Padim Ciço

Por Filipe Masini

O despertador toca às seis da manhã, mas é desnecessário. Afinal desde às cinco e meia Cícero está acordado, se é que ele chegou a dormir em algum momento. A ansiedade e, consequentemente, a insônia eram justificáveis, pois a sua época favorita do ano havia chegado: o Carnaval. Ele pouco se importou em ter passado a noite em claro. Era delicioso ficar relembrando todas as histórias e aventuras – pelo menos as partes que ainda eram claras em sua mente – ou tentando refazer os passos daqueles famosos blecautes. Até hoje era um mistério o que aconteceu naquela noite. Por mais esforço que fizesse, não se lembrava onde tinha feito aquela tatuagem ridícula de um coração atravessado por uma flecha, e, muito menos, de quem era as iniciais A.B.

Cícero se levanta de pronto, as primeiras luzes da manhã invadem o seu quarto, e ele começa a repassar a programação do dia. Durante o ano todo, ele era uma pessoa completamente desregrada e desorganizada, mas no Carnaval não. Ele não era iniciante. Sabia que era necessário maturidade e uma disciplina rígida, senão a chance de queimar a largada no primeiro dia e perder o restante da farra era grande. Ele não podia correr este risco, afinal esperou tanto por aquilo. O momento em que todos os excessos eram justificáveis e até aplaudidos. Não que ele não os cometesse ao longo do ano, pelo contrário, era um especialista, mas é muito diferente quando se tem um salvo conduto.

O relógio indica que são seis e quarenta. Cícero precisa se apressar, pois o combinado era encontrar seus amigos às sete horas na concentração do bloco. Como já havia separado tudo na noite anterior, ele se meteu em sua fantasia e em cinco minutos já estava a caminho para o primeiro dia de folia.

Não demorou nem um minuto para se arrepender da fantasia que tinha escolhido. “Puta que pariu, que calor infernal.”, pensou ele. A sua fantasia era muito simples, e talvez fosse mais uma afronta à sua família conservadora e católica do que de fato uma fantasia. O longo tecido preto e o colarinho branco não deixavam dúvida de que estava fantasiado de padre, mas não era um padre qualquer. Ele sempre detestou o seu nome, pois tinha uma certa pompa e formalidade que não combinavam com ele. Este ódio ficou ainda maior, depois que descobriu que seu nome significava grão de bico. No entanto, para a sua fantasia se encaixava perfeitamente: Padre Cícero. Só de pensar na sua mãe, devota, vendo-o fantasiado, cometendo os atos mais pecaminosos, fazia-o extremamente feliz. Para completar, trazia um adereço pendurado em seu peito. Era um terço oco de madeira, cujo uma de suas extremidades era removível, perfeito para esconder um arsenal de drogas sem levantar quaisquer suspeitas.

Após alguns minutos caminhando, que parecem horas por conta do calor que fazia, chegou à concentração do bloco. Ele estava radiante, como gostava daquilo! Eram sete horas da manhã e já havia uma quantidade interminável de pessoas alcoolizadas, drogadas e se atracando, sem que o bloco sequer tivesse começado. Finalmente localizou os seus amigos no meio daquela loucura toda. Como bom padre que era, assim que chegou, mandou cada amigo abrir a boca, posicionando a “hóstia”, comprada de seu traficante de longa data, embaixo da língua de cada um. A cada um que recebia a “comunhão”, ele dizia “Corpo de cristo” e o fiel obedientemente respondia, “Amém”. Podia-se dizer que Cícero era um químico experiente, ele sabia qual droga e em que quantidade deveria ser tomada para que todos ficassem transtornados e sem nenhum pudor, mas que não se incapacitassem.

Uma batida surda e ritmada ecoa, como se um coração tivesse sido reanimado e começasse a se contrair e bombear sangue para o restante do corpo. Os metais vibram como um recém-nascido que emite os seus primeiros sons para se comunicar com o mundo exterior. Vagarosamente aquela massa começa a se movimentar, como se tivesse acordado de um longo sono. Neste momento, todos que estão presentes sabem que seus corpos já não pertencem mais a eles. Agora são parte deste ser mitológico chamado bloco de Carnaval.

