Missa negra

por Susy Freitas

 

Esses assassinos acham que podem me enganar, mas eu os conheço como se tivesse parido, em verdade já derramei leite do meu peito para alimentá-los, e eles, é bem verdade, sim, que me trouxeram tantos restos de comida que precisei de doações de roupas para me manter aquecida na época das chuvas de tão rechonchuda que me tornei, e não apenas sobras de arroz ou macarrão, mas carnes, peixes, uma dieta balanceada disposta por todas as lixeiras ao longo da Torquato Tapajós chegando nos bigodes daquela famiglia de felinos parada dura, então sei muito bem com quem estou lidando, e mesmo que eu não tivesse criado as peças, é com pouco que se constata que Marduk não é flor que se cheire, não fosse pelo rabinho cotó numa ponta e o focinho pálido na outra, com esse pelo preto e marrom que mais parece um bolo queimado que a criança insiste em comer e depois fica com dor de barriga, eu mal saberia onde o gato começa e onde termina, enquanto que a Astarte, convenhamos, é fácil perceber que o rombo no lugar do olho esquerdo não é sinal de pacifismo, seu ronronar cadavérico e a aptidão para roubos e furtos apontam o óbvio, são claras suas intenções malignas, muito claras!, e em nossos aposentos da parada de ônibus na altura do Baratão da Carne, eles respeitam apenas o painel com as capas de Revista Caras, o vitral possível para narrar os alvos de nossa devoção, e assim, cada felino se coloca numa ponta do pentagrama em meu entorno, vibrando como geladeirinhas em uníssono, e eu, no caso, sou a oferenda pronta para o despacho, a galinha preta nos palcos do Submundo, se bem que, convenhamos, envolvida nesses trapos e coberta por papelão na avenida, estou mais para saquinho da farofa no prato feito esquecido há uma semana e meia no fundo da geladeira de algum casal de amigados, escaldada entre o mofo das caixinhas de creme de leite, queijo ralado e maionese caseira que, ai, porra, Gilgamesh!, está vendo, assim se iniciam as torturas do rito, com as mordiscadas desse frajola, o comandante excomungado de nossa Missa Negra, sei que através de sua gengiva empapada surge o comando da blasfêmia, então me acomodo no Altar Maligno, as pernas em posição de asas de águia, despida dos mulambos de meus bens formando um montinho cheio de fuligem no banco da parada enquanto seguro a cruz invertida com uma mão e a taça com a outra, na altura do chão, para o Nabu farejar que não se trata de água, mas pinga, e aí se limitar a esfregar seu casaquinho alvo que abranda minha pele para o sacrifício , a adaga jazendo no chão, logo abaixo dos beiços da minha fenda enegrecida de quem faz dez anos que não toma banho há sete anos, mas nesse meio tempo o despertar amarelo de Tiamat compadece um punkzinho que atravessa a madrugada e solta um “Oxi bebê!” a ela, para logo depois me olhar com espanto, atrapalhando tudo, tudo, tudo, o que foi, garoto?, rala peito!, enfim, retomemos a ladainha, Lúcifer! Astaroth! Belzebu! Lilith!, miamos todos juntos, só que o moleque me berra “Mas essa é a Patrícia de Sabrit!”, apontando para nosso painel, e os gatos prontamente apresentam suas habilidades, primeiro, azunhando a jaqueta de couro falso do punk, o que revela o suor e o sangue  do adolescente nos rasgos sob a Lua escaldante, as legítimas portas do inferno se abrindo no a noite de verão, e em seguida, atacam-lhe os dedos com mordidas de baba radioativa, o bafinho daquelas gengivas inflamadas queimando a pele parda do garoto, ah, que noite, Lúcifer! Astaroth! Belzebu! Lilith!, uma nova oferenda trafega entre as patas dos bichanos, é o polegar do moleque, cujo corpo esquálido flutua sobre nós e nos banha de sangue, tornando meu Nabu um gatito branco e vermelho,  lá vai o Marduk garantir que a Astarte não roube o dedo daquele momento de, digamos, socialização via patadinhas das Crianças da Noite, haja dengo para Gilgamesh administrar enquanto eu, ainda de cócoras, percebo que avançam em minha direção, lambendo os beiços, sedentos de uma carne familiar, resta-me encarar os lábios de Patrícia de Sabrit que, após um giro de cabeça em 180 graus, sussurra: “fazes o que tu queres, há de ser o todo da Lei”, e fujo desembestada pela avenida.

 

Links da autora:

Alerta, Selvagem (Ed. Patuá)

Véu sem voz (Ed. Bartlebee)

Revista Torquato

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