Um sonho e um porta-malas

por Américo Paim

Peço a sua licença. Não sei se conhece esse acontecido, mas, careço de falar outra vez. Repito até como terapia. Já gastei muito tempo tentando entender isso. O povo diz: “tudo na vida tem um porquê”; “todo homem carrega a tentação dentro dele”. Oxe, é fácil assim? Não sei, mas pode ser útil contar de novo aqui. Quem sabe o amigo leitor possa entender ou até me ajudar.

Contava eu uns trinta e poucos anos, trabalhador, bem-apessoado, responsável, prestativo e um homem temente a Deus. Não digo que fosse feio. Tinha algum sucesso com as mulheres, mas, ainda solteiro. Morava em meu apartamento pequeno, comprado com suor. Gozava do apreço dos vizinhos, amigos e família. Meu trabalho de gerente do pequeno centro comercial dava um dinheirinho pequeno, mal conseguia guardar algum. Tinha o que precisava. Só sentia falta mesmo era do carro. Tinha inveja das pessoas que tinham carros grandes, bonitos. Sonhava com um conversível e resolvi juntar a grana. Abri mão de férias por sete anos. No dia certo, queria bater a porta de casa e sumir no mundão.

Pensei tudo junto, o carro, a viagem. A mala na mão e o caminho na cabeça. Um dia, o aviso da loja – chegou o carro. Ajeitei as férias com o patrão e, dias depois, fui buscar. Golzinho cor de chumbo, cara de novo. Não era meu conversível, mas, um dia seria. Saí dirigindo e até suava, de tão excitado. Com acessórios e garantias, raspei o tacho. Fiquei liso. Sobrou só o dinheiro da viagem.

 No fim da manhã, piquei o pé na estrada! Tanque cheio, água, biscoitos, sanduíches e uns disquinhos para muito tempo. Só ia parar para gasolina. Peguei a federal, sem destino, só pelo passeio. O carro rodando macio, eu orgulhoso, olhava, maravilhado, a paisagem. As terras, a gente na beira da estrada, os bichos, as casinhas. Aí, um problema. Não vou mentir, me distraí um minutinho e catei um buraco do tamanho da minha felicidade. O carro pendeu para a direita e, eu, sabedor da situação, de tanto andar com meus primos de carro, entendi que o pneu estava furado. Parei para trocar o bicho. Apesar da pouca prática, não demorei, mas acabei com um corte. Agora, precisava de um lugar para consertar o pneu e a mão.

Rodei um pouco e avistei um posto à minha direita. Tinha borracharia! Que sorte! Expliquei tudo ao rapaz. Ia demorar um pouco, mas tinha como resolver. Fui à loja de conveniência. Cuidei da mão e coloquei umas ataduras, que, por acaso, vendiam lá. Tomei um café. A loja vazia. Só a moça no caixa, bonita, de pele morena. Deu o meu tempo, paguei a conta e voltei à oficina. O rapaz já tinha feito a força. Ia embora, mas mudei de ideia. Resolvi abastecer o carro logo. Estava com meio tanque, ia ser rápido.

Quando parei na bomba e o frentista se aproximou, um carro grande chegou correndo e freou de vez no estacionamento. Um homem branquelo, nem baixo, nem alto, desceu apressado e passou em frente ao meu carro, indo para a conveniência. Não demorou a voltar, eu ainda estava pagando. Recordo que ele bateu a chave do carro dele e o tal não pegava. Paguei ao frentista, que logo se afastou. Já ia fechar o vidro para ligar o motor e sair, quando ouvi a porta de trás bater, do lado do carona. Me virei e o tal homem, dentro do meu carro, me apontava um revólver: “Fica na sua e dirige. Não vou lhe fazer mal”.

Seguíamos há uns quinze minutos e ele voltou a falar, me mandando parar em um trecho mais recuado que me mostrou alguns metros antes. Achei que ia ficar ali mesmo, sem direito a carta de despedida, testamento, nada. Parei. Me pediu a chave do carro. Ele ofegava. Com dificuldade para falar, me disse para abrir o porta-malas. Só aí reparei na mala, grande, em tom de marrom bem chamativo. Estava cheia, pois foi difícil carregar e colocar dentro do porta-malas, mas, quando ele abriu a mala, mas, não vi o que tinha dentro. De volta ao carro, ele ficou no banco da frente e eu no volante. Suando muito e cada vez mais tenso, me mandou colocar no noticiário.

Caiu a noite, rádio agora mudo, silêncio danado, eu pensando em como sair daquilo. Estava me borrando de medo. Foi quando aconteceu tudo. Essa é a parte da história para a qual lhe peço isenção, meu caro leitor. O que você faria? Preste atenção. Ele começou a passar mal, falava que não conseguia respirar. Fiquei dividido naqueles segundos, entre a pista, o revólver e o cara. Aí, ele deu um grito e apagou, a arma tombada no colo, ainda na mão. Baita susto! Nem sei como não virei o carro, com freada que eu dei. Desmaiou? Morreu? A estrada deserta. Celular sem sinal. Decidi largar o homem ali mesmo. Não queria confusão! Toquei no ombro dele uma, duas vezes, nada. Apavorado, desliguei o carro, apaguei os faróis, saltei, tirei o cabra de lá, arrastei seu corpo para dentro do mato, e com arma e tudo, larguei lá. Entrei no carro, a suar e tremer. Com o esforço, minha mão voltou a sangrar. Bati a chave e já ia sair, mas, lembrei: a mala! Corri assustado, abri o porta-malas, peguei a mala e já ia deixar lá com o infeliz, quando pensei que uma olhadinha não faria mal. Vocês me compreendem. Acho que qualquer um faria isso. Abri a mala. Nunca tinha visto tanto dinheiro na vida! Aquele dinheiro não foi só da conveniência, pensei. Pensei na hora no meu conversível! Ninguém vai saber. Não me viram sair do posto com ele, eu acho. Comigo, ele não usou celular. Só parei na estrada naquela hora da mala. O cara tá morto! O que fazer? Bati o porta-malas e saí dali o mais depressa possível.

Aos poucos, parei de tremer. Na placa, a próxima cidade estava a cinquenta quilômetros. Viajando em meus pensamentos, não reparei o buraco na pista. De novo. Outro pneu foi para o saco. E agora? Procurei um local mais escondido, mas não tinha. Uns dez minutos queimando o juízo, vi pelo espelho as luzes de um carro, ao longe. Torci para que passasse direto. Não passou, mas era a polícia. Voltei a tremer. Parou atrás do meu carro, à moda dos filmes americanos, com faróis acesos. Dois policiais vieram com lanternas, um de cada lado. Abaixei o vidro. A conversa foi essa:

– Boa noite, senhor. Está tudo bem?

– Boa noite, seu guarda, estou com um pneu furado.

– Seus documentos e os do carro, por favor.

– Claro.

Conferiram os documentos, confirmaram meu pneu, e um deles falou:

– Tudo em ordem. Talvez não saiba, mas essa área tem muito ladrão. Hoje, por exemplo, teve um assalto a banco na outra cidade e estamos procurando o homem. Saiu em um carro grande e tinha uma mala marrom. O senhor viu algo?

Mal respirando, falei:

– Ouvi um pouco no rádio. Espero que peguem logo o sujeito. Hoje em dia a gente não tem segurança, não é?

– Pois é. É perigoso ficar por aqui, assim no meio da estrada. Só tem borracheiro na cidade. Não é comum fazermos isso, mas, como o senhor está machucado, vamos ajudar a trocar o pneu e acompanhá-lo até a oficina. Poderia abrir o porta-malas, por favor?

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