PIRLIMPIMPIM

Silvia Argenta

Eita que a lua cheia tá lindona hoje. Chegou a hora de ir pro meu canto. Gosto de passar as noites embaixo da sacada do prédio 76. Fico protegido do sereno. Ela é pequena e não dá para dividir o espaço com ninguém. Um alívio. Nesse horário nem tem mais movimento. Já posso deixar minhas coisas aqui. Essa rua é perfeita pra dormir. Como é inclinada, deito com a cabeça na parte mais alta e tcharam. Se chover essa noite, coloco meu colchonete no degrau na frente da porta. Me livro do aguaceiro que vem de cima e também da enxurrada que toma a calçada. Vou ficar meio apertado, mas funciona. Minha sacadinha deve passar despercebida para os outros porque nunca precisei marcar território. Tá sempre disponível pra mim. E pra minha amiga. Cadê ela, afinal?

Bastet, Bastet, Bastet. Minha deusa-gato egípcia. Chega mais. Deixa eu te falar. Que saudade de uma cola. Vai dizer que tu não tá? Essa pandemia virou tudo de perna pro ar. Não encontro mais ninguém pra me dar uma força. Não é qualquer força. É A força. Por enquanto, tô dibouas à base de Corote azul, mas só quero ver daqui a um mês. Vou virar o Jiraya se não conseguir um barato. Eu podia falar com esse cara da Vivo que tá ali do outro lado da rua. Quem sabe… Vem cá! Já deu de ficar dentro dessa caixa dormindo e comendo pequenos insetos. Bora viver. Sai, anda! Que que é isso aqui? Rapaz… Bastet, tu é a felina enviada pelos céus. Daonde tu arranjou isso? Peraí que vou arrumar o cafofo pra dar uma cafungada nisso.

Hmmm… pirlimpimpim! Que sorriso lindo, Bastet! Que boca cheia de dentes! Tão livre… Meu pai nunca me levou pra passear com o cachorro. Ele batizou a filha do vizinho. Mesmo assim, o compadre do meu pai um dia chegou do trabalho, estacionou o Passat e gritou para mim lá do terreno dele dizendo que tava incomodado com os latidos. Perguntei se o problema era o cachorro. Ele nem respondeu. Puxou o facão e foi-se. Depois ainda tive de fazer o buraco lá no quintal. Por isso que não gosto de bicho amarrado. Se tivesse solto, podia ter corrido.

Tu é solta, Bastet. Manja todas as malandragens. Apesar de ser de rua, igual a mim, tu até que tem um pelo macio, né? Frajolinha linda. Minha Pepe Le Gambá. Ou é Patolino? Pernalonga? Coiote? Ahhh, tá vendo lá no fim da rua a Penélope Charmosa? Ela e a turminha não tão respeitando as normas pra combater a Covid-19. São desumanos, porra. Vou fazer um vídeo e botar no Youtube. Só espera. Sem máscara e jogando bola na rua. Acham que podem fazer o que quiser. Vão matar tudo teus veinhos. Se fosse mentira, mas é presente. As meninas superpoderosas. Sem medo do que pode acontecer. Vou lá. Podia falar que tenho uma coisa pra vender. Uma máscara e um sensor. Se um mosquito chega a um metro e meio, ele já apita. Tá bom, Bastet. Não consigo me mexer. Tô paralisado. Fico aqui.

Eu me admiro. Sou machão. Vendo isso, sinto minha testosterona extremamente insignificante. É real. Sou a bola no pé desses jovens. Não sou burro. Não vou me meter no meio. Só chego se me convidarem pra entrar no club. Se olha no espelho. Olha bem na tua cara. Sua otária. Tu acabou com a humanidade. Eva, tu comeu o fruto proibido. Deus fez o homem e a mulher juntos. Tenho certeza. Agora eu vejo isso aí. Pra mim é um privilégio de estrutura. Meu sentido não presta pra nada. Que piada. Que merda. Respira fundo, calma. Sei que eles não são do AA nem são de usar drogas, mas devem comer salgadinho da Elma Chips e suco da Ades. Da hora. Queria chegar lá e dar com os dois pés. A bola ia ficar com chulé! É… mas nego só se fode. Ah, sai daqui da minha rua. Vai assumir essa culpa? Por tua causa agora vou ter que ponhar minha máscara?

Bastet, esse mundo tá perdido. Não me olha desse jeito. Aliás, nunca entendi porque tu tem três olhos. É tudo assim agora. Eu acho, tu achas, eles acham. Português acha que descobriu a penicilina. Meganha acha que protege a sociedade. Espero que tudo isso passe logo pras meninas voltarem pro colégio brincar com a Hello Kitty. Um mundo melhor pra elas. Sou leigo. Estudei até o primeiro ano do ensino médio e sei que a ordem dos fatores não altera o resultado. São trinta anos de experiência nesse mundão de meu deus. Queria dinheiro pra fazer minha alegria. Na real, só tô puxando o bonde. Se eu soubesse o que fazer, meu irmão, não tava aqui. Já tive tanta oportunidade na vida, mas mesmo com doze dedos nas mãos não consegui agarrar. Quem é tu, Bastet? Deitou, virou de barriga pra cima e agora me lança raios de arco-íris pelas patinhas? Não me seduz mais não. O que me interessa tá do outro lado da rua. Um cabo, uma escada e um galho de árvore.

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