Ave-Maria, cheia de bosta

Os corredores ainda estavam de branco e lotavam o lugar. Como toda vez, caguei para os outros clientes e espiei entre os ombros enquanto colocava a banana dentro da bermuda.  Até aí, nada de novo. Já estava acostumado com a segurança pífia daquele Mini Mercado Extra. O que eu não esperava era a pressão em minhas costas que veio a seguir. Pensei ser uma arma em um primeiro momento, mas logo notei que era apenas um indicador bem duro. Não me pergunte como notei a diferença.

– Muito bonito, hein?

Era o padre. Nos próximos décimos de segundo, o fato de não estar diante do segurança com os bíceps do tamanho da minha cabeça fez a alegria transbordar até meu rosto. Mas aí os décimos se passaram e notei que estava diante do responsável pelas aulas de Ética do São Bento. Deus tem dessas. Poderia ser o indicador da minha namorada. Poderia ser o indicador do professor de educação física que se lembrava apenas do nome das alunas. Poderia ser o indicador do Sérgio Mallandro, com um câmera da TV Gazeta logo atrás dele. Mas não. Era o dedo enrugado e rígido da moral.

– Por que tá fazendo isso? O que seus pais falariam?

Bom, mamãe ignoraria, já que é um problema que não tem relação com qualquer um dos seus sete gatos. Já papai se orgulharia, dizendo que fiz bem mostrando às grandes indústrias que ninguém deve se meter com os pequenos comerciantes. Se ele soubesse do meu hábito, tenho certeza de que ele se juntaria a mim e estaria com uma toranja em seu jeans. Mas lógico que não respondi isso para o padre. Eu não estava mentindo, apenas ignorei essa pergunta e foquei no porquê. Por ser um padre, eu teria que contar a verdade, sem filtros. Estava na hora dele saber minha história.

A merda começou alguns anos antes, quando decidi participar da The Color Run, uma corrida de cinco quilômetros pela cidade de São Paulo. A cada quilômetro, os funcionários da corrida bombardeiam uma cor nos participantes e vamos ficando cada vez mais coloridos, formando, no final da corrida, uma mistura de amarelo, laranja, rosa e azul. É mais para ser uma corrida divertida do que uma competição. De qualquer modo, prefiro exercitar os polegares em meu joystick, mas, por insistência da minha namorada, vesti o tutu dela e resolvi ir. Com medo de uma possível câimbra, parei nesse Mini Mercado Extra, onde comprei e comi uma banana. Na época, pensei que fazer isso evitaria qualquer bosta que poderia acontecer no caminho, mas esse foi o gatilho da bosta literal com a qual eu teria que lidar.

Foi passando o primeiro quilômetro, pouco depois da explosão amarela manchar o meu corpo, que minha barriga começou a emitir seus primeiros sons. Entre a expiração e a inspiração rítmica e o bater dos meus pés sobre o asfalto, vieram aquelas primeiras flatulências úmidas, aquelas que antecedem o caos. No entanto, meu orgulho se somou à insistência de minha namorada, resultando num respirar fundo sem reclamar. Mas não deu. Depois do laranja, conclui o inevitável: precisava cagar. Perguntei para uma das funcionárias da corrida onde era o banheiro mais próximo.

– Banheiro? É só na linha de chegada.

Disfarcei meu pânico com educação e perguntas que, na minha cabeça, faziam sentido. Dentre elas, estava um polido Mas e se alguém passar mal?, um cortês E no caso de alguém necessitar muito? e um cordial Por obséquio, não há como isso ser solucionado nesse momento?.

– Ah, se precisar a pessoa tem que ir até o final.

Agradeci e refleti. Estava entre dois quilômetros e meio do início da corrida e dois quilômetros e meio da linha de chegada. Decidi seguir na corrida, em meio às pontadas que apareciam sem avisar em minha barriga. Minha namorada até que me apoiou. Paramos de correr e andamos, parando de cinco em cinco minutos para que eu me contorcesse em uma tentativa pífia de me segurar.

Pouco depois dos três quilômetros, numa triste mistura de amarelo, laranja e rosa, notei um vislumbre de esperança. Um Posto Ipiranga. Para evitar terminar a corrida de marrom, pedi que minha namorada me esperasse. Deixei a corrida e fui até lá, com olhos de transeuntes desavisados encarando o colorido rapaz barbudo mal-encarado, que usava um tutu, bandana e óculos escuros.

O moço do Ipiranga não teve problema em me oferecer a chave do banheiro e pensei que meus problemas estariam solucionados. Doce ilusão. O banheiro era a visão do inferno. Deus tem dessas. Tudo fudido, já tinha merda na privada, não tinha como dar descarga e a única opção que tinha era sentar na porcelana, já que a tampa parecia ter sido arrancada há anos. Talvez por alguém contra as grandes indústrias. Não sabia o que fazer. Encostar minha bunda ali tornou vívida a imagem de uma contaminação viral que provocaria muito mais do que uma diarreia.

Mas tive que ceder. Escalei a privada e me posicionei como se fosse uma gárgula de igreja, com os joelhos flexionados, mas sem as asinhas. O estrago foi feio. Nunca tinha passado tão mal em minha vida. Uma mescla violenta de um marrom líquido e pastoso com a merda de algum outro azarado.

Obviamente, não havia papel higiênico. Mas sem problemas. Apenas me alonguei e usei o papel para secar a mão para secar o cu. Em seguida, saí de fininho, uma vez que a descarga quebrada obrigou a minha obra a permanecer na porcelana. Digo, saí de fininho entre aspas, já que tive que devolver a chave para o moço do Ipiranga. Espero que não nos vejamos nunca mais. Tenho certeza de que ele se lembraria de mim.

Passado o desespero, o quilômetro do alívio. Nenhum sinal da minha barriga até após o azul, quando meu corpo deu sinal de que ainda não havia terminado seu trabalho. Dessa vez, a força de vontade venceu e consegui terminar a corrida. Minha namorada foi buscar minha medalha enquanto fui me aliviar em um banheiro químico. Claro, derrubei o papel higiênico na água da privada e me sujei na hora de me limpar, mas foi o paraíso comparado com a experiência no Posto Ipiranga.

Terminei minha confissão ao padre dizendo que, depois disso, passei a ter o hábito de roubar bananas do Mini Mercado Extra e jogá-las no lixo. Fazia isso uma vez por ano, na época da The Color Run, com o objetivo de ajudar os corredores desavisados. O padre me encarou com um olhar carinhoso e me deixou ir, pedindo que eu devolvesse a banana antes de sair. Fiquei feliz em ter conquistado sua simpatia. Afinal, homens de Deus também cagam. Enquanto eu saía do Mini Mercado Extra, vi o padre tirar o cacho de bananas de seu cesto de compras. Passei pelo segurança do bíceps gigantes e segui em direção ao Carrefour Express.

Deixe um comentário