
Curioso como no atual zeitgeist feminista ninguém fale de Dorothy Parker. Ou melhor, entendo: Parker foi feminista bem antes de virar modinha. Suas narrativas invariavelmente retratam mulheres superficiais, burras, obcecadas por seus maridos, filhos e amantes, fúteis, reclamonas, sonhadoras, dominadoras, chatas, sentimentais, bipolares, venenosas, destruidoras – e engraçadíssimas. Desinteressada de militâncias e mais focada nas nuances psicológicas, Parker combatia o machismo por dentro, revelando, através dos estereótipos de suas personagens, as estruturas sociais que as aprisionavam em determinados papéis e convenções.
A principal arma de Parker é a ironia, em que ela é mestra total. Sua larga influência no humor, na história curta, no drama, na crônica e no retrato psicológico e social vão de Woody Allen a Tati Bernardi, passando por Paulo Francis, Tina Fey, Gore Vidal, Sarah Silverman e quem você se lembrar que tenha “witty“, aquela capacidade intangível de ser cruelmente sarcástico com charme e leveza. Como quando ela falou de certa dama da sociedade: “Ela fala 24 línguas, mas não consegue falar ‘não’ em nenhuma delas”.
A ironia é essa dupla operação da linguagem em que dizemos e não dizemos ao mesmo tempo. Como o mineiro da piada, o irônico diz que vai pra Curvelo pra gente pensar que ele vai pra Cordisburgo, mas ele vai é pra Curvelo mesmo. Em Parker, a ironia está na própria estrutura de cada narrativa. Com ouvido absoluto para as armadilhas da oralidade, ela constrói um texto aparentemente informal que fala muito mais nas entrelinhas do que à primeira vista.
Como no conto “A valsa”, em que a narradora está odiando dançar com determinado sujeito e internamente o estraçalha, mas não consegue parar de dançar, porque, talvez, no fundo, esteja mesmo querendo dançar com ele. Ou quando aborda, profeticamente, o “ghosting”, no clássico “Um telefonema”. Neste conto, quando rimos do patetismo da narradora que desesperadamente aguarda por uma ligação de seu crush, nos compadecemos de sua carência e de sua solidão, nos irritamos com a insensibilidade do homem que não liga e também compreendemos porque ele deu perdido na chata da jovem – tudo ao mesmo tempo. Em “Primo Larry”, a protagonista mascara seu tesão no primo mais velho tecendo comentários críticos à mulher do primo (é a mãe de todas as falsianes). E “De noite na cama” é o solilóquio de uma mulher que não consegue dormir. Como nos outros contos, parte-se de uma situação muito básica e simples que se desdobra em várias nuances.
Em Parker, o desejo está sempre deslocado, camuflado ou fingido, o que traz ao conto a tensão primordial. Mesmo sem criticar as atitudes de seus personagens, Parker revela seu egoísmo, sua vaidade, seu moralismo e seu apego às convenções. Essa isenção crítica estica a linha do arco narrativo, e o efeito é às vezes humorístico, às vezes muito melancólico.
Por trás do óbvio talento em criar situações e fazer descrições de personagens e lugares, detalhista ao extremo, existe a capacidade de criar símiles, metáforas e comparações esdrúxulas, exageradas, surrealistas ou às vezes eufêmicas e sutis: “suas unhas tinham um vermelho tão espesso que era como se ela tivesse acabado de matar um boi com suas mãos”; “toda vez que a sra. Ewing entrava num lugar, a calma saía dele”; “vista de outra extremidade de uma sala comprida e pouco iluminada, a sra. Ewing era uma mulher bonita”; “Lolita era tão quieta que só se notava sua presença quando uma luz se refletia nos seus óculos”; “a moça era novinha como um ovo sem casca”; “sua voz parecia íntima como o farfalhar de lençóis, e ele beijava à primeira vista”; “ela se dedicava à sorumbatez assim como artistas menores especializam-se em certas palavras, estilos de pintura ou espécie de mármore”; “era do tipo que se espera ver usada por homens que usam polainas e brandem bengalas sem consciência de si mesmos”, “usou na voz o tom baixo reservado para falar de roupas íntimas e banheiros e outros assuntos suspeitos” etc etc etc.

PROPOSTA
E é isso que você vai fazer.
Um monólogo, um solilóquio ou um fluxo de consciência. Na primeira pessoa. No tempo presente.
Atenção: o protagonista NÃO É VOCÊ.
Encontre alguém BEM diferente de você (em qualquer gênero, idade, cor ou nacionalidade):
- um geniozinho de start-up que teve sua ideia copiada por um colega
- um feirante preocupado com a alta no preço de determinada fruta
- um faxineiro encafifado com aquela mancha que não quer sair
- um gamer que descobre que sua namorada é a jedi de todos os gamers
- um chapeiro de burger truck apaixonado por uma vegana
- um bibliotecário angustiado com uma infestação de cupins
- um médico do SUS desesperado com a falta de vacina de febre amarela
- um mixologista que não consegue fugir do alcoolismo
- uma costureira míope e workaholic que tem TOC
- um DJ que teve o namorado roadie roubado pelo produtor
- um robô sexual que desenvolve tara por eletrodomésticos
- um sem-teto que é adotado por um gato com poderes mágicos
Abuse das símiles. Abuse da ironia. Abuse do sarcasmo.
Restrinja o uso de advérbios, adjetivos e verbos.
Objetivo: a narrativa NÃO ACABA BEM.
Mas: NÃO ACABA DO MODO COMO IMAGINAMOS em seu começo.
Em 6 mil toques.
