Fábio Kalvan
Então ela vai? Certeza? perguntou Cláudio com cara de quem quase não acredita.
– Bom, pelo menos foi o que eu ouvi, respondeu Neno com as mãos na cintura, esperando o amigo terminar de amarrar o cadarço do tênis.
Laço feito, Cláudio recomeçou a caminhar mergulhado nos pensamentos.
– Ô, tonto, o Alemão é para lá, disse Neno, apontando para o lado oposto e se referindo ao bar de estimação dos dois.
Foram caminhando em silêncio, em contraste com a agitação que vinha das ruas do centro naquela sexta-feira de carnaval. A boa nova trazida por Neno fez com que Cláudio sentisse algo que não sabia nomear. No momento atravessavam a praça onde ficava a mal cuidada quadra poliesportiva em que ambos ralaram joelhos e dedões atrás de bolas de futebol. Cláudio viu diante de si o adolescente perna de pau que era tomado por um frio na barriga quando uma bola extraviada vinha parar em seus pés bem diante do gol. Era sua chance, mas e o medo de chutar para fora? Conseguiu então identificar o que sentia, exatamente quando chegavam ao bar.
– Rapaz, sua chance, hein…, Neno provocou.
– Pois é, estava pensando nisso, Cláudio respondeu com certo ar filosófico, decerto trazido pela terceira cerveja. Será que rola?
– Depende de você… Estou pensando em ir também, o bloco é bacana, vamos lá… se encontrar com ela, eu dou um jeito de sumir.
Mas nem tudo era tão simples assim, já que em assuntos carnavalescos Cláudio estava mais para uma quarta-feira de cinzas. Gostava mesmo era dos dias de folga, ignorando e sendo ignorado pela festa. Seria mesmo interessante ver o homem de estatura mediana, cabelos pelo meio da nuca para compensar as entradas que iam conquistando território e dotado uma barriguinha indisfarçável balançando-se atrás de um trio elétrico, ainda mais ele, guitarrista nas horas vagas, fã de rock, blues e, vejam só, polca paraguaia, mas ignorante de pai e de mãe em assuntos de samba, marchinhas e axés. Neno, sabedor das hesitações que habitavam aquela cabeça, foi logo dizendo:
– Carnaval não é só para entendido não, vai todo mundo, mesmo quem não samba.
Molhou a garganta com o que havia de cerveja no copo e arrematou:
– Aliás, samba é o que menos importa nesses blocos.
Nisso veio o garçom trazendo a nona garrafa, mais uma porção de batatas fritas e, ao que parece, uma boa dose de decisão, pois Cláudio disse de repente:
– Beleza, então vamos. Amanhã.
Mas do que eles falavam? E de quem? Falavam de Camila, nome de música e de mulher bonita, como era mesmo. Moradora dali do centro, meio que amiga de Neno, que a conheceu no curso de direito, que ele não concluiu, ao contrário dela. Camila não só concluiu como seguiu na carreira, tanto no ramo trabalhista quanto na ONG em que prestava assistência jurídica a mulheres vítimas de violência doméstica. Moça solar, que gostava de carnaval e por isso pretendia acompanhar um desses bloquinhos que têm tomado o centro nos últimos anos. Era ela quem, no mesmo momento e num outro canto da cidade, conversava com uma amiga.
– E então, o que vai ser desse carnaval?
– O que vai ser eu não sei, só sei que quero aproveitar um pouco, estou precisando dar uma desestressada. Ano passado varei o carnaval trabalhando, esse não vai ser assim não. Ouvi dizer há uns bloquinhos bem legais saindo amanhã e depois lá no centro.
– O quê? Fala mais alto, tá muito barulho.
– Bloquinhos no centro, ficou sabendo? Vamos? Camila gritou, disputando espaço sonoro com as vozes dos demais clientes do barzinho descolado recém-inaugurado e com um trio musical que castigava “Alvorada”, do Cartola. Para alguém tão dependente dos sons, aquela algaravia era um misto de excitação e de desorientação.
