Dois dedos

Por Filipe Masini

Entreouvido em um condomínio na Barra da Tijuca.

Respirações pesadas; gracejos falados ao pé do ouvido; um movimento em falso; uma luz acesa.

– Que porra é essa? Você tentou enfiar o dedo no meu cu?

– Calma, amor…

– Calma não! Não me diga para ter calma, o cu não é seu.

– Não é isso. Eu estava pensando aqui, sabe. Podia ser legal tentarmos algo diferente.

– Que ideia de merda. Só pode ter sido coisa daquela sua amiguinha feminista e maconheira. Ela deve estar colocando essas bobagens na sua cabeça. Já falei que não quero você andando com ela.

– Mas eu conheço a Denise desde que somos crianças. Ela é madrinha da Laura!  

– Pois é, não sei onde estava com a cabeça quando concordei com isso.

– Ok, não vamos voltar à essa discussão novamente. Não tem nada a ver com a Denise, só queria uma experiência nova

– Porra, o que tem de ruim com o que fazemos? Tá tudo certo, tudo se encaixa direitinho, da forma que Deus quis. Na verdade, pouco me interessa se você está ou não insatisfeita, só não vai ser o meu rabo que vai pagar o pato.

– Você é tão cabeça dura. Do que você tem medo?

– Olha, vamos deixar uma coisa bem clara: minhas duas mulheres anteriores tentaram e não conseguiram. Quem gosta disso é veado e eu sou sujeito homem.

– Amor, não tem nada a ver com opção sexual. Dizem que é uma região extremamente prazerosa. Você vai adorar!

– Chega dessa lenga-lenga e vamos voltar ao que interessa. Quero acabar com isso loto, amanhã tenho uma reunião cedo com os rapazes do condomínio.

– Então me explica por que quando você vai ao Dr. Bandeira, você volta todo alegre? Você acha que não reparei? Por que sua consulta anual passou a ser bimestral? Nunca vi alguém ir ao proctologista com tanta frequência como vocês…

– O que você está querendo dizer com isso? O Dr. Bandeira é um amigo querido que conheço desde meu tempo de exército. Um homem digno, respeitável, forte e de caráter.

– Claro, imagino… Forte, não é?

– Você está insinuando alguma coisa?

– Nada… Só fiquei pensando o que as pessoas comentariam se soubessem dessa sua fixação com problemas de origem proctológica.

– Você está me chantageando?

– Vamos, amor. Deixa eu tentar

– Ok, mas se alguém ficar sabendo disso, eu te mato. Você sabe do que sou capaz.

Xeque-mate; cuspida; dedo deslizando 

– Jair, relaxa, ninguém vai ficar sabendo.

– Michelle, cala a boca! Enfia mais um dedo.

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