Esfrega…
Esfrega…
Esfrega…
Sai, buceta. Já mandei sair. Vamos, vamos, vamos. Quem você pensa que é? Vai sair ou não vai?
Você tem que sair. Ou ainda não entendeu? Eu não vou desistir. Vou buscar a cândida, o detergente e te esfregar até você desaparecer. Sabe o lobo mau da história? Que assopra, assopra e assopra? Vou fazer que nem ele. Vou ser o lobo mau da história. Mas é outra versão. Uma versão minha em que o lobo mau vence e janta bacon com a esposa e os três filhos. Vou esfregar, esfregar e esfregar e você vai sumir.
Esfrega.
Esfrega.
Esfrega.
E se teimar comigo, vai ser pior. Vou apelar pro bicarbonato, pro limão, pro talco, pro vinagre e pro que tiver nessa casa. Seja o que Deus quiser. Achou que eu não conhecia esses truques? Sou velha de guerra, meu filho. Eu sei das coisas.
Sai, filho de uma boa mãe. Ou você ainda não entendeu que não pode ficar onde está? Eu quero voltar pra casa hoje, sabia? Quero chegar em casa, tomar um banho quente, montar meu quebra-cabeças e fazer uma pipoquinha pro meu neto. Ele vai estar lá e eu queria aproveitar. Dá pra colaborar comigo?
Esfrega… esfrega… esfrega.
Deus do céu. Só sai! O que o patrão vai falar quando chegar? Você acha que ele vai descontar só em mim? Ele é bravo, você sabe. Vai sobrar pra todo mundo. Inclusive pra você. Por que você não escuta quem sabe das coisas e só desaparece? É mais fácil desaparecer.
Esfrega. Esfrega. Esfrega.
Buceta. Por que você não sai? Que merda que você é? É isso? Você é um pedaço de merda? Por isso que é tão nojenta e fedida? Úmida desse jeito, deve ser. Espalhando seus dedos podres nas coisas do patrão. Já pensou eu comentando isso com ele? “Não consegui limpar um pedaço de merda das suas coisas”. Credo. O que é que ele diria? Não consigo nem imaginar. O que será que ele faria com a gente? Me espancaria, no mínimo. Esfregaria minha cara em você, jogando pra mim a responsabilidade. Logo eu, que nunca nem quebrei nada. Até parece. Me humilhando sem motivo enquanto ele fica jogando as sujeiras dele pra debaixo do tapete? Não. Se acontecesse, eu seria obrigada a reagir. Mas não vai acontecer. Não vou deixar. Você precisa sair.
Esfrega, esfrega, esfrega.
Deus. É impressão minha ou você tem a cor do batom que eu tava usando na segunda? Caramba, se você for de algum batom meu e o patrão descobrir… Deus, não quero nem pensar. É maquiagem que você é? Por isso que é tão chamativa e carmim? Brilhante desse jeito, deve ser. Ai, Deus, me proteja. E se for minha culpa? Será que o patrão descobre? Não deve ser. Não. Deve ser merda. Espero que seja merda. Aí ele pode até botar a culpa em mim, mas minha consciência vai estar limpa. Só sai, filho da puta.
Esfrega esfrega esfrega.
Você é uma mancha de sangue, é isso? Por isso que é tão espessa e viscosa? Grossa desse jeito, deve ser. Vou tirar uma foto. Já pensou? Aí você é sangue, eu ajudo a jogar meu patrão na cadeia e saio no jornal como a heroína da história. Se bem que o patrão pode olhar meu celular antes de eu voltar pra casa, né? Melhor não arriscar. Vai que ele resolve dar uma olhadinha na galeria e descobre sua foto lá. Aí já sabe. Meu neto vai ter que se virar sozinho com a pipoca.
Esfrega esfrega esfrega, esfrega, esfrega, esfrega. Esfrega.
Tá.
Entendi.
Você não vai sair mesmo? Tudo bem. Eu sei que não é pessoal. Fiz o que eu pude, mas não adiantou. Mas você sabe como é, né? Segunda-feira estou de volta. E, com o tempo, você desaparece. O patrão não vai me demitir. Talvez eu seja castigada, mas vou sobreviver. Você, não.
Com o tempo, você vai sumir. Eu vou voltar, dia após dia, mês após mês, ano após ano, te esfregando até você desaparecer. E você vai. A mancha vai diluindo, diluindo, diluindo até ninguém mais notar. Só eu vou notar porque, bom. Sou eu que limpo. Mas pra todos os outros, você vai deixar de existir. Vai virar um nada. Sou velha de guerra, meu filho. Eu sei das coisas. Não é a primeira mancha que eu tiro de um brasão da polícia.
