Coreôfobia

 

O mais importante ao contar uma história é não atropelar os fatos. Eu poderia resumir em uma palavra: estrondo. Mas só quem sobe o morro, sabe que o ápice não é sentar a bunda no cume. Ou não sabe?

 

– Déteeeee nena. To meio anuviada, que dia é hoje, será que to com zaimer?

 

– Que zaimer mãe. Para de besteirol. Sábado, já é sábado outra vez.

 

– Acho que não lavamo o telhado desde o natal? Tu me ajuda ali com o esguixo e nóis em duas acaba rapidinho.

 

– Manhê, deixa o esguicho do senhor lavar o telhado, lavamo faz nem 15 dias. Nem tamo na estiagem ainda, vai se estrupiar de novo mexendo nas telha?  Alem do mais, hoje não posso.

 

– Lavamo é?  Ma capaz, nem ponto levei aquela vez. Que vergonha os vizinho passando e meu telhado com musguinho. Que falta faz o Nito, querido, Deus o tenha. Sempre disposto ajudar a main.

 

O telhado do vizinho é sempre mais limpo. Devo acrescentar aqui uma informação psicológica: Nona Josefa tem um histórico de alzheimer na família. Nódulo no seio, labirintite, hemorroidas, diabete, osteoporose; nada assusta mais do que esquecer a ordem das coisas e quem ela desgosta.

 

Claudete olhava para a mãe sentada na ponta da mesa, se lambuzando com um pé de galinha e pensava: como seria bom ter um emprego novo, fugir para o Paraguai e ser a filha bajulada que apenas visita.

– Deus ta vendo a senhora no segundo pezinho. Dá azar come os pé da galinha, dizem que a pessoa fica bisbilhoteira.  – No que o pezinho da galinha ganha assas e voa da mão engordurada da mãe e passa ralando na bochecha da filha.

 

 

– Te mete De1te! Já se viu! Azar é ter filho encostado, isso sim. Vê se abotoa salteado tuas blusa, quem sabe tu segura a língua na boca.

 

– Ta certo manhê. Agora crendice só serve se vem da senhora.

 

Claudete silenciosamente levantou, limpou a gordura no rosto com a barra da saia, tirou a louça da mesa sem olhar nem de revesgueio para a mãe. Sabia que só de fitar cutucava a matriarca para um desenrolar de conversas e lamuria sem fim.

 

Nona Josefa levantou, recolheu o pezinho de galinha com os dedinhos carcomido do chão da cozinha. Olhou para a filha querendo pronunciar algo, mas já tinha esquecido. Fez minuciosamente o caminho de volta a mesa, pois sabia que se uma pessoa esquece um fato, ela deve voltar ao lugar que pensou nele que logo lembrará. Quando sentou na cadeira, já esquecera o porque a mesa voltara e nem ficou mal com isso. Desta vez esqueceu que estava se esquecendo.

 

***

Que formoso era as curvas do pano drapeada no seu quadril. Claudete estava radiante, havia costurado e bordado todinho a mão seu conjuntinho de carnaval.  Deu uma sambadinha frouxa na frente do espelho enquanto escovava o cabelo. Olhou para as sapatilhas e viu que suas madeixas se enleavam no chão. Parou de dançar na hora. Isso era pressagio que sua vida estava atrasando.

 

– Deté, nena vem cá um pouquinho!

Foi escutar o agudo da voz de sua mãe para largar a escova e sair correndo. Apesar de eximia filha, não pensem que de encontro a mãe. Disparou no sentido contrário de Nona Josefa, impávida com sua bacia de bolacha no degrau da porta.

 

– Crendios padre, vai onde parecendo um merengue de bolo?

 

– Olha o zaimer manhê. Te falei que hoje tem baile de carnaval no Tope da Serra

 

– E vai assim com um rasgo na bunda? Ta fantasiada de pedinte?

