Já conhece nossos planos?

Fábio Kalvan

Meio da tarde quente de um dia de semana no pequeno e único Shopping Center da cidade. A mulher avança sem muito rumo, sacola de plástico à mão, vê as vitrines apenas por ver, à espera de que o tempo passe.

“Boa tarde. Posso falar com a senhora, rapidinho?”.

“Xiii, minha filha, não estou podendo comprar nada. Desculpa”.

Fabiana sente uma abertura maior que a dos demais transeuntes, em geral antipáticos. Endireita o corpo e ajeita os panfletos no pequeno estande de corredor.

“Não, a senhora não vai pagar nada agora. Já conhece nossos planos?”

“Plano de quê?”

Planos funerários, é esse o bico que Fabiana arranjou, estava mesmo precisada. Para quem foi operadora de telemarketing, balconista de padaria e funcionária de petshop, vender caixão é o de menos.

“Jesus amado… é um consórcio de caixão?”.

“Claro que não, é muito mais. A senhora se associa, paga um valor bem pequeno por mês e tem uma série de benefícios”.

“Benefício? Mas desde cemitério é benefício, minha filha?”

“Não, não, não é isso…. Deixe-me explicar para a senhora: no caso de falecimento, nossa empresa cuida de tudo, o transporte e a preparação do corpo, a ornamentação do velório, a locação da capela e, claro, a urna”.

“Urna?”

“O caixão”.

“Ah tá… Entendi. A Neusa, uma vizinha minha, disse mesmo que está pagando um plano desses”.

“Então vamos fazer, Dona… Dona…?”

“Cleide, minha filha”.

“Então, Dona Cleide, vamos fazer? Só precisa preencher a ficha e assinar. Pense nos benefícios. E vale para todo mundo, para a senhora, seu marido…”.

“Não, para ele não, esse já foi faz tempo”.

Oito anos, para ser mais exato. Levado pelo infarto, Jurandir não deixou muitas saudades.

“Saudades? Nem tanto, minha filha, nem tanto. Na verdade quem descansou fui eu. Sofri com ele, viu. Ele não fazia nada em casa, só sabia trabalhar e ficar na frente da televisão. Fora as puladas de cerca”.

“Que coisa… Olha, minha mãe também sofreu na mão do meu padastro. Aquele bebia de tudo. Chegou a bater nela, acredita? Sorte que ela conseguiu levá-lo à igreja. Virou um santo”.

“É cada cruz, minha filha”.

“Então, Dona Cleide, seja como for, nossos planos ajudam muito, porque quem tem cabeça numa hora dessas, não é mesmo? E tudo fica mais em conta”.

“Pois é, gastamos um bom dinheiro”.

“E depois a gente nunca sabe o dia de amanhã. O pessoal não gosta de falar muito do assunto, mas como meu chefe diz, essa é a mais certa das horas incertas”.

“Tem razão, a hora de todo mundo chega. A minha também vai chegar, mas não estou com pressa não. Se alguém quiser passar na frente, pode passar. Por isso que esse negócio de plano funerário não sei não… Parece que a gente está chamando coisa ruim…”.

“Besteira, a senhora está inteirona, vai viver muito ainda. Queria eu ter a disposição da senhora… nossa, saio daqui e não tenho força para nada. Preciso estudar, fazer faculdade, mas e o ânimo?”

“Isso, certíssimo. Tem que estudar. Não vá ficar dependendo de homem. Conselho meu…”.

“Verdade… tenho que pegar firme, tomar um rumo. Com relação a homem, já me basta o Claudinei que não paga a pensão direito… Mas voltando, Dona Cleide, a senhora está cheia de saúde, ainda assim é bom pensar no futuro, para não ter dor de cabeça depois. Vamos fechar um plano? Não precisa ser o mais caro, pode ser um mais em conta”.

“Mas tem de vários tipos?”

“Tem. Tem uns bem caros, mas também, cobrem caixão do bom, estofado, capela com ar condicionado, cremação e até comida para servir no dia. Mas acho besteira, quem vai pensar em comida numa hora dessas?”

“Sempre tem, minha filha, é que nem casamento, tem sempre um parente que sai falando mal”.

“Tem razão, sempre tem alguém… ó, Dona Cleide, esse aqui, o master: duas coroas de flor, remoção e traslado do corpo, custos do cartório, urna padrão com visor e acesso ao nosso exclusivo clube de descontos. Básico porém com o necessário”.

“Nossa, até nessas horas tem diferença, enterro de rico e enterro de pobre, onde já se viu… ô desgraça de país”.

“Mas seja rico, seja pobre, não vai escapar. Uma hora o facão chega. Por isso é importante a gente estar prevenido, melhor ainda se for com um dos nossos planos”.

“É como diz o outro lá: ‘a gente tem que viver como se o dia de amanhã fosse o último, uma hora a gente acerta’. Eu mesma quase parti, acredita, minha filha?”

“É mesmo? Acidente?”

“Nada… menina, me deu uma dor aqui, meio do lado, meio para baixo, veio do nada”.

“Rim”.

“Apendicite, e das bravas… A operação deu certo, mas depois peguei uma infecção, fui parar na UTI. A coisa foi feia”.

“Misericórdia”.

“Só não fui porque Deus não quis. Ou porque não era minha hora. Falei para o Doutor Jorge, que cuidou de mim, que aquela bola tinha batido na trave. Mas ele não concorda, ele acha que a bola entrou, o juiz é que não viu”.

“Ô Glória. Que coisa, de uma hora para outra. É por isso que às vezes eu paro e fico pensando na vida, no sentido disso tudo, da gente estar aqui, conversando, aproveitando esse ar geladinho e amanhã não estamos mais”.

O pensamento de Fabiana vai longe mas volta logo.

“Vamos fazer, Dona Cleide? Eu faço um descontinho. E ainda por cima a senhora me ajuda”.

“Não sei, acho melhor gastar com coisas para vivo”.

“Pense bem, pode servir para os familiares também. A senhora não tem filhos?”

“Tenho. Aliás, já tá na hora do Reginaldo… o meu filho… vir me buscar. Falou que ia pegar aquele carro velho e viria, aquele imprestável”.

“O carro?”

“O Reginaldo. Não quer saber de trabalhar. E nunca deu para estudar”.

“Então, a senhora pode colocá-lo como beneficiário do plano”.

“Xiiiii… se ele é sossegado para viver, imagine para morrer…”.

“Olha lá, Dona Cleide, é bom estar preparada”.

“Sei não, minha filha. Acho que para essas coisas a gente nunca está preparada. Parece sempre uma novidade, uma má novidade… Bom, deixa eu ir que deu minha hora”.

“Certeza mesmo que não quer fazer? Tó aqui. É só ligar”.

Dona Cleide bate o olho no panfleto da Funerária Boa Viagem e o guardou na sacola plástica.

“Fabiana? Obrigado, Fabiana. Qualquer coisa eu te ligo”.

Fabiana sorri amarelo e suspira vendo Dona Cleide se afastar.

“Caramba, está difícil ganhar dinheiro com a morte dos outros”.

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