Silvia Argenta
– Senhora Cristina, sala número cinco!, gritei no alto-falante do salão. Há tempos desisti de falar normalmente porque ninguém me escuta. Às vezes, mesmo concentrando toda a energia na minha voz, a dondoca nem se abala, e preciso sair da sala e ir até o saguão para recrutar a pessoinha. Claro que o sorriso que abro é forçado. Já levei algumas broncas da coordenadora por conta do meu comportamento, mas paciência. As clientes sempre elogiam meu trabalho. Bom, dessa vez (glória!), meu grito funcionou, e em menos de um minuto a porta se abriu.
Uma mulher com o rosto conhecido entrou, mas não consegui identificar quem era. Antigamente, para descobrir o nome do ser, bastava perguntar em que novela trabalhou. Todo mundo estava ou já tinha passado pela Globo. Desde que me conheço por gente, vejo os folhetins, um alívio para a cabeça depois de um dia inteiro na labuta e no trânsito.
Hoje em dia, não tem mais disso não. A pessoa é famosa por causa do youtube ou do instagram. Influencer que fala, né? Como não entendo nada disso – aliás nem tenho paciência para entender porque meu celular é velho e meu 3G é uma carroça -, descobrir a identidade da cliente deixou de ser um prazer faz tempo.
Ao olhar para o rosto magro da moça que tinha acabado de entrar, logo saquei que não era artista global. Se fosse, eu saberia. Devo tê-la visto em alguma propaganda. Parecia educada e fina. Estava cheia de sacolas das compras recém-feitas no shopping. Nem com o dinheiro de um ano do meu trabalho eu conseguiria ter tudo aquilo. Como é que pode? O tempo que ela gasta dinheiro, eu fico enfurnada nessa sala trabalhando sem parar, morrendo de dor nas costas.
Abstraio, afinal preciso disso aqui para viver. Enquanto ela tira a roupa e faz um coque, prendendo os cabelos loiros, pedi que se deitasse. De tão grande, ela ficou com os pés para fora da maca. Deve estar acostumada, já que não reclamou. Aliás, se reclamasse tanto faz. Já vi cada coisa… Nem me abalo. Faço o que dá. Outro dia uma lá pediu para apagar a luz porque estava com enxaqueca. Fui obrigada a dizer que não fazia massagem. Como que eu ia conseguir depilar a mimadinha no escuro? Quase fui demitida, só que as outras clientes falaram tão bem de mim nesse dia que a coordenadora me deu uma segunda chance. Ela sabe que é difícil conseguir profissional qualificada como eu, especialmente nessa filial num shopping de grã-fino.
Enfim, perguntei à cliente loira se era sua primeira vez no salão e ela acenou que sim com a cabeça. Logo entendi que não queria conversa. Na ficha, o pedido era para depilar tudo. Comecei o trabalho pelas axilas. A abençoada quase não tinha pelo. Ma-ra-vi-lha! Todo mundo sabe que depiladora gosta mesmo é das pessoas peludas. Isso sim dá um prazer danado, bem naquele momento de arrancar da pele a cera quente dura repleta de pelos. Se for cliente homem, o prazer se triplica quando vem acompanhado de gritos de desespero. Mas ultimamente tenho preferido o trabalho fácil e rápido. Vapt-vupt. Sem emoção.
A cliente-sem-pelo-perfeita-para-finalizar-o-dia continuava muda deitada na maca. Ela nem se mexia. Só se movimentou quando tocou o celular. Atendeu e começou a discutir com alguém. Ofereci um roupão e ela saiu toda elegante da sala. Enquanto esperava ela voltar, olhei para baixo e percebi a minha barriga saltando por cima da calcinha. Quando vou tomar jeito?
O clima no corredor estava esquentando. Ouvi algumas frases soltas, como “sua incompetente, dá um jeito nisso”. E eu que achei que ela era educada. Decidi, então, checar as sacolas de compras. Pouca coisa me interessava. Perfume, sapato, café chique. Tudo com nomes impronunciáveis. Hmmm… um vidro de shoyu. Há alguns dias penso em fazer uma janta especial para o bofe. A loira, ainda no corredor, começou a se exaltar e gritou: “Cátia Úrsula, você está demitida. Amanhã procuro outra governanta”. Essa frase me bateu lá no fundo. Sem titubear, num misto de raiva e indignação, peguei o frasco e coloquei na minha bolsa. Um yakisoba cairia bem essa noite e eu não precisaria ter o trampo de ir até o mercado.
Ela retornou à sala com o rosto vermelho e se deitou ofegante na maca. A fúria com a empregada era tão grande que ela não parecia raciocinar direito. Fiz cara de paisagem, chequei novamente a ficha e o próximo passo era a depilação completa da virilha. Pedi que ela abrisse as pernas. Opa! Está peluda! Nem reparei se o shoyu era normal ou light. Não importa. Agora, fecha na prochaska! Será que depilo tipo bigodinho do Hitler? Não, não… vamos ver se consigo fazer as iniciais da governanta.