 

Agora Claudete tinha que correr para concertar o rasgo na saia pra não perder a carona. O baile era no topo do morro da pedra branca e subir caminhando seria derreter a maquiagem.

Pegou a malinha de costura embaixo de sua cama, passou a linha na agulha, se contorceu caçando a fenda costurando de pé mesmo, pronta pra sair.

 

– Tu vai no entrudo e eu no enterro! Crendios, não sabe que dá mau agouro costurar roupa no corpo Déte? Só se costura a mortalha em defunto!

 

Pra acalmar a mãe, Claudete tirou a saia e jogou pra ela terminar de costurar. No que Nona Josefa, fincou a agulha no tecido, essa se partiu ao meio e o tintilar discreto da agulha caindo no piso fez sua alma sussurrar: Agulha que quebra enquanto se costura é morte chegando, nem mais tão futura.

 

Da mesma rapidez que pegou a saia devolveu pra filha fazendo sinal pra vestir rápido.

Claudete com a cabeça no baile, nem percebeu qualquer mudança de atitude na mãe e se despediu com um beijo estalado na orelha de nona Josefa, como fazia quando era pequena.

 

Quando uma pessoa se esquece de alguma coisa, ela volta ao lugar da última lembrança pois logo lembrará do que esqueceu. Nona Josefa catou a bacia de bolacha, foi até o primeiro degrau da escada, ficou um tempo imóvel e gritou:

 

– Déteeeee! Déteeeeee, vem cá um pouquinho.

 

Nada. Não lembrou absolutamente nada do que pensara ter esquecido.

Foi então para a cozinha, sentou na caixa de lenha se entuchando de bolacha no que viu um pontinho prata brilhar na entrada do quarto da filha.

Se aproximou, era uma lantejoula que cairá do bustiê de Claudete. Ai lembrou que era quaresma, a filha um dia disse que sambaria com o Demo e  como prévio a agulha quebrada, alguém iria morrer.

 

***

– Os defuntos parecem cansados. – Disse Claudete rindo de uma trupe de amigos que confundiram carnaval com Halloween. Parados em seus trajes de zumbis e demônios, esperando o álcool bater para ter algum tipo de divertimento.

 

O carnalejo, sonoramente não se diferenciava muito de um baile convencional. Fora o fundo de pandeiro mal aspectado nas músicas sertanejas. O grande atrativo do baile era a banda fantasiada de tatu-bola e as pessoas dando voltas e voltas no salão jogando papelzinho picado. Era a festa dos sentimentos desenfreados com a desculpa da possível eclosão de um recalque guardado por 360 dias.

 

Claudete ia saltando de braço em braço, gravitando no salão. Sacode pra cá e sacode pra lá quando esbarrou num ser fantasiado numa mistura de fantasma com botija. Deu mais uma volta e de longe assiste a botija esta sendo pisoteada no meio de uma coreô, da banda tocando  Deixa O Meu Tabaco de Simone e Simaria. Da mais uma volta e reconhece o bordadinho que ela mesmo fez na barra do vestidinho e os olhos apavorados da nina Josefa nos  furos feito na capa do botija.

 

Nona Josefa aflita, tentou sair do meio da coreografia procurando a filha. Quanto mais alguém fazia um passinho do seu lado mais ela se afugentava. Não suportava o rebolado das meninas até o chão e os bracinhos frenéticos pra cima, tadinha ela sofria de coreôfobia.

De súbito, uma luz bruxulenta levou o foco até Claudete, que já bebinha, se enroscava no pescoço do filho do Tibola fantasiado de demônio. Nona Josefa ao ver a filha beijando o capeta, aproveitou que se esquecia das coisas e esqueceu da sua hérnia de disco. Saltou pela janela fazendo um estrondo ao cair nas tabuas das mesas lá fora.

 

Sentou no alto do morro chorando. Como faria agora para lavar o telhado? Como faria pra voltar par casa com a perna estropiada?

Talvez fosse melhor fazer como uma botija, rolando.

 

 

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