Enrolação

Daniel Pereira (da boca para fora)

– Espero que seja importante, Rafael.

– Boa noite para você também, chefe. Por que o mau-humor?

– Digamos que não estivesse nos meus planos encontrar o estagiário mais chato da firma às dez para meia-noite no fumódromo de um puteiro vagabundo na Augusta.

– Que deselegante. Falamos do glorioso Casarão, mais respeito, por gentileza. É preciso valorizar os serviços desse estabelecimento tão importante para a noite paulistana.

– Dispenso a aulinha sobre entretenimento adulto. Pode adiantar o assunto? Lamento se não é o que parece, mas eu tenho mais o que fazer.

– É, não parece mesmo.

– Engraçadíssimo.

– Eu achei.

– Vamos ficar a noite inteira nessa?

– Calma. Pede aquele whiskinho pra gente aquecer.

– Que papo é esse moleque?

– Porra, chefinho. Vamos desfrutar o momento. Essas belas moças. Vai dizer que não gosta?

– Eu vou embora.

– Não faria isso se fosse você.

– Eu tenho cara de otário né?

– Sim, bastante até.

– Olha só, seu merdinha. Se acha que vai chantagear pra conseguir qualquer vantagem sobre mim, pra crescer na empresa ou o raio que o parta, pode tirar seu time de campo.

– Quanta violência.

– Pela ultima vez, o que você quer?

– Já viu O lobo de Wall Street?

– Ah, vai tomar no seu cu.

– Que isso.

– Você é retardado?

– Nossa, pra que esse tipo de ataque?

– Desenbucha logo, seu bosta.

– Nossa, o que é isso? Uma reunião ministerial?

– Jesus amado. Quem é você eim? Um cosplay de Danilo Gentili do mundo bizarro?

– Tá bom, tá bom. Mas você já viu esse filme.

– Porra, meu filho. Acha que eu tenho tempo para ficar falando de cinema com você? À essa hora de uma terça-feira? Nesse lugar?

– Acho que você não tem lá muita escolha.

– Já vi a caralha do filme. Puta que pariu. É o que o Leonardo DiCaprio é protagonista, porra louca, doidão de droga, putanheiro que ganha dinheiro como corretor da bolsa.

– Que isso, chefinho. Você só vê as coisas pelo lado negativo. O cara levantou uma bela fortuna. Uma bela esposa. Se divertiu pra caralho.

– Porra, o que isso tem a ver com a gente?

– Pouca coisa, mas eu lembrei que quando eles vão tentar colocar o dinheiro na suíça, o cara do banco diz que a tradição é pelo menos 10 minutos de blabla antes de falar de negócios.

– Não é possível.

– O que foi?

– Eu não acredito que estou ouvindo esse monte de merda. O que eu fiz para merecer isso?

– Já te conto.

– Pode ser hoje?

– Acabou de passar da meia-noite, então acredito que nas próximas 24 horas eu deva começar.

– Seu senso de humor é extraordinário, mas será que poderia, por gentileza, ir direto ao ponto.

– Tudo bem, você venceu.

– Já?

– Viu só?

– Ainda não.

– Seguinte…

– Hum

– Eu sei que você tem um caso com a Paola, que vocês pagam propina para políticos, que lavam dinheiro para a igreja, isso para não entrar em detalhes.

– Opa, alguém tá vendo série merda aqui eim.

– Tenho como provar.

– Imagino. Tem aquele powerpoint do Lula?

– Olha, tá todo soltinho. Nem parece aquele sujeito irritado do começo da prosa.

– Pois é. Estou começando a me adaptar ao ambiente.

– Sabia que isso aconteceria. Mete toda essa banca de empresário fino. Sempre na estica. Frequentador de restaurantes finos. Conhecedor dos padrões de etiqueta da alta sociedade. Mas no fundo gosta mesmo de um puteiro sujo, bebida barata e mulheres de procedência duvidosa.

-Como você é burro, cara. Você fala de uma maneira burra.

