Quintas e quintos

– Mô? Cê tá acordado?

– …

– Mô?

– …

– Cê tá acordado?

– Oi? Quê?

– Cê tá acordado?

– Agora tô, né? Que foi?

– Eu que busquei o Júnior hoje, né?

– Quê?

– Eu acordei agora pensando nisso. Eu busquei ele, não foi?

– Não sei. Que dia é hoje?

– Hoje hoje ou hoje ontem?

– Como assim?

– É que são três da manhã. Aí eu queria saber de que dia você tá falando.

– A gente tá falando se você buscou o Júnior ou não, né?

– É.

– Então é óbvio que eu tô falando de ontem.

– Credo. Grosso.

– Desculpa, amor.

– …

– É o sono.

– …

– Vem cá.

– Sai.

– Já pedi desculpa.

– Te desculpo se você disser que eu que busquei o Júnior.

– Hoje é quinta?

– Tecnicamente, hoje é sexta. Mas ontem foi quinta.

– Eu que busco ele de quinta.

– Mas eu não lembro de você ter trazido. Você não tava sentindo uma dor na perna?

– Acho que sim.

– Aí eu peguei o carro e fui buscar.

– Mas isso não foi na quarta?

– Quarta você levou o carro no mecânico.

– Isso foi na terça.

– Foi?

– É. Eu tava indo comprar pão com você e a gente ouviu aquele barulho esquisito.

– Mas o que aconteceu na quarta?

– Quarta eu tava sentindo dor na perna e você foi buscar o Júnior.

– E ontem?

– Ontem foi quarta.

– Não. Ontem quinta.

– Quinta eu busquei o Júnior.

– Não buscou.

– Como não busquei?

– Tenho certeza que ontem eu saí com o carro.

– Você foi cortar o cabelo.

– Fui. E de lá fui buscar o Júnior.

– Não foi.

– Tanto que ontem você até reclamou de sair porque tinha jogo.

– Viu como você tá falando de quarta? É quarta que tem jogo.

– Mas não era ao vivo.

– É?

– É. Você ficou vendo o jogo enquanto eu fui cortar o cabelo e buscar o Júnior.

– Não lembro desse jogo.

– Assume que eu tô certa.

– Não vou assumir. Eu busquei o Júnior quinta. Certeza.

– Não buscou. Para de ser teimoso.

– Você quer que eu minta, então?

– Não é mentira.

– Tá bom, amor. Tá bom. Você buscou o Júnior quinta, tá? Agora a gente pode dormir?

– Você é um grosso!

– Você quer que eu fale o quê?

– Você sabe que eu odeio quando você fica todo irônico comigo.

– Irônico? Eu?

– …

– Desculpa, amor.

– …

– É o sono.

– …

– Vem cá.

– Não encosta em mim.

– Credo. Já pedi desculpa!

– Todo dia a mesma coisa. Já falei que não gosto disso.

– Tá bom, tá bom. Falando sério, então. O que você acha que aconteceu ontem?

– Na quarta?

– …não. Quinta.

– Quinta você foi ver o jogo e eu fui cortar o cabelo. De lá, eu fui buscar o Júnior.

– Você tinha falado que eu tava com dor na perna.

– Tinha, mas você me corrigiu que isso aconteceu na quarta. E eu concordo com você.

– Certo.

– Dá pra você concordar comigo?

– A gente pode perguntar pro Júnior.

– Como perguntar pro Júnior?

– A gente pergunta e ele diz quem buscou ele. Se foi você ou eu.

– Mas isso é hora de acordar o menino?

– É o jeito.

– Por que você só não concorda comigo?

– Porque eu acho que você está errada. Pra mim, você foi cortar o cabelo enquanto eu fui buscar o Júnior.

– Você é muito teimoso.

– Eu sou persistente. É diferente.

– Que inferno.

– Posso perguntar pro Júnior, então?

– E se eu estiver certa?

– Aí você está certa, ué. O que é que tem?

– Vou estar certa, mas você ficou teimando comigo. Sem acreditar em mim.

– Você quer apostar? É isso?

– Sim. Quero que você vá no médico se eu estiver certa.

– De novo isso?

– É, ué. Você fica aí teimando comigo.

– Já falei que não é teimosia.

– Temos um trato, então? Se eu busquei ele quinta você vai no médico amanhã.

– E se eu ganhar?

– Você não vai ganhar.

– Mas e se eu ganhar?

– Aí eu vou no médico.

– Eu queria apostar alguma outra coisa mais… quente.

– Me larga! Tá pensando nisso logo agora?

– Eu tô pensando nisso desde que você me acordou.

– Então você se preocupa mais com isso do que com minha saúde?

– Eu não falei isso.

– Mas parece.

– Tá bom! Tá bom! Se eu ganhar, é você que vai no médico. Saco.

– Tá. Vai lá perguntar pro Júnior.

– E então?

– Ele não tava no quarto.

– Como assim não tava?

– Aí eu liguei pra ele pra perguntar onde ele tava.

– E aí?

– A esposa dele que atendeu. Ela falou pra gente dormir.

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