Mercury 13

Por Susy Freitas

 

Na minha cabeça de criança, parecia impossível comer em São Paulo. As pessoas eram pálidas, usavam tênis e calça jeans dentro de casa, não tinha camarão na praia – sequer tinha praia. Foi em 1993. Não consegui sentir nada pelos prédios. Pelos museus. Pelos shoppings. Pelos parques. Pelo metrô. Não faziam sentido.

Foi culpa da água. Porque o certo era entrar no carro ou no avião, ficar sentada ali por horas e dar de cara com a água, montes dela. O horizonte seria abaulado e, como numa ilusão de ótica, apenas trocava de cor – ora azul esmeralda, como na costa do Ceará, ora preta, quando nas comunidades ribeirinhas do Amazonas. Ajusto-me no assento da voadeira. Minha irmã segura a bolsa. Alguns minutos e estaremos na praia onde acampávamos com os pais e depois com os amigos, flutuando como donas de casa transformadas em mulheres astronautas. Quebraríamos recordes num simulador de gravidade zero.

Não lembro do meu primeiro banho de rio. A densidade do Negro abraçando o corpo sempre foi como ter cabelos ou dedos, algo prévio. Mas lembro do meu primeiro banho de mar. Corri na areia entrecortada de conchinhas em direção às ondas nubladas, cortando-as como um Marlim até que o empuxo das águas prevaleceu e aprendi o limite. Entreguei-me de olhos abertos para baixo, e o sal me queimava as pálpebras quando subi. Voltei à terra firme em lágrimas. O mar tinha raiva.

De alguma forma, eu também pertencia àquilo. Um coisa de veias, sangue que atravessou do agreste de lá para os seringais de cá. “Amazônia: terra da fartura”, diziam os cartazes aos Soldados da Borracha, um grupo meio Tapuia, meio português e um tiquinho espanhol, segundo contam os mais velhos dentre causos recitados com o esmero de repentistas. Vovô e sua exibição de filmes em película no quintal em Limoeiro do Norte, o bandido levava socos em looping para alegria da garotada. Vovó, já no seringal, sendo curada de uma “doença de tristeza” pelo feitiço de um nativo. Os tios perdidos para a seca e depois para mata.

Daquela estada de cinco dias em São Paulo, comi nos dois últimos. Foi quando descobri o que era requeijão. Derretia na baguete quentinha e era da cor da careca de Almir, nosso hospedeiro. Rodeada de cascas de pão, sentia pena dele. O piano da sala pincelava notas todas as manhãs, mas aquela família não tinha nada; estavam perpetuamente ressecados num labirinto debaixo da terra, brancos como filhotes. Tinham sede, aposto.

Ainda estou esquálida na fotografia que tiramos na Liberdade. Com uma expressão de sala de espera. Almir perguntava a papai sobre jacarés nas ruas de Manaus enquanto ajustava o foco na máquina, e não era uma brincadeira. Mamãe tinha as mãos nos nossos ombros, meus e de minha irmã, mas a cabeça virada para o lado, encarando um horizonte alerta. Medo de perder os brincos, medo de nos roubarem os relógios, medo da garoa lhe arruinar os cabelos. Tudo era encantador e pavoroso, respectivamente. Mas nossas feições indígenas cravadas na pele amarelo-libanesa nos dava algum encaixe ao lugar; as senhorinhas nipônicas eram iguais a minha tia.

No rio, eu e minha irmã flutuamos num silêncio forçado pela água que abafa o berro de crianças, o baque das bolas de vôlei numa partida próxima, o chiado das calabresas na brasa, de tudo um pouco. O sol fustigante e branco nos mancha de vermelho e exige mergulhos no caldo marrom de sedimentos. Não consigo mais abrir os olhos debaixo d’água. É um castigo por ter abdicado ao rio durante a adolescência, o velho impulso de superar as próprias digitais.

Duas décadas e algumas passagens rápidas depois, eu ainda não sabia andar no metrô em São paulo. O excesso de direção me confundia. Mas seguia Lázaro desde a estação Tucuruvi, então tanto faz. A amizade nos colocava numa dinâmica de não obrigatoriedade do cuidar, e ele me perderia de tempos em tempos, se eu não o acompanhasse com passos ou olhar. Sei que estávamos perto da Paulista porque as pessoas ficaram menos marrons e mais autoconscientes.