-E mesmo assim está aqui sendo chantageado pelo burrão aqui.

-Estou me divertindo com sua ingenuidade.

-A minha?

-Sério, Rafa. Você acha mesmo que está no controle da situação?

-É o que parece, não é mesmo?

-Nem sempre o que parece é.

-Sério que você está querendo me intimidar com essa resenha furada de experiência? De ser o vividão, o que sabe das coisas? Se fosse assim mesmo não estaria nessa situação.

-E em qual situação eu estou?

-Na que eu quiser.

-É mesmo?

-É.

-Falando nisso, o que você quer?

-Tá ligado que eu posso acabar com a sua carreira, seu casamento e sua honra?

-Eita, tudo isso?

-E muito mais.

-Discorra.

-Bom, a Paola me contou tudo. Sei do caso de vocês, sei de como operam para lavar dinheiro da igreja, dos bancos e das empreiteiras. Sei que você gosta que ela te coma com um pinto de borracha. Acho que isso aqui já faria um belo estrago. Não acha?

-Nossa, que roteiro sofisticado. Quem que escreveu?  Pavão Misterioso? Léo Dias? José Padilha? Olha, acho que a Paola foi longe demais eim. Mas me conte uma coisa, geniozinho. Porque ela te falou isso?

-Tô comendo ela né ou você acha que ela transa com você porque te acha gostoso? É óbvio que ela não resistiria ao novinho aqui. Jovem, bonito e sarado. Esperto, engraçado e rico. Nem precisei de muito para seduzir.

– Bicho, você tem umas fantasias estranhas eim.

– Exagerei um pouco né?

– Um pouco?

– Você tá há meia-hora fingindo que tá me extorquindo.

– Foi convincente vai.

– Super, uma mistura Adam Sandler com Théo Becker. Tudo isso para disfarçar o que a gente tá fazendo na sua casa?

– Ué, mas essa era a intenção né. Quanto mais pala menos pala.

– Sei. Mas essa de comer a secretária é muito clichê, bicho. Puta que pariu. Você ainda anda fazendo aquela oficina de escrita criativa?

– Tô, por que?

– Putz, deve estar passando uma vergonha fodida.

– Um pouco, mas eu adoro escrever essas merdas quando estou chapado. Dá uma boa relaxada.

– Ah, sabia que tinha a ver com a verdinha. Falando nisso, vamos ao que interessa?

– Calma, cara. Já paramos de encenar. À propósito, você tava fazendo um péssimo chefe.

– Claro né, mano. Nunca trabalhei na vida, vou saber interpretar um chefe?

– É, faz algum sentido.

– Irmão, passa logo essa porra.

– Ah, aí perde toda magia.

– Que magia? Eu nem tô chapado ainda.

– Mas você não precisa ser tão explícito, assim eu me sinto um traficante.

– Por que será?

– Tó logo vai.

– Quanto é?

– Precisa ser tão direto?

– Cara, sua mãe já deve estar no sétimo sono.

– Fala baixo, porra.

– Ah pronto, fingir que tá no puteiro é suave?

– É arte, cara. Ela gosta desse meu lado artístico.

– Você devia se tratar.

– 100 mangos.

– Caralho, tudo isso?

– Mano, olha só o tanto de besteira que a gente falou. Eu fiz você encenar uma peça.

– É, pensando por esse lado. Talvez esse baseado seja meio pesado pra mim.

– Achei que você levou jeito, sabia? Trabalhou bem esse lance de intertextualidade, de metáfora.

– Para de ver coisa aonde não tem, eu só queria que você fosse logo ao ponto. Queria pegar a porra da maconha e vazar. Só isso.

– Não explica, porra.

– Demorou, Rafa. Quando acabar eu te procuro. Mas vamos pensar em um jeito exótico de fazer isso.

-Alá, tô falando que encarnou o personagem. ” vamos pensar em um jeito”. Temos um executivo aqui.

– Tchau, seu doente.

– Tchau, chefinho. Até amanhã na empresa, beijão para a Paola!

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