasse proferir sua revolta, a mãe lhe jogou o terço no colo dizendo:
– Na minha casa quem manda é o Senhor. Cabimento blasfêmia na minha frente, tu só me sai daqui a hora que rezar o rosário e vinte creio. Ai de ti guria se pula uma bolinha.
A filha fora criada na exigência e rigor do espírito santo, aos jovens, a contemplação da penitência era as rédeas da razão. A mãe nem se ostentava de sua brutalidade, fora criada no laço e joelhos no milho; lavar a louça, se ocupar dos bordados e mente aos pés da cruz, era o caminho da salvação.
No intervalo de seus afazeres resolveu checar como andava a reza da filha, quem sabe começar uma novena não lhe faria bem.
Abriu a porta e foi só o espanto. O rosário estava partido e as Ave Marias de uma vida rolavam no chão. A cadeira de frente para a penteadeira continuava no mesmo lugar, era para a moça estar nela, mas não. Uma trança continuava entrelaçada há cadeira, a outra feito um travesseiro aberto de penas fazia uma trilha de fios loiros até a janela.
A mãe, então viu a tesoura aberta no chão e a segurou firme em seu próprio pulso.
***
Não devemos nos surpreender que o baile tenha ocorrido, mas sim com o fato da moça ter conseguido chegar até o salão sem atolar o salto na lama. Chovia a cântaros naquela sexta feira.
Na pista os casais rodopiavam pelo salão, num entrevero de saias rodadas e batição de botas. Como costume local, uma prenda nunca pode dizer não, o que fazia um par de dançarinas exímias suar as canelas num vai e vem de troca de parceiro.
A moça que ninguém sabe o nome, tomava um minuano de limão no bar, quando num gracejo, avistou aquele homem, era Dionísio vindo em sua direção.
Tímida, para disfarçar sua ansiedade, foi mexer no cabelo, então lembrou que tinha cortado as tranças.
Como no sonho, ele estendeu a mão, convidando para dançar. Tudo seguia milimetricamente conforme imaginara, a troca de olhares, as luzes acendendo seu rosto branco e formoso e todos ao redor admirados. Como eles faziam um belo casal! Ela não diferenciava mais passado e futuro, estava entregue a seus braços.
Para logo depois, a música esgaçar e os cantores sorridentes no palco se contorcerem ao som que ecoava como num disco de trás pra frente.
Baixou o olhar enquanto dançava e assustou-se ao ver que no lugar de lustrosos sapatos, Dionísio tinha duas patas horrendas de bode.
O teto caiu sobre os músicos, mas a música esgarçada continuou tocando. Algumas pessoas tentaram se salvar pulando pela janela. A moça chorando ia se deformando, estava grudada com piche em Dioniso, cada vez mais branco, gélido e chifrudo.
Na manhã seguinte encontraram o corpo de todos, menos o da moça que ninguém lembra o nome. Acharam só uma poça de piche, uns fiapos de cabelo e dois laços.