Nos primeiros treinos para astronautas homens se adaptarem à gravidade zero, alguns surtavam. Ao contrário das mulheres, o vazio sem peso era um pesadelo, e não um alívio. Os paulistas restantes na Trianon-Masp pareciam recém-saídos de um tanque de Laboratório de Flutuação Neutra. Até a respiração deles sufocava. Mas saltamos à superfície, e a avenida despetalou um céu de luz suave, a antítese da Linha do Equador. O vagão que levasse seus mortos, porque ali trabalhávamos com a promessa da noite à caminho e do anonimato de turista. Rotas prontas, clichês saturados, nativos blasés, de tudo um pouco.

Depois do tour pelas megalivrarias inexistentes em Manaus, no qual pudemos nos embasbacar com a variedade de lançamentos e o design grandioso que encobria a exploração dos empregados e a falência iminente do negócio, chegamos na Frei Caneca. “Gay Caneca”, conforme a contextualização de Lázaro, cujo apartamento era perto, um muquifo retrô mal equipado, mas simpático. Porém, aquele não era nosso destino. Passamos dele, do mercadinho de orgânicos, das saunas, da loja de vinho e dos passeios de labradores que se repetiam como que num cinetoscópio. Seguimos para a longa Augusta, onde sensação era de abrir um cardápio de tribos urbanas que parecia ser folheado rápido demais.

“Caro. Metido a besta. Caríssimo. Esse dá fila”, dizia Lázaro, com ar de jurado em show de talentos, ao apontar para os pubs e casas de espetáculos. Tínhamos pouco dinheiro e pouco tempo, e a cidade se movia num potencial de diversão e apoteose que não podíamos arcar. Quando a chuva de verão desabou, foi também um alívio que nos transmutou na Augusta: de bombas-relógio para restos de papelão molhado.

A única caverna que nos acolheu foi o Pescador. Debaixo de nossos casacos, pingávamos, e debaixo de uma camada de poeira, a jukebox tocava Racionais. Já os homens tinham a cor e as roupas de Lázaro, um visual de artista genuinamente mendicante, enquanto enrodilhavam-se nas mesas de sinuca. Algumas pessoas ameaçavam entrar no local para se proteger da chuva, mas ao passar a vista naqueles tipos morenos, saiam como entravam: rápido. Sacrificavam o resto de seus figurinos meticulosos de brechó na tempestade e na lama.

Liberta a jukebox, estreei uma sequência que, para minha surpresa, foi bem aceita. Rapazes esperavam sua vez nas tacadas dedilhando as batidas das músicas, murmurando Save a Prayer entre goles de suas canelas de pedreiro. Lázaro, nunca afeito às redes, gravou uma série de stories no celular. Um homem de uns quarenta anos tirou o gorro ainda molhado da cabeça, enxugou gotas confusas de suor e chuva da testa, olhou-me com cara de poucos amigos e deu um joinha. O dedo em riste decretou: ali ficaríamos até o amanhecer.

No dia seguinte, Lázaro usava seus óculos escuros enquanto caminhávamos pelo Parque Trianon, fingindo goladas numa garrafinha de whisky. Minhas alergias, que urraram ao nascer do sol, acalmaram no verde. O orvalho se dependurava como brincos entre famílias e cachorros. Aquela mancha de Mata Atlântica parecia cada vez menos de plástico para mim. Não só o cenário fazia sentido, mas meu encaixe nele.

O sol se põe enquanto o céu espalha cores na margem do rio. Diante de nossos olhos, é uma paleta que, ao contato com as águas, lava o laranja e reforça os roxos e azuis. Gotículas resfriam nossos rostos ao sabor dos solavancos da voadeira. Hoje meu tanque parece ter se expandido, como se jorrasse. Talvez eu esteja pronta para ir ao espaço.

 

Links da autora:

Alerta, Selvagem (Ed. Patuá)

Véu sem voz (Ed. Bartlebee)

Revista Torquato

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