Zé do Brejo

– Pronto. – Valter fecha os olhos, segurando o telefone com o ombro esquerdo enquanto enxuga as mãos no avental.

A equipe de reportagem que o observa é pequena: apenas uma repórter, toda sorrisos, um cinegrafista e um rapazola que fica pra lá e pra cá, ele não sabe ao certo fazendo o quê. Mesmo assim os três, com suas mochilas de lona e aquela montoeira de fios e equipamentos, bastaram para povoar todo o balcão do seu bar. Quando a moça ligou, na véspera, Valter tinha usado o mesmo ombro para segurar o telefone, exatamente como agora, e aceitar, hesitante, o convite para dar a primeira entrevista de sua vida aos cinquenta e oito anos.

– Alô! É do Zé do Brejo? – A voz do outro lado é estridente, agradável como um parente enfadonho que chega sem avisar.

Os jovens trabalham para um jornal impresso – “um dos grandes o suficiente para ter sobrado”, nas palavras da repórter – mas estão ali para registrar o interior do boteco, querem filmá-lo, “vamos produzir um vídeo, é para o YouTube”, ela havia dito. Valter tinha fingido naturalidade, mas não sabe o que aquilo significa. Entende apenas que sua entrevista não vai passar na TV, no horário nobre, como algumas vezes ele tinha sonhado, antes de abandonar de vez a sua carreira para abrir o botequim.

Ele confirma, ali é sim o Boteco do Zé do Brejo. Sua tia distante prossegue, com sua voz de atração musical de comício em cidade pequena:

– Ah! É aí que faz o torresmo de rolo?

Percebe que o jovem com a câmera aponta agora o objeto em sua direção. Talvez esteja apenas ajustando o foco. A equipe tinha acabado de chegar quando o telefone tocou, não deu tempo nem de oferecer uma água. O maldito telefone, que toca o dia inteiro. Fregueses perguntando sobre torresmo, frigoríficos querendo lhe vender barriga de porco. Valter, quando quer sossego, puxa o aparelho da tomada. Sim, ele faz torresmo de rolo. E é só o que tem feito. Antes da fritura, na própria banha do porco, tempera as barrigas suínas do jeito que sua avó lhe ensinou, mas aprendeu sozinho a enrolá-las e defumá-las por, pelo menos, quatro horas, antes de irem para o tacho. O resultado é inacreditável.

– Eu quero encomendar, como funciona?

Explica que não tem como. Não funciona. Como se chegassem apenas para provar o seu argumento em tempo real, alguns clientes surgem na porta do bar, acham graça do pessoal do jornal ali parado. A repórter tira da mochila um gravador e um bloco de anotações. Para evitar o reflexo do sol, que lhe castiga os olhos, estica a mão direita numa pose estranha e olha para cima, como se estivesse sendo tirada para dançar por um gigante.

– Moço, você não tá entendendo! Você precisa reservar pra mim! Eu sou de Ribeirão Preto e tô descendo pra São Paulo amanhã, eu prometi pro meu pai, se eu não voltar com esse torresmo ele não me deixa nem entrar mais em casa!

Ele sabe que aquela piadinha é uma tentativa atrapalhada de gerar simpatia. Responde, tentando manter a paciência, que, se ele for reservar pra quem liga de Ribeirão Preto, vai ter que reservar pra quem liga de Guarulhos, de São Vicente, de Santos. O torresmo todo reservado e as pessoas ali no bar sem ter o que beliscar. Não tem como. Uma vez ligaram lá de Minas. Um goiano pediu pra mandar o torresmo pelo correio e até hoje ele não sabe se o gaiato falava sério. Ele tem a impressão de que todas as pessoas do Brasil conhecem o seu torresmo, por terem recebido aquele maldito vídeo no aplicativo de troca de mensagens. O vídeo que mudou tudo. E agora aqueles jovens estão ali para gravar outro.

– Mas moço, eu pago o dobro!

Valter ri, nervoso. Aquilo sim é uma piada, que arranca dele uma quase gargalhada. Não se trata de dinheiro, pondera. É só que… ele não consegue atender todo mundo. Depois do sucesso involuntário, passou de quarenta, talvez cinquenta quilos de barriga de porco por semana, para até trezentos quilos por dia. Um grupo grande e barulhento vem chegando, pessoas que Valter nunca viu. Alguém tropeça no fio de um microfone comprido, preso na ponta de uma vara, que o rapazola agora ergue até quase tocar o teto. O problema maior, incontornável, é que ele não confia em mais ninguém para preparar a iguaria, nem sequer para ajudá-lo no processo. Não quer e não pode comprometer a qualidade. A risada de Valter muda o semblante da repórter, como se o riso tivesse pulado de um rosto para o outro. Ela batuca uma caneta no bloquinho, fazendo pintinhas no canto da página. Ele então se precipita:

– Faz assim, minha senhora. Eu vou abrir uma exceção pra você. Quarta-feira então, quando você vier, eu vou deixar separado aqui pra você dois quilos, tá bem?

Ele bate o telefone e olha para o rapaz com a câmera. Torce para que ele não tenha filmado aquela conversa.

Deixe um comentário