Silvia Argenta
Há tempos Marcelo desconfiava da esposa. Ela parecia cada vez mais distante, sem interesse pelos seus causos do serviço, suas últimas conquistas no videogame e muito menos seus feitos atléticos. Mal chegava do trabalho, ela já saía para ir à academia ou ao bar com as amigas. Todos os dias. Nos finais de semana, ela se enfurnava no escritório ou ia à praia, mesmo se o tempo estivesse chuvoso. A insegurança por não saber onde nem com quem ela estava o corroía. Cansado de espancar o saco de boxe, decidiu contratar um detetive.
– Boa tarde, Péricles!
– Segunda-feira agradável, não é, senhor Marcelo?
– Sim, o local de encontro foi muito bem escolhido. A vista desse café é incrível.
– Não é à toa. Tento acalmar meus clientes com essa paisagem. Normalmente quem me procura está aflito com alguma situação.
– Com certeza. Péricles, é minha mulher. Sabe como é? Anda muito estranha. São quinze anos de casados. Quero que ela fique mais tempo em casa… comigo!
– Hmmm… um caso clássico. Pode ficar tranquilo. O senhor vai querer que eu conte tudo o que descobrir?
– Claro! Não importa o que esteja acontecendo. Eu a perdoo de qualquer coisa.
– Certo. Tenho meus métodos e te garanto cem por cento que terei informações importantes para o senhor em uma semana.
– Quando começa?
– Amanhã mesmo.
A gente pensa em espionagem e logo imagina pessoas ágeis e discretas que conseguem se infiltrar em segundos na multidão ou numa sala secreta sem levantar suspeitas. Não era o caso de Péricles. Gordo e alto, chamava a atenção por causa da impostação da voz, já acostumado por liderar a banda de pagode que montou com os amigos. No café, todos se viraram diversas vezes para a mesa onde estavam sentados tamanha a eloquência com que falava e gesticulava. Mesmo assim, Marcelo confiou nas táticas periclenses e fechou o negócio.
No dia seguinte, o detetive já estava na cola da mulher. Mapeou os colegas de trabalho, acompanhou com quem ela almoçou e depois a seguiu até a academia. E assim foi por mais alguns dias. Péricles ainda não tinha conseguido descobrir nada que maculasse a imagem da esposa. Partiu para um contato mais próximo na noite de sexta-feira.
– Tem alguém sentado aqui?
– Não, fique à vontade.
– Tá cheio hoje, né?
– Sim, esse bar é bastante agitado. Tem vários tipos de chopes e uma batata frita ótima.
– Você tá esperando o namorado?
– Não… resolvi sair sozinha mesmo.
– Como você se chama?
– Silvia. E você?
– Ô, Silv…
– Po-po-pode parar!
– Que que foi?
– Ai não… desse jeito nem quero papo. Não fala assim comigo.
– Assim como?
– Cantando. Me faz um favor. Odeie essa música. E também odeie o Marcelo.
Ele prende a respiração.
– Que Marcelo?
– O Marcelo Nova, do Camisa de Vênus, o gênio criador desse estrupício de música.
– Por que? Ele é incrível! Símbolo de uma geração!
– Não é não!
– Claro que é! Simca Chambord não é legal?
– Não, ele é um escangalhado todinho.
– Nossa, ele era meu ídolo.
– No colégio só me chamavam assim. Por anos. Um inferno.
– Silvia Piranha?
– É…
– Ah, mas isso é coisa de criança.
– Sim, só que cantaram para mim por tanto tempo que virou trauma de infância. Reconheço alguns bons momentos da banda, mas o que é aquela frase “todo homem que sabe o que quer pega o pau pra bater na mulher”?
– É verdade, mas ele também fez uma crítica à violência contra as mulheres, com a Beth Morreu.
– Não importa. Por causa dele, as Silvias nunca foram valorizadas e não existe música que fale bem de nós. Já percebeu quantas canções maravilhosas têm as Carois?
– Isso é inveja, é?
– Tem pagode da Carol, axé da Carol, funk da Carol, indie da Carol, brega da Carol. Tem até Carol dos Beatles e do Elvis!
Depois de muita conversa fora e muitos chopes no bar, acabaram num inferninho bastante frequentado por pessoas bem mais jovens do que eles. A música eletrônica alta deu o ritmo para os corpos, que se encostaram por causa da pista lotada. Sem a possibilidade de encontrar alguém conhecido, ela o beijou. Péricles gostou, mas logo se sentiu duplamente derrotado. Primeiro porque não tinha conseguido encontrar nada para oferecer para o cliente. E segundo porque nunca tinha se relacionado com nenhuma investigada em vinte anos de profissão. Claro que isso não o abalou e cada vez mais se viu envolvido por ela. Já com o dia amanhecendo, os dois foram para a casa dele. Transaram e dormiram abraçados. Só acordaram no meio da tarde com o barulho do telefone dela tocando. Era Marcelo. Ela desligou o celular e, enrolada nos lençóis, olhou para o Péricles.
– Quem sabe você faz uma música pra mim?
– Quem sabe, Sil, quem sabe…
