De onde vem a chuva

Sou sozinha, como uma jovem que Edward Hopper houvesse pintado e depois decidido que a tela não era boa o bastante para exposição. De modo que não tenho sequer para quem contar essa história, uma história que eu fico imaginando como contaria – talvez tivesse que começar pelo final, que eu sequer conheço, ou então por uma mentira, quem sabe eu poderia dizer para o meu charmoso interlocutor imaginário (que veste capa, capuz e galochas) que a chuva não me trouxe nenhum problema, ao menos nenhum que fosse novidade. Como é possível que alguém não fique maluco com água caindo o tempo todo sobre sua cabeça?, ele diria, entre retórico e desesperado. Sim, acho que seria um bom começo, dizer que a chuva não trouxe senão coisas boas. Eu parei de fumar. E foi fácil. Foi natural, como perder dentes de leite. Aprendi logo a dormir de lado, numa posição e ângulo específicos, para não afogar. Antes da chuva eu já vivia sozinha e tomava oito banhos por dia. A sensação da água caindo é uma velha amiga. Tive apenas que me habituar com a curiosidade das pessoas, como um banho que eu tomasse o tempo todo, andando na rua, despudorada, ainda que bem vestida.

Não são nem oito da manhã e a beócia da síndica interrompe meu tricô e o devaneio, esmurra a minha porta, vazando ódio, e isso não tem nada a ver com as reclamações dos outros moradores, com a molhaceira que eu deixo nas escadas, nas áreas comuns do prédio, é só que ela morre de ciúmes do marido, um velho babão, é claro, um maldito pervertido. Eu nunca dei motivo, nunca nem sequer ouvi a voz desse maníaco, mas é só eu pisar fora de casa que ele logo aparece, olhos de gulodice. Se ela quer me culpar por isso o problema é dela. O meu problema é ter que lidar com: 1) uma esposa ciumenta que tem o incômodo poder de me aplicar multas, notificações, de me ameaçar com um processo pela indenização da moradora que escorregou nas escadas e quebrou a bacia, ela grita mais, agride a porta; 2) um fantasma tarado, que me persegue pelos corredores toda vez que eu saio de casa. Acho que dá pra entender que eu não tenho saído muito.

Quando a síndica bate aqui, como agora, eu me fecho no banheiro do fundo e ela por sua vez grita que não adianta eu me esconder, que ela sabe que eu estou em casa, consegue ouvir lá da porta o barulho da água caindo. Mas é mentira. Um verde, como dizem. Deixo ela lá, sapateando no próprio rancor, sem saber que o meu tempo aqui está contado e que em breve ela vai se livrar de mim de qualquer forma. Já atrasei dois meses de aluguel. Meu dinheiro acabou. O pouco que havia sobrado gastei ainda ontem no armazém, talvez o único lugar onde eles me atendem sem reclamar. Pegam o que eu quero e me entregam na calçada, sem que eu precise entrar e molhar tudo. Pelo meu cálculo, quando a comida acabar, acaba junto o prazo do aluguel, o terceiro mês. Pequenas coincidências que enchem meu coração de alegria.

Eu nunca mais vendi nada e é por isso que não tenho mais dinheiro. Eu nunca mais vendi nada porque não consigo sequer terminar as peças. Vou escolher contar isto também: sou costureira. Comecei no bordado tradicional. Fiz reputação vendendo lenços e echarpes, que eu bordava em estilo ibérico, à Castelo Branco. Mas a cada peça terminada, agravavam a minha miopia e meu astigmatismo. Trabalhava tanto e com tanto afinco que logo não era mais possível aumentar o grau das lentes dos meus óculos, dois cubos de gelo em frente aos olhos. A solução, temporária, foi buscar uma agulha maior e linhas mais grossas, de modo que comecei a trabalhar com crochê e a fazer cachecóis, que os fashionistas receberam com ainda mais entusiasmo. Mas então a chuva chegou molhando tudo, minhas lentes, minhas roupas, a chuva me libertou, destruiu meu futuro e a minha sanidade.

De resto não tenho mais muito a dizer. Ainda tentei trocar a agulha de crochê por duas de tricô, de cor verde-limão, bem maiores e pontiagudas, para que assim eu pudesse vê-las enquanto tento manuseá-las fora do perímetro da chuva, como faço agora, trancada no banheiro do fundo com os braços esticados, desengonçada, trançando linhas de lã da espessura de um canudo de refrigerante, numa esgrima cega e alucinada. Perdi a conta dos dias, sem perder a dos meses. Sei que estou há semanas fazendo e desfazendo pontos de tricô, repetidamente, sem jamais evoluir o traçado de uma touca de lã que existe apenas na minha imaginação, um passatempo perpétuo, uma trama impossível. Não me importo de não terminá-la. Não quero e não preciso me conformar com uma touca imperfeita.

Escuto silêncio na porta da frente. A síndica desistiu rápido. Imagino que, no dia marcado, vou sair de casa e surpreender o marido dela (com certeza não vou ter que procurar muito), vou abraçar esse fantasma ridículo, arranhá-lo no pescoço, com carinho e com minhas agulhas. Quero que ele precise explicar em casa as roupas todas molhadas. Depois vou comer de colher um maracujá que estou guardando, e deitar no sofá da sala pra dormir da maneira que fazia quando era bem criança, de barriga pra cima, com olhos que não buscam entender de onde vem a chuva e que eu talvez nem chegue a fechar.

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