RATOEIRA

Silvia Argenta


No início da carreira o que eu mais queria era circular. Meu trabalho era bater de porta em porta para fiscalizar as condições de higiene das casas. Olhava os vasos de plantas, checava os ralos, reparava no asseio dos ambientes. Naquele tempo, o Getúlio tinha acabado de morrer. Uma tristeza danada… Com o Dutra, começou a preocupação com o aumento de casos de pessoas com febre alta, dor muscular e vômitos. Hoje em dia temos tudo documentado que era leptospirose, mas na época ninguém sabia direito se era febre amarela ou outras doenças.
Eu trabalhava no Serviço Nacional da Peste, um departamento importante que deveria criar “expurgos destinados ao extermínio de roedores e pulicídeos”. Ai, sempre gostei de falar difícil. Simplificando, tínhamos de entrar nas casas e se a limpeza não fosse adequada colocávamos ratoeiras, fumigávamos o ambiente com inseticida e aplicávamos multa. Tudo para acabar com os ratos e as pulgas.
Na minha primeira inspeção, me impressionei com a casa rosa de dois andares e suas janelas grandes. Bati algumas vezes na porta de entrada, de madeira talhada, mas ninguém atendeu. Só depois de um tempo esperando que reparei na grama alta. Fiquei tão maravilhada com a casa que nem me dei conta. Os três ratos que passaram correndo pela minha frente fizeram com que eu acordasse. Então, acessei o corredor lateral, entre a casa e o muro, e já deu para sentir o cheiro de merda. Era muito forte. Lá atrás, o chão, daqueles lindos de caquinho vermelho, estava tomado por lixo e restos de comida, e um homem sentado numa cadeira sorria para mim. Cabra nenhum nessa vida me intimidou. De cara, já registrei a infração com pena máxima. Quinhentos cruzeiros! A casa era um chiqueiro. Deus que me perdoe!
Foram mais cinco décadas de histórias à cata de ratos. Depois disso, tudo que eu queria era paz e sossego para me dedicar aos cachorros e à costura. A aposentadoria me permitiria ter uma vida mais confortável num lugar com um pátio grande e uma edícula no fundo do terreno para eu montar um ateliê. Meu sonho luxuoso era simplesmente ficar em casa. Bati muita perna como agente de saúde. Não aguentava mais ficar na rua. Nos últimos tempos, eu estava muito atarefada buscando deixar minhas atividades em dia para repassar ao meu substituto na repartição. Eram tantos relatórios para organizar e tantas atividades pendentes para checar… Já podia ter me aposentado há uns quinze anos, só que eu realmente gostava de ajudar a limpar a cidade. Essas histórias de bug do milênio que me fizeram repensar e enfim havia chegado o momento de sossegar.
No dia da despedida, meu esposo me buscou no trabalho. Estava muito emocionada e não conseguia nem dirigir. Combinamos de encontrar nossos três filhos e os cinco netos para comemorar numa pizzaria. Sem que eu esperasse, Juvenal colocou uma venda em mim. Durante os trinta minutos que rodamos, não parei de questionar o que estava acontecendo e ríamos muito, mas ele não deu nenhuma dica, até que estacionou e abriu a porta do carro.
Assim que tirei o pano dos olhos, vi toda a minha família, que gritou: surpresa! Ao fundo, a bendita casa rosa de janelas grandes! Na porta, aquela mesma entalhada, um corretor me aguardava. Enquanto eu trabalhava até depois do meu horário para deixar as coisas em ordem, Juvenal se articulou para comprar um novo reduto para nós, quiçá o último, e eu nem percebi. Sem pensar muito, aceitei a oferta e logo marcamos a mudança.
Agora, o que posso dizer é que casa antiga é legal, mas a fiação elétrica de meio século atrás ninguém merece. Se ligarmos o chuveiro, existe a possibilidade de derreter tudo, então estamos há dias tomando banho de caneca. Na sala, só tem uma tomada, que não é na parede da TV. Quando meus netos vêm aqui para jogar videogame, morro de medo de eles tropeçarem no fio da extensão. A edícula não tem nenhuma tomada, e meus planos de costura não vingaram. Na semana passada, verificamos a caixa de luz, na cozinha. Nela, encontramos dois disjuntores e o boletim predial que preenchi com a descrição do trabalho. Marquei todos os serviços: ratoeira, envenenamento, desinsetização, limpeza e queima de lixo. Era 22 de janeiro de 1953. Nunca mais me iludo com janelas grandes.

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