por Américo Paim
– Doutor, eu não sei.
– Senhor Romualdo, não tenho muita paciência. Já teve muito tempo.
– Mas, já contei.
– Desembucha! Acha que não consigo arrancar isso de você? Seja homem!
– “O homem elefante”.
– O que? Tá me desacatando? Hoje é domingo, mas não é dia santo! Acabo com sua raça!
Meu Deus, me ajude a parar! O cara é polícia e eu tô todo enrolado! Vai partir para a ignorância! Tenho que me controlar. Foi essa merda me trouxe aqui!
– Calma, doutor, é isso, aliás, não é isso, é que…
– Gervásio, recolhe o elemento. Tratamento VIP nele para refrescar as memórias e…
– “Memórias de um assassino”.
– Opa! Como é? Vai confessar, então?
– Não, não, não é isso!
– Não me teste, seu animal!
– Por favor, me deixe contar sem me interromper! O senhor vai entender.
Não fui eu! Deus sabe! Sou boa gente, quieto, sem graça, um picolé de chuchu. Nunca fiz mal a ninguém. Só não consigo parar com isso. Começou há muito tempo. Era uma brincadeira, só na minha cabeça, mas, agora tá complicado. Toda vez que ouvia uma palavra, emendava um título de filme. Coisa inocente, sem problema. Tem gente que é cheia de nove horas, tem mania de limpeza, implica com barulho ou vive cheirando tudo. Então?
A sexta-feira começou normal: banho, café, busão entupido. Não falei com ninguém, nada de rádio, celular. No trampo, marquei meu ponto e fui para o vestiário. Ali já não foi muito bom, mais ou menos assim:
– Juvenal, tu tá branco! Tá bem? Lavaram sua cara com sabão Omo? Feio desse jeito, se andar por aí assim, vai assustar a fábrica.
– Vá zoar outro, “cara de kombi”. Não tô legal. Vou ver o médico.
– “O médico e o monstro”.
Juvenal veio para me bater, mas o pessoal impediu! Não falei da feiura dele! Foi Ambrosino. Eu só lembrei do filme. Me assustei porque eu falei. Antes, eu só pensava. Aí, doutor, piorou. No caminho pra cozinha, resolvi tomar café. Nada demais. O pessoal do administrativo tava tudo lá na copa, conversando alto, não tinha como não ouvir. Claudete falou e eu fiz besteira de novo:
– Ele me falou, com a cara mais limpa do mundo!
– E aí, menina?
– Disse que magra eu não estava! O que ele espera?
– “À espera de um milagre”.
Ela jogou o café em mim! Desviei, me virei pra correr, tropecei e caí por cima de Conceição, que começou a gritar. Quando tentei me levantar, peguei nos peitos dela. Foi sem querer! Se não fosse o Supervisor, a coisa ia inchar. Deu medo porque eu senti que gostei de falar, como se tivesse procurado a palavra, sabe? Antes era na lata, sem muita ideia. O Super me levou para uma sala de reunião. Achei um pouco demais. Ali eu entornei o caldo. Dentro da sala, Dona Melissa, secretária do Gerente. Ele disse que era bom uma mulher ouvir tudo. Já fiquei tenso. A conversa foi desse jeito:
– Romualdo, o que foi aquilo? Que comportamento!
– “Comportamento suspeito”.
– Reconhece? Pergunte a Dona Melissa, que é mulher.
– “Uma linda mulher”.
– Oh, Seu Romualdo, que gentil.
– O que é isso, rapaz!
– Ora, Jorge, digo, Seu Jorge, que bobagem. Ele só quis ser delicado…
– “O delinquente delicado”.
– Fumou maconha estragada, Romualdo? Diga coisa com coisa! Foco! Se a moça é gorda, não é da sua conta. É assunto pessoal, íntimo.
– “Íntimo e pessoal”.
– Foi o que acabei de dizer! Está me pirraçando? O que fez foi bullying, ela pode processar. A empresa fica exposta. Trate as mulheres com gentileza. Essa grosseria é para os brutos.
– “Os brutos também amam”.
– Oh, que lindo!
– O que está dizendo, Melissa, digo, Dona Melissa?
– Ele deve estar apaixonado por Claudete! Adoro romance! Ela é irmã da minha empregada.
– “Como é boa nossa empregada”.
Devia ter explicado, mas, sacaneei. Falei e olhei para eles com aquela cara de filme de putaria mesmo. Eu me divertia, mas, sabia que tava descontrolado! Achei exagero ele levantar, bater na mesa, gritar. Eu quase ri, mas tava aflito. Ninguém me deixava falar! Assim, ia piorar. Ela colocou panos quentes e lhe deu água:
– Seu Romualdo, o senhor está com a minha empregada e Claudete? O senhor é um bígamo?
– “O bígamo”.
