por Américo Paim
Nada resolve, que saco! Será que tem lavandeira vinte e quatro horas no outro bairro? Essa hora só assim. Ainda tem gente que diz que Internet resolve tudo. Já tentei o que eu sabia e não sabia. Só rezadeira. Saudade da Dona Carmita. Ela resolvia isso aqui só de olhar. Se ainda fosse mancha nas costas. Sempre fui contra esses uniformes clarinhos. Sujam muito fácil! Com esse meu corpinho de rolha de poço, nem vou achar um que me empreste. Tô mais perdido que cego em tiroteio. Vão me mandar embora! Como fui me meter nessa merda?
“Impecável, imaculado”, ele disse, com aquela sua delicadeza de elefante manobrando em loja de vidraças. O sujeito, mesmo tendo estudo e sendo o chefe, de vez em quando pode ser grosso feito parede de cadeia, mas na sexta, exagerou. É tão gentil que a mulher só deve dormir de calça jeans. Se tivesse gritado os palavrões de sempre, eu nem ia estranhar. Devia era chegar lá segunda-feira com o uniforme tão limpo quanto a boca santa do chefe. Ele nem ia poder reclamar. Sem o dicionário da biblioteca, nunca ia saber o que ele quis dizer. É sem mancha! O pessoal não entendeu e se borrou, que eu sei. Só me vem na cabeça a Vó Zeza: “vá rezar para a Imaculada Conceição, a sem pecado – ela vai ajudar!”. Reza, santo, não sou disso, mas vai que. Pensando bem, é até engraçado essa coisa de santa, pecado, mancha. Minha mãe ia matar na hora, tenho certeza! Ainda ia dizer que eu não li os avisos. Como, com o corpão da Jussara na história? Aquela boca de se perder, aquelas coxas tamanho Maraca, aquela bunda que até santo olha. Ninguém é de ferro.
A visita do novo diretor. Grande coisa. Mas, eu podia ter me ligado. Lembrei logo do tempo de milico: tudo limpo feito bunda de neném. O sargento não falava delicado assim, bem sei. Mesmo com a faxina grande do dia, eu ia tirar de letra. Se tinha três uniformes? Tranquilo. Já tava usando um e, no fim do dia, mandava para a lavanderia. Esse só voltava na segunda. Ainda sobravam dois. Ia deixar nos trinques para não ter problema na tal inspeção. A merda foi aquele serão no sábado. Notícia boa. Melhor que aquilo, só ser atropelado. Ainda mais no lugar do “Tonho Galaxie”, aquele grandão bebedor miserável. Perdi minha noitada com os caras. Tinha que acordar cedo no dia seguinte. As coisas como são, né? Pra que levar o último uniforme pra casa? Só pra dar um grau? Tão inteligente. Vou tomar o lugar do diretor.
Me olhassem sábado de manhã e iam dizer que tinha visto passarinho verde. Eu devia saber que tava mais para caca de pombo. Mas, como esconder a felicidade, quando vi Jussara pela janela do refeitório? Muita sorte! Nem sabia que gente como ela fazia extra. Minha chance de chegar ali. Mandei bem naquele lero-lero. Como diz meu vizinho Joaquim: “é feio, fala mais que a nega do leite, mas tem lábia para vender fogão no inferno”. Não adiantou me cozinhar por uns vinte minutos, pois topou o sorvetinho domingo. Quem disse que eu consegui mais trabalhar direito? Nem reclamei quando fui limpar a sala de lubrificantes, visguenta que nem quiabo. Queda feia aquela. Se tivesse alguém lá, ia ser risada e assunto a semana toda. Ali eu devia ter me tocado! Mais um sinal. Eu, “assum preto, cego dos oio”, nem dei bola para a imundície que ficou o uniforme. Falar a verdade, nem lembrei da inspeção. Só pensava em sorvete, quer dizer, em Jussara.
Vá lá que eu tava bonito na sorveteria, mais cheiroso que filho de barbeiro, como diria meu pai, mas, fui burro de novo. Ela não quis que fosse buscar em casa e nem desconfiei. Chegou toda linda, toda de branco e eu cheio de sujeira na cabeça. Foi ali que me lasquei, mas, só queria levar aquele prêmio de loteria para casa. Tava tudo contra mim, é certo. Questão de tamanho. Minha vontade de transar com ela era tão grande quanto a estátua do Cristo Redentor! Minha mãe ia dizer que é pecado. Vou mudar: grande como o mar de Copacabana. Pronto, melhor. A chance de conseguir era pequena como fica o gol quando a gente vai bater pênalti aos 45 do segundo. Até que começou bem. Sorvete, caminhada, mão dada, umas cervejas, beijinhos inocentes. Fiz tudo certo e não percebi nada estranho. Mesmo agora, não vejo. Já era noite quando ela topou a esticada. Eu, inteligente com um jeguinho estagiário, esperto como Pedro Bó, embarquei.
Quem não faria o que fiz? A criatura chega aqui no apê, naquele fogo, no agarra todo, doidinha, com umas na cabeça – rapaz, será que ela cheirou alguma coisa naquela hora de sair, no banheiro? Bem possível. Nem parecia a quietinha que eu via de longe. É isso! Fui enganado. Sério. Claro que fui. Na hora do abafa, pegou mal quando ela falou no tal fetiche e perguntei se era algum tipo de comida. Admito. Mas, quando ela explicou, nem pensei duas vezes. O que tinha demais se ela queria transar comigo vestido com o uniforme? Eu nunca tinha feito assim, mas, ia criar problema? Tá louco? Aí foi a merda master. Na hora podia ter até ter sugerido a fantasia de gladiador do carnaval passado. É tudo uniforme mesmo. Não posso negar que nem liguei quando ela me pediu para lhe entregar a roupa antes de me vestir. Dava pra adivinhar? Não sei como não morri nem matei, quando ela saiu do banheiro com meu uniforme todo melado! De graxa! Porra, como assim uma mulher tem um pote de graxa na bolsa? Desejo de transar com homem de uniforme sujo de graxa? Ela planejou tudo e eu caí nessa. Não me perdoo. Acho que exagerei nos xingamentos. Deu até pena quando ela saiu correndo, com medo, aqueles gritos e ameaças. Será que vai dar problema na fábrica? Que se dane. Bem, isso é o de menos agora. Preciso limpar esse uniforme.
Situação ótima: vegetariano ganhando convite pra churrasco. Gastei tempo, dinheiro, não transei, tudo problema. Só me restaram essas malditas manchas e a hora de ir para o serviço chegando. Acho que vou lá me entregar logo. Vou ouvir é coisa e serei escolhido como voluntário pra ser despedido. Bem, dá tempo de tomar um banho. Deixa eu tirar o celular do silencioso. Porra, mensagem do Serginho essa hora? Me zoando que saí com a Jussara ontem. Nada escapa à fofocaria na fábrica, que merda. Outra mensagem. Me dei bem? Como assim? Tá digitando. Filha do novo diretor?
Ô, santa Imaculada Conceição, ficou tão fácil agora que vou até abrir mão da reza. Melhor a senhora atender um mais enlameado.
