Silvia Argenta
Quem mora pelas redondezas vive reclamando que o barulho começa cedo. O zunido acorda quem dorme. Também atordoa quem já está de pé. É comum o telefone tocar logo pela manhã, e do outro lado da linha alguém xingar minha mãe ou me mandar para lugares exóticos. Respondo educadamente e peço que encarem a situação como um despertar dos sentidos. Mesmo sendo cordial, minha tática não funciona. Assim, por conta da ira dos vizinhos, o patrão atrasou em uma hora o início do nosso trabalho. Agora, às oito em ponto, religiosamente, visto as luvas grossas manchadas de cinza e a máscara que protege o rosto das faíscas que saltam do corte e da solda das lâminas de ferro e aço.
O galpão onde trabalho vira uma estufa com três pessoas lidando o dia todo com material quente. O ar pouco circula, já que há somente uma porta e uma janela. Os dois ventiladores instalados no teto de zinco giram tão devagar que só servem para acumular pó e aumentar a conta de luz. O jeito de amenizar o calor é carregar sempre um isopor com cervejas e muito gelo. Às nove, já derretendo de tanto suar, começo a beber. Me sinto melhor quando estou hidratado.
Alterar o horário do nosso trabalho não mudou em nada as reclamações dos vizinhos. Começo o turno intercalando o atendimento das habituais ligações matinais e a finalização de um oratório que há dias me desafia. A peça tem muitos detalhes com as pontas retorcidas arredondadas. A cliente é uma beata meticulosa. Trouxe um desenho com todas as medidas e não aceitou nenhuma das mudanças que sugeri para facilitar a confecção. Tanta exigência para colocar o oratório na sala! Na infância até tentei me adequar ao catolicismo. Participei de algumas novenas com a avó, que tinha uma santinha peregrinante. A cada semana ela era transferida para a casa de uma das comadres, onde todas as mulheres se reuniam, se davam as mãos formando um círculo e passavam cerca de uma hora rezando. Deve ser para isso o oratório da cliente.
No início da tarde, conforme combinado, chega a beata. Com uma fita métrica de costura, crava que um dos adornos tem dez centímetros a mais do que está no desenho. Mostro como se deve medir a peça, e ela não me dá razão. A rezadeira vai toda semana na missa pedir perdão pelos pecados, mas não pensa duas vezes para me xingar.
– Me devolve o desenho. Devia ter feito o pedido para a serralheria do seu Elias.
– O seu Elias já está gagá. A senhora veio ao lugar certo. O oratório está perfeito.
– Não está, seu cachaceiro! As duas pontas não estão alinhadas. Dá para ver de longe!
– A senhora devia ir no oculista, isso sim.
– E você precisa se tratar, seu bafo de onça!
Ela deixa o oratório e sai levando o desenho. O prejuízo é grande porque a cliente faz várias encomendas aqui. Fazia. Depois dessa não volta mais. Me chamou de cachaceiro… Tomei só umas de leve. Cerveja ainda. Nem foi nada. Por sorte, o patrão não está e meus colegas nem se metem mais nessas discussões. Para evitar perguntas, jogo o oratório no forno de fundição. Derreto essa história.
Prefiro os trabalhos mais brutos, sem delicadeza. Portões de ferro para galpões, escadas de silos, chapas metálicas. Nunca fiz, mas sou fascinado mesmo por trilhos de trens, com tudo encaixado perfeitamente. O caminho todo traçado de antemão e assim o trem só segue o fluxo para chegar ao destino. Jamais tive esse caminho seguro. Quando resolvi fazer catequese, a professora exigiu que meus pais fossem todos os domingos à missa. Como eles não iam, fui impedido de continuar a frequentar as aulas. Até sonhava com uma criação católica castradora, mas cresci solto.
Sem patrão e apesar de ter trabalho para fazer, passo o resto da tarde jogando truco com o vizinho da barraquinha de jogos, que me roubou descaradamente. Empurro o banco onde estão as cartas e saio da serralheria sem pagar a suposta dívida. Vou pro Queimazóio. Logo começo a me aporrinhar com o som das vozes das pessoas e da música. A cerveja já não me apetece e parto para as canas para fazer jus ao “cachaceiro” da beata. Em pouco tempo, me sinto bem de novo. Solto o gogó nos sertanejos, puxo as donzelas para dançar e trapaceio na sinuca. Acabo enxotado porque disseram que eu estava incomodando. Nem percebi o que fiz.
Já é noite. Mal viro a esquina de casa e escuto os louvores. Não pode ser que tem culto justo hoje. Na rua, os postes estão todos apagados. A iluminação vem da igreja, imensa, em formato de arca de Noé. A empolgação dos músicos com seus instrumentos microfonados faz ecoar o som da banda completa pelos arredores da vizinhança. Bateria, guitarra, baixo e a voz do pastor com plenos pulmões pedindo o dízimo para curar queda de cabelo e unha encravada. Devem ter uns duzentos crentes lá dentro. Muitas mulheres de cabelo e saia compridos, de olhos fechados e as mãos para o alto, falando sem parar. Nem ficam mais sentados nos bancos cuidadosamente alinhados. Fazem muito barulho e é impossível entender o que dizem. Parece uma catarse.
Quando eu era criança, esses crentes cantavam que em 99 o mundo ia acabar. Devem ter orado tanto que foi por isso que não acabou. Mas o que acabou mesmo foi minha paciência do início da manhã. O álcool já tomou conta do meu cérebro faz tempo. Na verdade, não devia nem ter voltado para casa dirigindo. Passei da conta num dia de semana! Preciso tomar um banho e dormir. Mas como, com esse barulho? Estaciono o carro na frente de casa, tiro a camiseta e me dirijo à igreja.
– Sou o satanás na Terra!
A banda para de tocar, e todos na igreja se viram para a porta. Os crentes, talvez incrédulos, ficam mudos. Grito as mesmas palavras novamente, com mais ênfase, para que todos me ouçam. Sinto uma quentura no rosto e ao mesmo tempo prazer em ser notado. Aproveito que todos estão atentos e entro pelo corredor. Quero gritar de novo no altar, mas logo começa o berreiro. As pessoas não se amedrontam com minha altura nem com a cicatriz que eternizou na minha barriga uma facada numa briga de bar. Enquanto caminho, elas passam suas mãos em meu corpo, na tentativa de me libertar de algo que nem entendo o que é. O clima catártico volta à igreja.
– Em nome de Jesus, sai, descarrego!
– Deus, opere um milagre!
– Cristo, tenha misericórdia!
O pastor não se intimida, retoma o microfone e puxa a oração. Todos o seguem, inclusive a banda.
Vamos nos concentrar para tirar o satanás do corpo desse homem
Só o Senhor é Deus
Só o Senhor é Deus
Cantemos com muita alegria, dizendo que
Só o Senhor é Deus
Glória, aleluia!
No altar, me veio uma estranha sensação de acolhimento. Queria confrontar seus valores, mas, mesmo invadindo a igreja, sou convidado para frequentar o culto e encontrar Jesus. O senso de salvação dessa gente é impressionante. Não me sinto hostilizado. Me entrego ao ritual e, por dentro, me aquieto. Depois desse dia, o pastor, preocupado, vai toda semana na minha casa para verificar como estou e, se for preciso, oferecer ajuda espiritual. Tenta colocar minha vida nos trilhos. Apesar do ocorrido, as cantorias continuam, e a igreja se mantém com as portas abertas.
