Eu, você e todos nós

Artista visual e performática, escritora, cantora, atriz e cineasta, Miranda July é uma das artistas-totais de nosso tempo. Já era famosinha no mundo artístico quando publicou É Claro Que Você Sabe Do Que Estou Falando (Agir), em 2005, uma coleção de ficções breves cheia de situações insólitas e personagens excêntricos. Expoente do mumblecore, da cena riot girrrl e da hipsterlândia de Portland, July se interessa especialmente pelos “momentos mortos” – aqueles em que aparentemente não está acontecendo nada – , pessoas que ficam falando sozinhas nas ruas, gente a quem ninguém dá atenção. Entre a luz e a sombra, ela prefere as zonas cinzentas, indeterminadas. Daí talvez os sonhos atravessarem sua ficção de modo tão fluido. Este é o segredo de seu filme Eu, Você e Todos Nós, que conta a inusitada história de amor entre uma taxista (ela mesma) e um vendedor de sapatos (John Hawkes), vencedor da Caméra D’Or em Cannes.

Neste conto, uma verdadeira preciosidade, July mostra como sua prosa é enganosamente simples. Ao contar na segunda pessoa, como se fosse uma carta ou um monólogo dirigido a um ex, a narradora parece reclamar que sua vida é sem graça, povoada por acontecimentos sem o menor interesse. Mas, à medida em que vamos tendo acesso à história, percebemos que é exatamente o contrário. Afinal, ela conta como foi, durante meses, instrutora de natação para octogenários – sem sair de sua casa: eles nadam no seco. Um dos segredos para seu conto ser tão divertido é o fato de que a narradora não parece nunca se divertir com o que conta, jamais dá uma risada – afinal, trata-se de uma carta banhada em ressentimento e rancor contra o ex. No confronto entre o ordinário e o extraordinário é que nasce a tensão deste conto.

PROPOSTA

Bem… é isso o que você vai fazer. Contar uma história sobre pessoas ordinárias cuja rotina é sacudida por um evento extraordinário – que, no entanto, acaba virando rotina.

Por evento extraordinário não se entenda uma morte ou algo que redunde em um acaso fatal. É uma situação inusitada que, ao ganhar repetições, perde seu impacto mas ganha outros sentidos.

Para dar alguma estrutura ao seu conto, escreva algo que tenha relação com um trabalho (que pode ser, por exemplo, o seu próprio trabalho).

Narre na segunda pessoa, como se estivesse contando o ocorrido para alguma pessoa específica. Você pode se inspirar em algo surreal que tenha acontecido a você ou a alguém próximo.

Mantenha a frieza ao narrar. O humor e a estranheza são feitos de contrastes.
Em no máximo 7 mil toques.

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