Dopamina

Por Susy Freitas

Ah, doutora, da hora em que eu caí, lembro que a chave de fenda na minha mão chacoalhou. Eu já não conseguia acertar na cruzinha do parafuso mesmo. Aquilo era pra ser um alvo, não? Aquele buraquinho em formato de “+”? Só que quando isso ataca, não acerto uma. O mundo vira uma gelatina desabando do barranco, que nem eu caindo da escada. Só precisava terminar de instalar o diabo daquele ar-condicionado, só isso, mas as coisas ficam difíceis quando os tremores começam.

O negócio é que não é só esse lado todo do corpo tremer, minha filha. A cabeça entra em curto circuito! É como se eu funcionasse na base da gambiarra, ou pelo menos foi assim que o outro médico no SPA falou quando me passou uns remédios – não aqueles escrotos, que foram só dinheiro jogado no lixo da outra vez, mas uns que dão uma amenizada nisso a maior parte do tempo. A Dona Paloma diz que tem médico que passa remédio ruim só pra ganhar dinheiro com laboratório farmacêutico e que eu devia fazer o tratamento com um homeopata que ela conhece, tudo natural, mas deve ser uma fortuna, não?

O neuro falou que a doença faz com que eu não tenha uns negócios no cérebro que se juntam e ajudam na coordenação motora. É a mesma coisa que faz a gente ficar feliz, qual o nome mesmo? Cloroquina? É engraçado isso, o médico achar que a felicidade faz a gente se mexer direito. Enfim, diz que é por isso que eu vivo tendo uns ataques de raiva junto com os tremores. Mas eu acho que fico puto mesmo é com o lado direito do meu corpo chacoalhando e eu não conseguir nem colocar uma colher na boca quando o negócio fica fora de controle. E assim como começa, termina.

O outro médico já tinha me falado também pra não fazer nenhum serviço até eu me acertar com a dose nova do remédio, que isso de faz tudo já teve seu tempo. Sinceramente? Fiz ouvido de mercador. Minha aposentadoria não dá conta, e se junta os meus remédios e os da minha velha, já foi mais da metade do dinheiro numa porrada só. Tem outra, eu não podia negar esse serviço de hoje justo pra Dona Paloma, ainda mais uma coisa besta daquelas, só dar um grau no quarto de hóspedes. A neta dela vem de Curitiba passar as férias aqui e quer tudo nos trinques, diz que a menina é braba, acostumada com coisa fina. Também, com aquela mãe fresca. Maria Eduarda o nome da peça.

E pensar que quando eu comecei a fazer serviço pra Dona Paloma, ela tinha acabado de passar no concurso do tribunal. O filho dela, o João Victor, ainda corria na Lauro Cavalcante descalço pra jogar bola com os aprendiz de galeroso* lá do Igarapé de Manaus**. Voltava pra casa todo tuíra***! Isso ele não deve contar pra Dona Maria Eduarda, digue lá?

Ah, doutora, a senhora precisa ver como ficou o quarto. Limpei as paredes cedinho pra um outro cabra colocar o tal do papel de parede numa delas. Era o mesmo do quarto da Dona Paloma, bege, com umas florzinhas rosas de talo dourado, igual esses lencinhos de velha, sabe? A limpeza foi um serviço rápido, porque a tinta que eu tinha usado pra pintar ali uns anos antes era semibrilho, então qualquer paninho com água resolvia aquela bronca. E olhe pra mim, ninguém diz que tenho sessenta e dois anos! Jogo bola todo final de semana. Aqueles meninos brancos, sebosos que nem Chester Perdigão, ficam tudo sem ar depois de vinte minutos. Eu jogo três partidas direto! O serviço era galho fraco, como diz o caboco.

O único porém é que a gente tá em setembro, né, um calor dos infernos. Daí o rapaz do papel de parede me perguntava de cinco em cinco minutos se eu tava bem só porque eu suava um pouco, o que já foi me deixando irritado. O senhor tá bem? O senhor tá bem? O senhor tá bem? Que nem um papagaio. Chegou uma hora que eu perguntei pra ele: “meu filho, tu tá torcendo pra mim ou pra parede?! Me deixe em paz, homem de Deus!”.

