por Américo Paim
– Ah, você deve ser o Ernesto! Bom dia! Pode sentar onde quiser. Qualquer lugar. Só seremos nós dois na reunião.
– Bom dia, Doutor Silveira. Espero não estar muito atrasado.
– Que nada, rapaz. Estava vendo as notícias aqui na Internet. Acho que as coisas estão mais favoráveis para o nosso novo projeto.
– Boas notícias. Poxa, eu sempre quis conhecer essa sala. Enorme!
– Impressionante, não é? E está equipada com o que há de melhor em tecnologia para reuniões. Daqui falamos com o mundo inteiro!
– Pois é, eu pensei que essa conversa seria via Internet, mas a secretária do senhor ligou confirmando. Só vou pegar meu notebook. Um instante. É o tempo de achar o carregador. Melhor tirar a tranqueira toda da mochila. Fica mais fácil. É só… opa!
– Pode deixar, garoto. Eu pego.
– Obrigado, Dr. Silveira. Desculpe-me, sou muito desastrado.
– Que é isso, rapaz.
– Estou lendo esse nos meus intervalos. No metrô, no almoço, enfim, quando dá.
– Desculpe o meu riso, mas vocês ainda leem livros assim? Isso é coisa do meu tempo, rapaz. Precisa se atualizar. O mundo da tecnologia está aí para todos e chegou para a leitura também.
– O senhor fala do livro digital?
– Essa coisa aí do Kindle, do livro eletrônico. Comprei um para mim tem uns seis meses. Eu lhe digo que é uma tendência!
– É muito interessante mesmo. Mais uma opção para ajudar no hábito da leitura, é certo. Mas, ainda prefiro o tradicional, impresso no papel.
– Opção, não, meu caro. Solução! Uma beleza! E ainda é bonito!
– Sim, mas, me permita, não chega perto da estética de um belo livro. E nem estou falando dos que são produzidos artesanalmente, quase obras de arte.
– Quem está falando disso? Beleza não põe mesa! Olhe as vantagens práticas. Posso levar para onde quiser, sem carregar muito peso e ainda com muitos armazenados em um só lugar. Tem uma bateria que dura muito e, se você precisar, recarrega a qualquer momento em tudo que é canto. É o que há de mais moderno!
– Agora é o senhor que deve me desculpar pelo riso: parece estar lendo o material de propaganda da empresa para mim. O que disse é verdade, mas isso, como muitas coisas no nosso país, não é para todos.
– Como assim?
– Bem, nem todo mundo vai ter dinheiro para comprar o leitor digital. O preço é muito alto.
– Nem tanto assim!
– Talvez para alguns de nós, mas, a maioria da população precisa desse dinheiro para coisas mais básicas.
– Que nada, com um pouco de economia, dá para comprar. É igual a TV, computador.
– Economizar pressupõe sobra de dinheiro, Doutor Silveira. Para muita gente, mal está dando para pagar tudo com o que se ganha no mês.
– Se as pessoas pensassem nas vantagens, economizariam e comprariam!
– Senhor, o problema principal da leitura começa com a capacitação para a própria. Ainda temos muitos analfabetos. As escolas públicas são muito carentes, com um monte de problemas, creio que poderá imaginar. Os livros didáticos precisam chegar às crianças pobres e não acontece. Então, muita coisa vem de doação, né. Aí, só o velho livro em papel mesmo para resolver.
– Isso é outra coisa. Estou falando do acesso fácil, da praticidade. Uma maravilha. Você deveria ter um!
– Minha namorada tem um. Às vezes eu uso, mas, como disse, prefiro o modelo antigo. Gosto de olhar para ele na estante, em um lugar especial, só dele, que tem história. Ter o prazer de manipular, rabiscar nele, sentir o cheiro, admirar o acabam…
– Ora, meu rapaz, lhe interrompo! Isso já foi superado. Os modelos novos têm tudo que você está falando! Não dá para ter cheiro ainda, mas, você manipula as páginas como se fosse um impresso, têm luz própria e tamanhos diferentes. Até marcar o texto você pode. O projeto do livro digital ainda leva em conta ergonomia e conforto visual. Muito mais leve. É Engenharia a serviço da Literatura. O que você está lendo? Hum… “Um céu para todos”. Conheço esse autor. Já li outros dele. Temática antiquada. Até nisso você precisa refrescar sua cabeça. É velho demais. Ultrapassado.
– Acho que não leu direito. O nome é “O sol é para todos”, de Harper Lee, uma escritora. Uma mulher. Ela só publicou esse livro.
– Talvez eu tenha confundido, que seja.
– Sobre a temática, racismo e injustiça, nada mais atual! Não é essa miséria generalizada que está associada à falta de perspectivas? A questão racial e a econômica andam de braços dados em nosso país!
– Meu jovem, não vamos debater isso aqui. Meu foco é a tecnologia, o livro digital. O que o seu do modelo antigo vai fazer pelo fim da miséria?
– Bem, a educação e o acesso ao livro são símbolos de um país desenvolvido. Existe toda uma movimentação econômica por trás, o senhor há de concordar. As fábricas, editoras, livrarias, tudo gira. Pessoas conseguem trabalho, não precisam tirar filhos da escola e o conhecimento circula. Não é assim?
– O digital também é fabricado, gera emprego, moço. Além de tudo, o preço é mais baixo que o do comum! O que diz disso?
– O preço é mesmo mais baixo. Temos que recorrer a sebos, feiras, bazares e grandes promoções para encontrar preços mais baixos nos impressos, mas isso ainda existe. Digo-lhe que há até um certo prazer envolvido nessa peregrinação. Além disso, comprar um leitor digital ainda não dá para todo mundo, como lhe falei. Imagine cada aluno da rede pública de ensino com um leitor desses. Não estamos nesse nível, Doutor Silveira. Ainda precisaremos insistir no tradicional por muito tempo.
– Ernesto, não vamos resolver os problemas de educação do país nessa conversa! Você está fugindo ao tema! Estamos falando do livro digital!
– As coisas estão conectadas, com o perdão da palavra, as pessoas é que precisam estar mais.
– Não sei se lhe entendi. Você, que se acha tão correto na sua argumentação, me diga: e a questão ambiental? Você há de concordar que para fazer o digital não tem corte de árvores, combustível para transporte e tudo mais. Não polui!
– O que digo é que o sistema de produção de eletrônicos tem seus próprios limites, ainda a resolver também. Os dois setores estão evoluindo, até bem, para reduzir a poluição, mas ela existe em ambos. Posso até lhe sugerir um ótimo livro sobre esse tema, chamado “A história das coisas”. Saiu aqui no Brasil pela Zahar.
– Não conheço essa Zahar. É sua amiga?
– Zahar é uma Editora…
– Então deve ser de alguma amiga sua. Você é um sujeito difícil de ser convencido, caramba!
– Apenas argumento. Se os livros digitais são o futuro, para que isso não seja algo pior, temos que garantir acesso de todos à leitura, à cultura, à literatura. Do contrário, apenas contribuiremos para afastar mais as pessoas do hábito de ler e para aumentar o acúmulo de coisas, com mais um item eletrônico que compraremos, mas não usaremos e nem saberemos como descartar sem poluir.
– Que conversa sem pé nem cabeça. Vamos trabalhar, que é melhor.
– Claro. Vim aqui para isso. Antes, porém, apenas por curiosidade, o que o senhor já leu no seu leitor digital? Algum livro bom para recomendar?
– Ainda não li o manual de instruções.
