Uma pena

por Américo Paim

“Trinta e seis!”, gritamos eu e Neco, com doze e onze anos. Era o que faltava, em quilômetros, para Castro Alves. Passávamos por Sapeaçu, as ruas enfeitadas, cheias de gente, dia de feira no São João. Eu me deliciava com aquele universo mágico das cidades do interior.

Meia hora de buracos depois, Castro Alves! O pai, na terra natal, ia devagar nas ruas de pedras. Passada a estátua do poeta, na Praça da Liberdade, estávamos na Rua do Banheiro – no passado, havia ali um banheiro público. As casas de Dona Morena, de Seu Arlindo “Xixi”, do velho Genésio e, afinal, a nossa, à direita, em frente ao Clube da Lyra.

O melhor da casa era o quintal: um caramanchão com a parreira e seu longo caminho até o portão do fundo, ladeado por árvores. Os adultos descansavam. Para nós, pés descalços, rua, pedal, futebol. “Chiquinho e Neco chegaram!” – a notícia trazia os amigos.

Roni e Pelezinho, os mais chegados, moravam ruas atrás. Magrinhos, pernas estropiadas, bons de bola. Aprendi com eles a subir em árvore e pegar gafanhotos, sapos, passarinhos. Roni era Ronisvaldo, “Pelezinho” por ser muito preto. Ele dizia não ligar. Eu me incomodava muito. Tuca e Cleide eram irmãos, assim como Lilinho e Lulu, todos da Rua do Banheiro. Lulu e Cleide um pouco mais velhas.

Na estação, os trens, o alvoroço de pessoas, homens em uniforme, os cheiros, tudo bonito, enorme. Mesmo proibidos de catar pedras brilhantes nos trilhos, a gente pegava, para jogar “capitão”.

O Clube da Lyra, sem muros, tinha sede simples, salão grande, quadra de cimento e campo de gramado tosco, onde jogávamos com bola de plástico e, às vezes, camisas de times de futebol. Os amigos não as tinham. Nos pediam e vestiam. No meio da tarde, o “baba” dos meninos maiores: Careca, Zé Meireles, Val e nosso ídolo máximo, Inocêncio, chamado Censo.

Alto e esguio, desfilava seu corpo negro e forte na quadra, com classe e maestria. “Deveria ser um profissional”, diziam os adultos. Quando o pai nos dava dinheiro para uns queimados na venda de Seu Babo, íamos à marcenaria, acenar para o craque, que devolvia. Era aprendiz de seu pai, lá empregado. Amava Rita, a filha única de Seu Genésio. Um dia, ouvi os adultos em casa: “ali ainda vai dar problema”. Falavam, preocupados, de Censo e Rita. Da questão da cor da pele. Ela era muito branca. Eu ficava triste com aquilo.

Nesse cenário, me aconteceu algo inesperado. Eu já queria, mas a timidez era barreira. Soubera, assim que chegamos, que Lulu tinha perguntado muito por mim. Ela já estudava na capital e eu não a via há muito. Na praça, à noite, foi um susto. Linda. Ninguém notou nossos olhares ou minha falta de jeito. Foi assim por umas noites. Não conseguia me aproximar.

Na véspera da volta à capital, ela, talvez cansada de esperar uma atitude, apareceu lá em casa, à tarde. Fomos ao clube. Sentamos no chão da quadra. Eu, nervoso. Ela, maravilhosa, em um vestido amarelo, cabelos soltos, caindo desalinhados sobre seus ombros, como uma noite deixei escapar que gostava. Silêncios. Sorrisos. O vento esfriava ou eu tremia de excitação? Caminhando, achamos um passarinho preto caído, sem conseguir voar. Ao tentarmos ajudá-lo, mãos e olhos se procuravam. Antes de isso virar uma chance, começou a chover forte. A sede fechada, corremos para o fundo do prédio, sob a sobra de telhas. Muito molhados, ajoelhamos para abrigar o passarinho. Nos tocamos de novo e os olhos se acharam. A água nos escorria no rosto e cabelos. Meu olhar mudou para sua boca. Nos aproximamos e não sei quando fechei os olhos, mas pareceu uma eternidade até nossos lábios se tocarem. Senti sua língua, retribuí, mas, juro que aprendi ali. Foi um reflexo, como foi com as mãos a mexer seus cabelos. Demoramos assim. Nos descolamos, abri os olhos devagar e os dela ainda esperaram um pouco. Abertos, seus muito negros olhos eram pura ternura. Estava mudo, hipnotizado. Sorriu largo, pegou o passarinho do chão e saiu a correr no meio da chuva, olhando para trás. Corri e parei. Debaixo de muita água, assisti aquele ponto amarelo a diminuir, até sumir. Entrei em casa ensopado, sorriso teimoso na cara.

