
Milton Hatoum tem um percurso muito original na literatura brasileira. Descendente de sírio-libaneses cristãos e muçulmanos, nasceu em Manaus, estudou arquitetura, viveu na França e na Espanha antes de se mudar para SP e só publicou o primeiro livro, Relato de Um Certo Oriente, aos 40. Seu texto mixa a capacidade fabulatória árabe com sabores amazônicos, enquadrado por uma linguagem clara e exata, nada folclórica. É um grande conhecedor dos processos do afeto, sabe tudo de arco de personagem (como se pode ver em Dois Irmãos). Quase sempre romancista, também é craque no conto e na crônica (escreve no Estadão). E é autor da coletânea de ficções breves A Cidade Ilhada (todos os seus livros saíram pela Cia das Letras), de onde tirei o conto abaixo.








Ao final vemos as duas histórias interligadas: a descoberta do sexo pelo adolescente e o momento luminoso em que “se torna homem” ocultam o fato de que a mãe de um amigo precisa se prostituir para sobreviver. O que na superfície parece se tratar de narrativa erótica traz no fundo uma reflexão sobre a luta de classes sombreada por uma espécie de culpa.
PROPOSTA
E é isso o que você vai fazer. Um conto estruturado em DUAS visitas:
uma visita que aconteceu em um passado distante;
uma revisita àquele mesmo lugar, tempos depois.
Narre na primeira pessoa.
Dica: use memórias suas – mas o protagonista não será você, e sim outra pessoa (você pode mudar idade, gênero, raça, nacionalidade etc).
Seu personagem será mostrado em dois momentos, portanto pense que ele pode ter mudado fisicamente, mentalmente, sentimentalmente. Ele pode ter ganhado outra dimensão daquilo que aconteceu com ele na primeira visita.
Pense nas DUAS histórias: a superficial e a oculta. Pense que no fim do seu conto a história oculta irá aparecer, mas já estava desde o começo lá dentro da história superficial.
Em uns 7 mil toques.