Cícero não cabia dentro de si. Ele esperou um ano inteiro por aquele momento. Para ele, o Carnaval era quando a verdadeira personalidade das pessoas se revelava. Ele discordava de que as fantasias e máscaras possibilitavam você ser uma pessoa diferente. Na verdade, elas só davam a coragem e permissão necessárias para que a pessoa agisse conforme seus instintos mais primitivos e desejos mais profundos, sem medo de serem reprimidos pela sociedade. Era como se durante os cinco dias de festa todos acordassem que as regras e convenções sociais fossem suspensas e tudo que acontecesse seria automaticamente perdoado depois. “Ah, no Carnaval vale tudo”, diziam.

Depois de algum tempo espremido em ruelas, o bloco desemboca em uma praça ampla. A massa, antes compacta, se dispersa, mas continua viva. Cícero se afasta do grupo para comprar uma cerveja ou uma cachaça, para ele pouco importa. Sua visão está totalmente turva, mas ele avista, próximo ao vendedor ambulante, uma mulher fantasiada de freira. Seu hábito cobria o seu corpo inteiro, o que só atiçava a imaginação dele. A única parte aparente era o seu rosto delicado e seu olhar penetrante. Cícero é possuído por um desejo animal, pois tinha encontrado o seu par. Tinha encontrado alguém que pensava como ele, que o sagrado e o profano andavam juntos.

Ele se aproxima dela e elogia a sua fantasia. Ela faz menção de responder, mas ele é mais rápido e beija a sua boca. Ela fica sem reação, depois tenta se desvencilhar, mas por fim acaba se entregando. Alguns minutos depois, eles se separam. O olhar dela é de incredulidade, tentando entender o que havia acontecido, mas também envolto em uma onda de prazer. “Qual o seu nome?”, pergunta ele. “Irmã Ritinha”, responde ela. O tesão dele só aumenta, ele adorava como ela se mantinha na personagem. Ninguém estava interessado na vida real, só interessava o momento ali que eles estavam vivendo.    

Não era a primeira vez que fazia isso. Ele a pega pela mão e sabe exatamente aonde levá-la. Após uma breve caminhada chegam ao famoso terreno baldio próximo à praça, conhecido por todos os foliões como “motel”. Eles se agarram novamente. A mão dele começa explorar o corpo dela lentamente, como se quisesse fixar em sua memória cada curva e cada forma. Primeiro seus seios, depois suas coxas, bunda e por fim, sua boceta, completamente molhada. Ritinha agacha, levanta a batina e, com desenvoltura, chupa o pau de Cícero. Suas pernas fraquejam e ele é alçado aos céus com aquela sensação. Eles já não aguentam mais aquelas preliminares. Ritinha fica de pé, apoia as duas mãos espalmadas contra a parede e Cícero levanta seu hábito e encaixa seu pau, que não poderia estar mais duro, por trás. Eles haviam se transformado em um corpo só. “Meu Deus!”, exclama Ritinha. Com um sorriso malicioso, Cícero sussurra em seu ouvido “Falar o nome de Deus em vão é pecado.”

Depois de se recomporem, resolvem voltar à praça, onde o bloco havia se dispersado. “Você estava na concentração do bloco?”, emendou ele para quebrar o silêncio. “Não, eu moro na praça e resolvi ver a banda passar.”, respondeu ela. Ele estranha, afinal não há prédios naquela região, apenas algumas construções históricas como um museu, uma igreja e um convento. Ao chegarem na praça, percebem que o bloco já havia acabado, apenas alguns foliões bêbados e catadores de latinha ainda estão por lá.

Compreendendo que o fim daquele dia havia chegado, ele se oferece para acompanhá-la até a sua casa, já que segundo ela, era perto. Ritinha diz que não é preciso, pois ela já está em casa. Ele fica confuso com a resposta. Ela estende a mão para ele com a maior naturalidade e diz que foi um prazer conhecê-lo. Em seguida, ela anda pouco metros adiante e bate na porta do convento. Algum tempo depois, uma enorme porta de madeira se abre e ela desaparece no interior da edificação.     

Sem acreditar no que tinha acabado de acontecer, Cícero olha para a tatuagem em seu braço e depois à sua volta. Toda aquela água suja de mijo, latinhas de cerveja amassadas e restos de fantasia despedaçados nunca fizeram tanto sentido. Ele sabia, mais do que todo mundo, que ninguém passava incólume pelo Carnaval.

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