À noite, seu irmão contou que ela tomara chuva e a mãe não a deixara sair. Fiquei triste. No dia seguinte, quando arrumávamos o carro, Cleide apareceu, com algo para me dar. Era uma pequena caixa de metal, tampa redonda: “só pode abrir durante a viagem”. Assim foi.         

Não voltaria mais a Castro Alves tão cedo. Muitos anos depois, eu com mais de trinta, o pai nos pediu que fossemos lá tratar da venda da casa.

A cidade estava muito diferente, mais feia, velha e abandonada. Menor, sem graça, sem cores. A praça e a estátua do poeta ainda lá. Ninguém às portas das casas. A Rua do Banheiro virou duas: Hilário Couto e Osvaldo Campos, onde ficava nossa casa. Foi uma gargalhada ao entrarmos na casa e descobrirmos como o quintal era pequeno! No velho caramanchão, lembramos de conversas de família nas noites de frio gostoso, do cheiro de doce da vó, que vinha forte da cozinha.

Tudo resolvido, rodamos pela cidade. Não encontrando ninguém, fomos à antiga venda comprar água, antes de pegar a estrada. Veio o grito do balcão:

– Chiquinho! Neco! Quanto tempo! Dê cá esse abraço!

Roni estava irreconhecível, gordo, maltratado. O mesmo olhar de melancolia, agora convertido em algo de dor. Chorou no abraço. Sentou-se conosco. Eu quis saber sobre todo mundo. Nos disse nunca ter saído da cidade. Sem estudo, trabalhou por aí, juntou um pouquinho e comprou a venda. Sua mulher foi embora com os meninos. Contou que Pelezinho se acabou nas drogas ainda muito novo e a polícia matou: “aquele menino ali, Vandinho, é filho dele. Não tem ninguém. Ajudo como posso. Vive aqui mesmo comigo, nos fundos da venda. Tá com dez anos, o pivete”. Neco, sem jeito, quis mudar o rumo da prosa:

– E Censo? Cadê nosso craque?

Rosto triste, falou: “a vida foi cruel com ele, por causa daquele amor”. Quando viu que o romance “de sua filha e aquele negrinho pobre” estava demorando muito, o velho a tirou da cidade. Censo tentou de tudo, foi ofendido e humilhado várias vezes. Um dia de muita chuva, em desespero, foi atrás dela, no carro velho de seu amigo Careca. Ainda no caminho de Sapeaçu, um pneu estourado em uma curva fechada confinou seus sonhos a uma cadeira de rodas. Rita vive de tristeza. Nunca mais se viram. Pedi que parasse. Não queria ouvir mais nada. Olhava Vandinho. A mesma cara do pequeno Pelezinho, mas, a vida pior. Seria o mesmo futuro? Deixamos Roni com uma grana e a promessa de nos falarmos de novo.

No carro, pedi para Neco parar no agora murado Clube da Lyra. Tinha um assunto lá. Foi ao posto e me pegaria na volta. O clube mudara, sem quadra e campinho. Agora tinha quiosques, piscina e parque infantil, mas a sede estava lá. Havia algo a encerrar e o fiz, não como sonhara, mas como agora entendia.

Na estrada, Neco tentava nos animar com histórias engraçadas. Eu não estava ali. Pensava na velha caixinha metálica que deixara no chão, atrás da sede do clube. Dentro dela, uma pena de passarinho. Um passarinho preto. Pensava em como ajudar no voo de Vandinho, outro passarinho preto.

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