– Sua batata está assando, safado! Aqui na empresa existem limites e responsabilidades! Não é porque o senhor é apenas o cozinheiro que…
– “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante”.
– Que ladrão? Minha mulher? Que amante é esse? Tá louco?
O sujeito arregalou os olhos, vermelho feito pimenta selvagem. O vatapá só não embolou de vez porque ela levantou de repente, puta da vida, com cara de quem engoliu o sapo todo, sem tempero, de cururu pra cima. Ele baixou a bola na hora e levantou junto! Ficaram num canto, ele de cochicho no ouvido dela. Eu tava preocupado porque não conseguia mais rir. Era só medo. A mania tava me dominando. Voltaram mais calmos:
– Romualdo, não está nada bom. Ofendeu uma colega, assediou outra, pratica bigamia e agora você vem para o meu lado?
– “O pecado mora ao lado”.
– Hein? O que disse? Não estou entendo suas intenções.
– “As melhores intenções”.
– Chega de conversa! Você me irrita. O que acha que tem na manga, alguma carta?
– “Carta de uma desconhecida”.
Eu tava no limite, mas, ali, mesmo sem saber, ficou claro que eu peguei pesado. Os dois se olharam e levantaram de novo, agora calados. Ela andava e balançava os braços. Ele tentava acalmar. Quando vieram, eu ia falar, mas ele foi direto ao ponto:
– Está brincando com fogo, moço. Qual é o seu jogo?
– “Jogo do dinheiro”.
– Ah, o coelho saiu da toca. Chantagem, moleque? Vai ver só…
Foi a mão dela no braço dele que salvou tudo! Eu já me levantava para encarar. Se olharam, ela acenou com a cabeça e ele falou:
– Não sei o que está sabendo, mas, quanto vale seu silêncio?
– “O silêncio dos inocentes”.
– É um verme, mesmo. Acha que vou passar o rodo nas suas derrapagens com as colegas? Eu vou é lhe dar um corretivo agora mesmo, seu filho da puta!
– “A puta do rei”.
Falar isso já foi foda, mas olhando para ela foi burrice. Não sabia porque me pegaram para Cristo, mas de palavrão eu entendo. Ele me bateu, mas deitei a mão no desgraçado também. A gente se pegou igual briga de cobra, rolando pelo chão. O homem era grande e forte. Vi que não ia dar conta, corri e ele atrás. Fui mais rápido e desci para a oficina. Aí, ouvi o barulho. O Super caiu escada abaixo. Quando bateu no chão, bateu as botas. Foi isso que aconteceu. É a verdade, doutor. Era hora do almoço, ninguém viu. Dona Melissa mentiu que eu empurrei o homem lá de cima porque tá com medo. O povo da fábrica diz que ela é mulher do Gerente e tem caso com Seu Jorge. Como eu ia saber disso? E a tal carta anônima que eles receberam? Sou adivinho?
– Quanta imaginação. Quer que eu acredite nisso, sem testemunha?
– “O céu é testemunha”.
– Muito engraçadinho. Peraí, que eu vou fazer seu caruru!
– Calma, doutor, por favor! Não é por mal. É tipo um cacoete. A coisa toda saiu do controle, mas eu contei a verdade! Olhe por mim aí!
– Agora vem de rabinho entre as pernas! Não queria estar no seu lugar. Sua situação é crítica!
– “Situação crítica, porém, jeitosa”.
– Meliante debochado! Gervásio, recolhe. Bem que minha avó já dizia: não trabalhe aos domingos!
– “Nunca aos domingos”.
Referências do texto:
“O homem elefante” (David Lynch, 1980)
“Memórias de um assassino” (Bong Joon Ho, 2003)
“O médico e o monstro” (Victor Fleming, 1941)
“À espera de um milagre” (Frank Darabont, 1999)
“Comportamento suspeito” (David Nutter, 1998)
“Uma linda mulher” (Garry Marshall, 1990)
“O delinquente delicado” (Don McGuire, 1957)
“Íntimo e pessoal” (Jon Avnet, 1996)
“Os brutos também amam” (´George Stevens, 1953)
“Como é boa nossa empregada” (Ismar Porto e Victor di Mello, 1973)
“O bígamo” (Ida Lupino, 1953)
“O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante” (Peter Greenaway, 1989)
“O pecado mora ao lado” (Billy Wilder, 1955)
“As melhores intenções” (Bille August, 1992)
“Carta de uma desconhecida” (Max Ophüls, 1948)
“Jogo do dinheiro” (Jodie Foster, 2016)
“O silêncio dos inocentes” (Jonathan Demme, 1991)
“A puta do rei” (Axel Corti, 1990)
“O céu é testemunha” (John Huston, 1957)
“Situação crítica, porém, jeitosa” (Gottfried Reinhardt, 1965)“Nunca aos domingos” (Jules Dassin, 1960)