Alguma coisa vibrou no bolso da bermuda e de lá Camila retirou o celular. Encostou o aparelho na orelha esquerda, ouviu algo e o repassou à amiga. Com Bia não havia segredos, nela podia confiar, amiga fundamental para que Camila tivesse se tornado a mulher segura e confiante que era.
– É aquele rapaz? Cláudio, né? Bia perguntou devolvendo o celular, cuja tela mostrava a notificação do Facebook: “Cláudio deseja ser seu amigo”.
– Ele mesmo, amigo do Neno. Trabalha naquela loja de eletrônicos perto do meu escritório.
– Êêê, amiga, disse Bia soltando uma risadinha maliciosa. E então?
– Sei lá, ele parece um cara bacana.
No domingo, o bloco “Não aguenta, bebe leite” começara sua movimentação há meia hora quando Cláudio e Neno toparam com Camila e Bia. Dispensadas apresentações já que todos meio que se conheciam, ficaram trocando impressões sobre o ambiente, sobre as músicas e sobre a cerveja meio quente. Cláudio, à vontade numa bermuda larga, cabelos presos de um modo que lembrava um hipster que não deu certo e com a língua azeitada pelo que bebera pouco antes, puxava papo com Camila:
– Vi umas coisas interessantes que você andou postando no Facebook. E emendou: e tinha umas fotos em que você foi marcada, você bonita em todas.
– Ué, você anda me stalkeando?
– Não, não, é que…, Cláudio balbuciou para ser desarmado logo em seguida:
– Estou brincando, legal que você gostou. Só não demonstrou ter apreciado o interesse do rapaz, que, tranquilizado, deu uma gargalhada cujo som Camila achou engraçado.
– Vocês vão ficar por aqui? Bia perguntou.
Cláudio não soube o que responder mas Camila decidiu pelos dois:
– Vamos, está gostoso aqui.
Ficaram então sozinhos, já que Neno evaporara muito antes. Cláudio concordou mentalmente com a frase de Camila: estava gostoso ali, ele se sentia à vontade, o papo fluía e até conseguira evitar as idiotices mais graves, permitindo-se as menores, que acabaram por lhe dar um ar bem-humorado. De Camila se notava o mesmo, flutuava pela rua, cabelo curtinho, sandália confortável, reverberando no corpo a vibração das músicas. E um decalque “não é não” em vermelho bem onde o colo começa a se metamorfosear em seio que insistia em chamar a atenção de Cláudio.
Retomavam enfim a conversa iniciada semanas antes, quando se cruzaram numa daquelas festas em que todo mundo é amigo ou amigo do amigo. Conversa truncada, cheia de nervosismos, interrupções, desencontros. Mas algo ficara. Camila agora sentia Cláudio mais solto, menos preocupado em representar. Ela mesma, que na festa não baixara a guarda, acostumada que estava a ser sempre tratada como excentricidade, desfrutava agora a satisfação de ser vista como o que era, uma mulher como qualquer outra.
Já era noite quando Cláudio fez um movimento abrupto e sua mão roçou a de Camila. Foi um toque apenas, mas suficiente e significativo para quem conhece o mundo através das sensações táteis e sonoras. Camila tomou coragem:
– Posso tocar seu rosto?
– Tá meio suado mas pode.
Camila pousou as mãos delicadamente sobre a testa do rapaz, depois levou-as aos olhos, nariz, boca e queixo. Com um pouco mais de liberdade as colocou uma em cada ombro, percorrendo os braços e antebraços. A viagem das mãos fez o trajeto de volta ao rosto de Cláudio, quando então se separaram rumo às orelhas, percorridas várias vezes, num trabalho meticuloso dos dedos. Enfim as mãos se reencontraram na nuca, quando Camila aproveitou e trouxe para si a cabeça de Cláudio, já sabendo o caminho da boca. Cláudio embarcou na viagem.