Se eu me sinto culpado? É, agora eu me sinto com vergonha, né, mas aquele cabra me tirou do sério, e rápido. Só que a gente tinha deixado a porta que dá pro closet aberta pra correr um ar, e tem um espelho enorme lá dentro. Olhei pra minha cara nele e foi então que vi. Meu queixo tremia pra valer. Chamam de tremor de repouso isso, a senhora deve saber. Nem noto quando acontece, se vacilar está tremendo agora e eu nem sei. Deve ter sido por isso que o menino do papel de parede me perguntava tanto a mesma coisa! Coitado, não falou mais nada depois. Mas o bom de quando a gente é velho é que pra tudo tem desculpa. Quando é velho doente então, melhor ainda. De qualquer forma, vou pagar meus pecados com esse gesso no braço.

Depois que o menino do papel de parede foi embora, fiquei sozinho no quarto, ruminando aquela merda. Queria esquecer aquilo, mas não conseguia. A senhora veja então que eu fiquei num estado de espírito alterado. Instalei as persianas logo pra fazer aquele caqueado de que tava quase pronto, mas nem isso me tirava as perguntas da cabeça. O senhor tá bem? O senhor tá bem? Deus me perdoe, mas escondi umas gambiarras ali não sei nem pra quê, porque a Dona Maria Eduarda não ia notar mesmo. Aquilo prestando por um mês, que é o tempo que a menina fica em Manaus, tá de bom tamanho.

Quanto mais eu pensava no rapaz, mais minha mão tremia. Os dedos ficaram tudo duro e eu me aguentava como podia, porque já estava subindo na escada com jeitinho pra pôr o ar-condicionado no vão. Aquele menino era novo, devia ser um fodido trabalhando numa loja de grã fino, colando aqueles papéis na parede de gente que não devia oferecer nem um copo d’água pra ele, quem dirá olhar na cara do caboco. Não conseguia parar de pensar nisso, eu gritando com o pobre e ele só queria ajudar, no fim das contas. O ar-condicionado não era grande, era um desses de 12 mil BTUs, mas parecia pesar uma tonelada enquanto eu tentava estabilizar o bicho nos braços e pensava: o senhor tá bem?

Foi me subindo uma raiva sim. De mim. Das florzinhas. Do ar-condicionado. Do rapaz.  De saber que ele deve ter saído do prédio pensando “mas que velho filho da puta ignorante do caralho!” no carrinho dele. Eu vi que era um Chevette surrado, num calor dos infernos, imagina? Pensei nele seguindo a Pedro Teixeira no auge do trânsito, sem ar-condicionado, pra colar mais papel num desses apartamentos da Ponta Negra com as paredes todas tortas. Nunca me esqueço de quando sentei o porcelanato no lavabo todo do João Victor. Nem que eu tivesse bêbado teria feito um troço tão fora do prumo como aquilo. Rico é muito enganado também, sabe? A diferença é que tem quem ajeite as cagadas que eles fazem.

Eu entendo agora porque me encaminharam aqui pra senhora. Mas se me falassem antes, só ia dizer que não era doido pra ter que frequentar psicólogo, ia fazer troça. Mas olhe, aquela raiva que eu senti foi uma coisa tão forte que eu não sei como não me joguei da janela, porque vontade não faltou. Ao invés disso, desci dois degraus da escada e joguei o ar condicionado lá embaixo, sem largar da chave de fenda. Onze andares, imagina se pega em alguém? Se cai em cima da Dona Maria Eduarda?

 

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* Galeroso: marginal, vagabundo.
** Igarapé: feixe de água, similar a um córrego. O Igarapé de Manaus é localizado no Centro da cidade, e já abrigou o Palácio Rio Negro, antiga residência dos governadores e sede do governo do Amazonas. Posteriormente (e já degradadas), as margens do Igarapé abrigaram casebres (palafitas) de pessoas de baixa renda.
*** Tuíra: sujo, suado ou coberto de poeira. Expressão de origem indígena, geralmente usada por idosos de origem ribeirinha. Também designa o açaí quando a fruta está mais própria para consumo, apresentando uma fina camada de pó na sua superfície.

 

Links da autora:

Alerta, Selvagem (Ed. Patuá)

Véu sem voz (Ed. Bartlebee)

Revista Torquato

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