Conversas Mudas
Helô Mello
Logo depois que minha avó morreu, fui ajudar minha mãe a esvaziar a casa. Não era grande. Escura e térrea. Só conheci minha avó idosa e doente. Me olhava com seus olhos castanhos curiosos que pareciam querer me dizer alguma coisa. Não costumávamos conversar. Sua doença estava bem avançada. Ainda assim desconfiava que ela compreendia o que estava se passando.
Aos domingos precisava tomar banho cedo, vestir uma roupa limpa, camisa e sapatos. Fazia companhia para minha avó enquanto minha mãe ia a missa. Eram tardes silenciosas, mas me sentia acolhido. A luz baixava na janela e iluminava o tapete esgarçado. A poltrona virava cabana, outras vezes um navio pirata. Os carrinhos, que trazia no bolso, passeavam por uma longa estrada e os objetos que encontrava por perto compunham a paisagem imaginaria: um cinzeiro servia de praça, canecas empilhadas eram os prédios e os livros preferidos formavam um túnel. Não tinha assunto. Receava não compreender o que sua voz fraca tentaria me dizer. Espiava curioso e pouco sabia de sua vida. Nascida na Itália, veio para o Brasil menina. Viúva moça se virou para criar os dois filhos. Meu tio sumiu no mundo quando vovô morreu. Minha mãe é quem cuidava dela como podia.
O tempo passava moroso e o canto dos passarinhos coloriam o silencio. O vaso alto sem flores, a tolha de rendinha branca esticada. O cheiro de avó na cadeira de balanço se fundia na estante de tantos livros. Quando minha mãe chegava, me despedia com um gesto só para ela.
Um dia ela se foi. Era domingo nem precisei vestir a camisa. A casa vazia. Ajudei a fechar as caixas de papelão. Sem balanço na cadeira, a luz desafiava atravessar a sala e subir pela estante agora sem livros. Nesse dia não brinquei. Sentiria falta das tardes preto e branco.
Ao final do segundo casamento, preenchia os domingos solitários passeando entre as barracas de quinquilharias da feira do Bexiga. Era o momento de me perder entre tantas histórias também abandonadas. Espiava os objetos, trocava ideias com os donos das barracas que espichavam conversas mornas. Cada uma tinha a sua especialidade: brinquedos vintage, LP’s, livros usados e louças desemparelhadas. Me demorava nas de fotografias. Postais, fotos soltas, álbuns de família e muito pó. É como flanar em outras vidas, imaginar quem são aquelas pessoas, onde viveram, sua família e os hábitos. Algumas tem legendas com o ano ou a cidade de onde foram tiradas. As poses que se repetem, as roupas indicam a época ou a moda.
Uma vez achei um álbum, onde uma pessoa teve sua imagem rasgada em diversas páginas. O que teria acontecido? Nas páginas via a mágoa e o rastro de alguém. Descobria negativos de vidro e suas lindas caixas de papel detonadas, slides mofados e muitas câmeras fotográficas já sem utilidade. Era amante da fotografia. Acho estranho pensar que as pessoas abandonam as imagens da família ou vendem. Será por falta de espaço? Ou as gerações mais novas não vêm sentido em guardar tantas lembranças de parentes que nem chegaram a conhecer?
Era um domingo molhado, estava quase indo embora quando vi um álbum largado no fundo de uma caixa de papelão empoeirada. Não era luxuoso ou muito grande. Não sei por que me desviei do caminho ignorando a chuva fina que insistia agora mais. Me aproximei. Sem as costumeiras conversas entrei focado no objeto que me atraiu. A capa era esgarçada, quase sem cor. O toque foi cuidadoso. As páginas estavam amareladas. Entre elas um fino papel de seda ressecado algum dia protegeu as fotos. Abri devagar. Cauteloso. Era mais um caderno de família? Olhos castanhos brilharam para mim. E voltaram a sussurrar. Dizem que o olfato nos remete a lembranças improváveis. A luz chuvosa iluminou minhas memórias. Vagávamos na casa, que não existe mais, e escutava as histórias que minha avó me contava nas nossas conversas mudas.
