Conversando um pouco

Taxi Driver Is Looking In The Driving Mirror Stock Photo ...

Os passageiros sempre acham que eu falei bobagem, mesmo que eu tenha conversado apenas o trivial durante a viagem. Veja só como é. Uma vez entrou uma menina com nome de Juliana no meu Uber. Tinha o cabelo preto liso e comprido, umas tatuagens feias no braço. Quando ela entrou pela porta traseira do lado do acompanhante, pude ver só um gato Félix gigante no braço esquerdo, que prenunciava que ali devia ter também uma clave de sol, umas flores subindo no tornozelo, quem sabe uma tribal nas costas. Ela ia da Vila Mariana para a rodoviária do Tietê e teve a cara de pau típica de adolescente mau criada de perguntar se eu sempre converso “bastante mesmo” com todos os passageiros que pego. Eu não sou um cara egocêntrico, sempre me pergunto “será que o passageiro acha que falei bobagem?”. Porque se eu falar, eles me dão menos de três estrelas.

Sou um motorista quase bem avaliado com meus 4,5 pontos. Até o ano passado, quando eu estava completando dois anos desse negócio com meu Corsa Sedan que era zero quando o comprei em 2012, eu não entendia como era esse lance de pontos. Quase sempre eles, os clientes, murmuram lá do banco detrás como se eu falasse muito.  E foi aí que comecei a constatar como funciona esse negócio, assim como quem não quer nada, perguntando aos passageiros como eles costumam avaliar as viagens. Uns me disseram que não lembram de fazer isso ou clicam na última estrela da fila quando abrem o app pra pedir um novo carro, só pra desbloquear mais rápido a tela.

Eu, nos meus itinerários, gosto de passar por avenidas com a esquerda livre de faixa exclusiva. Porque não tem nada que irrite mais uma pessoa que dirige do que sinaleiro. E não tem como ter trânsito sem sinaleiro, né? Então, quando não tem faixa exclusiva, eu só ando pela esquerda. Primeiro porque essa é a faixa pra quem é piloto. A direita é pros domingueiros sonsos. Segundo porque se um maldito vermelho cai bem em cima da minha cabeça, eu abro a porta, faço pelo menos 10 polichinelos e volto a me sentar no banco do motorista.

Eu nunca imaginei na vida que teria uma profissão em que eu tivesse que ficar sentado tantas horas seguidas. E ainda tem gente que se espanta quando eu me exercito no trajeto. Teve outra moça, uma dessas que poderiam se chamar Paula ou Gabriela que daria no mesmo – ela tinha até cara desses nomes que são mais comuns em chamada de escola do que Maria, que deus abençoe, pelo menos é a mãe Dele. Pois… essa moça. Ela não fez cara de espanto, como uma Rafaela faria se ouvisse alguém arrotar depois de tomar 2L de Coca-Cola. Ela fez uma cara de desprezo depois que saí e voltei para o carro. Eu senti que ela me olhou da nuca à cintura e depois fixou bem o olhar no retrovisor central. Aposto que ela julgou minha cara como sendo a de um ex-taxista humilde que precisa do dinheiro pra sustentar os filhos que tiveram filhos e continuam na minha casa. Por isso ela deu 5 estrelinhas. Se meu pensamento corresse tão concentrado quanto minhas pernas, eu ia dizer: ô, cara de bifum com abobrinha, não é todo mundo que gosta de comer macarrão de arroz sem shoyo como você. Eu preciso me movimentar, lesma criada em sofá.

Ora, será que ficou com dó? De mim? Eu poderia estar me dedicando a ler, a ir na sala São Paulo aos domingos com Dona Nice, minha cônjuge, fazer meus grandes posts no Facebook. Eu trabalhei muito na vida. Quando era jovem quase fui maratonista profissional. Tinha porte e genética, metabolismo rápido e corpo esbelto. Mas vi que ficar só treinando, controlando a alimentação, regulando noites e etc., não ia dar pra mim, não. Queria conhecer mais do mundo prático e, quem sabe, interferir nele.

Como eu estou tendo que passar mais tempo sentado aqui pra pagar esse carro novo que precisei comprar pro serviço – eles lá do patronato começaram a implicar com meu Corsa – peguei um estudante ali na Mackenzie para levar no alto de Pinheiros e estava contando a ele. Terminei o curso de direito e nem busquei o diploma. Porque é um conhecimento que a gente precisa ter, né? Mas aquele palavreado todo em páginas e páginas de processo, aquele protocolo todo, não dá pra mim. Enquanto um advogado normal está no “Vossa Excelência, com sua permissão, gostaria de requerer a palavra” e etc. etc. etc., eu já teria feito a audiência inteira, tomado café e respondido e-mail.

Claro, continuo fazendo minha caminhada logo cedo, antes de pegar o carro – olhei pelo retrovisor e o rapazinho, distraído olhando no celular, nem levantava a orelha pro meu conselho. Será que o passageiro acha que estou falando bobagem?

Sabe, é Felipe, né? Todo dia eu levanto da cama e vou correr, passo na padaria, deixo o café de Dona Nice pronto, como meu mamãozinho e saio. Fiz isso a vida toda antes de ir pra loja. Larguei o direito e abri um PF no centro. Detrás do balcão repassando pedido, cobrindo o caixa, fazendo os pedidos diários de material, expulsando os bêbados de fim de tarde ou resolvendo o que fosse é que eu estava bem. Não fiquei rico, é certo. Mas também não fui obrigado a ficar sentado debaixo de uma luz branca todas as tardes da minha vida. O problema é que agora, com esse carro novo, nem mexer a perna esquerda pra passar a marcha eu mexo. Por isso que eu converso, né?

 

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