
Este é um dos contos mais divertidos de Contos Romanos, o auge da literatura realista do italiano Alberto Moravia. Coletânea de tipos humanos, com olhar fino para os paradoxos e as incongruências psicológicas, é um livro que mergulha fundo no real. Observador sensível da luta de classes, Moravia dirigia aqui seu olhar para esses personagens a que ninguém presta muita atenção – o verdureiro, o garçom, a prostituta, o porteiro, a lavadeira. Há também gradações sociais e então vemos aqueles tipos inesquecíveis dos quais sempre conhecemos um: o machão cornudo, o filhinho da mamãe, o azarado metido a honesto, o espertinho que se dá mal, o trapaceiro trapaceado. Todos anônimos, todos falando na primeira pessoa, e todos perturbados por uma enlouquecida vontade de viver.
“O pensador” tem um charme curioso porque é um dos primeiros exemplos da literatura do transtorno de tourette – em que o sujeito não domina a língua e acaba falando o que não devia: palavrões, ofensas, sons indefiníveis. Seu protagonista é um sujeito que se sente com a mente vazia, tão vazia que é inteiramente ocupada por seu trabalho. É um exemplo clássico do sujeito tão alienado de si mesmo que se torna reificado, ou seja, transformado em coisa – no caso, a sua função, de garçom. Daí sua mente se preencher, à noite, com os ecos dos pedidos formulados durante o dia.
Mas eis que acontece uma revolta: ele passa a pensar. Ele não se sente satisfeito em seu trabalho e com as pessoas a quem serve. Vai acumulando raiva, rancor e ressentimento. Vai se tornando um ser humano menos alienado. E começa a devolver todas as ofensas que lhe foram atiradas, mesmo sem querer. O tourette age como um super-herói vingador da luta de classes. Claro que não funciona, mas não deixa de ser redentor.
Por falar em “como”, note o uso criativo das comparações, metáforas e símiles: são quase sempre no campo semântico da comida. Isso demonstra não só a adequação técnica da metáfora ao tema como também sugere o limitado espectro psicológico do protagonista. Não à toa que Moravia, hoje meio esquecido, foi um dos maiores mestres do conto italiano do século 20.
PROPOSTA
E é isso o que você vai fazer. Vai escrever um conto na primeira pessoa narrando um dia na vida de um personagem acometido por um transtorno mental.
Mas atenção: o personagem não é você nem tem nada a ver com a sua vida ou seu trabalho. Se você for homem, escreva sob o ponto de vista feminino, e vice-versa. Procure profissões humildes para seu protagonista:
- soldado de fronteira
- operador de telemarketing
- porteiro de clube
- tia do cafezinho
- vapor do narcotráfico
- depiladora de puteiro
- comin do chef
- bilheteira de cinema
- faxineiro do museu
- motorista de Uber
- etc etc etc
O dia na vida de seu protagonista será perturbado por um surto de seu transtorno mental. Use uma das categorias do CID-10, a mais recente nomenclatura usada pela OMS para doenças mentais do mundo todo: https://iclinic.com.br/cid/capitulo/5/grupo/56 (é seguida por psiquiatras e psicólogos). Como se trata de um surto, pense na progressão que a doença vai tomando à medida em que o personagem se envolve com outras pessoas ligadas ao seu trabalho.
Descreva tanto o que acontece fora quanto o que acontece dentro de sua cabeça. Ou seja: à medida em que seu personagem vai pirando, ele vai refletindo sobre seu surto e também sobre como seu surto repercute em relação à realidade exterior. Trata-se de um personagem autoconsciente.
Não use advérbios. Use poucos adjetivos: prefira símiles, metáforas e comparações. Intercale narração com descrição e diálogos.
Em no máximo 7 mil toques (com espaços).







