Como. Como. Como.
O granulado desliza da minha boca para a garganta como naquele dia em que minha irmã e eu experimentamos juntas o meu primeiro brigadeiro. Eu tinha exagerado um pouco no chocolate em pó, o que foi corrigido nas vezes seguintes. Sete colheres de chocolate. Nunca mais esqueci.
A Val me olha feio. Eu sei, eu sei que não é hora de comer. Tô passando o meu avental aqui. Calma. Saco. A Val é como a minha mãe, que pegava no meu pé quando eu ficava até tarde na cozinha. Eu ficava lendo as receitas da minha avó em um caderno, cujo título era Rainha dos Doces. Folheava página por página e fazia uns testes com o que tinha em casa enquanto minha mãe gritava do quarto. Você tem que acordar cedo amanhã, ela berrava. Eu sei das minhas obrigações, mãe. Eu sei.
Termino de desamassar meu avental e passo pelo depósito, onde há uma cadeira. A farmácia é como uma loja de doces. Sei que parece que estou viajando, mas pense bem. Nas duas, têm o depósito. Em uma, há pequenos comprimidos para serem ingeridos. Na outra, há balas, que também são pequenas e serão engolidas. As duas são exploradas por crianças curiosas. Sei que vai dizer que crianças são curiosas com qualquer coisa, mas escute bem o que estou dizendo. Elas são a mesma coisa, farinha do mesmo saco.
Desço as escadas e pergunto se é para ficar no caixa. A Val diz que é melhor eu fazer minha seção. Afinal, ontem faltou dinheiro no meu caixa de novo. Parece que a Val fica me acusando como naquela vez que disseram que eu petisquei um pouco do creme de maracujá. Lógico que eu tinha petiscado. Mas dinheiro é diferente. Comida pode roubar um pouquinho, dinheiro não. Experimentar um pouco do que eu faço é parte da profissão. Tenho que saber se está doce, amargo, azedo. Dinheiro não pode experimentar. Eu sei a diferença.
Tiro os absorventes da prateleira, um por um. O objetivo é arrumar como está no planograma. Ajeito os óculos no rosto para ler cada um deles. Tem para todos os gostos. Com aba, sem aba, noturno, cobertura suave ou seca, fluxo super, fluxo médio, fluxo mini. É como aquela sequência de chás que minha neta fica recitando de cabeça. Mirtilo, framboesa, ginseng, boa noite, chá verde, chá verde com limão, chá verde com limão e mel, chá para o fígado, gengibre com mel, baunilha, trufa com coco, camomila, camomila com mirtilo, baunilha sem cafeína, chá preto e earl grey. Aí eu tenho que perguntar se ela inventou algum desses nomes. Faz tempo que ela parou de falar isso.
A Val briga comigo. Diz que estou fazendo a seção do Tico e que eu deveria estar arrumando as fraldas geriátricas. O Tico e os outros ficam de tititi como minha neta estava com as amigas. Foi depois dessa conversinha delas que me falaram que eu deveria parar de cozinhar e achar algum outro emprego. O aluguel estava bem apertado e meus pratos já não faziam mais tanto sucesso. Minha neta que sugeriu que eu tentasse a vaga como atendente um na farmácia do bairro. Disse que estavam contratando qualquer um.
Vou até as fraldas geriátricas e faço o que tenho que fazer. Ainda dá tempo de puxar o Tico para um canto e dizer que não gosto que falem de mim pelas costas, mas ele diz que não se chama Tico. Digo que ele só pode estar brincando como minha neta fazia comigo antes de dormir. Ela repetia uma sequência de chás que sabia de cabeça: Mirtilo, framboesa, ginseng, boa noite, chá verde, chá verde com limão, chá verde com limão e mel, chá para o fígado, gengibre com mel, baunilha, trufa com coco, camomila, camomila com mirtilo, baunilha sem cafeína, chá preto e earl grey. Depois eu perguntava se ela tinha inventado algum desses nomes. Ela ria e dormia.
Quero ir ao banheiro. Subo. Como. Como. Como.
O pedaço de pavê de amendoim vai da geladeira para minha boca. Mastigo aquela sobra da festa junina quando a Val chega. Ela me olha feio, dizendo que eu não deveria comer a comida dos outros. Digo que o pavê é meu, como sempre. Afinal, eu sou a responsável por todos os doces das nossas festas juninas. Tá, se você insiste, eu te digo. Também sou a responsável pelos salgados, mas não falei antes pra que você não pensasse que estou me achando. Toda a família sabe que o pavê é meu por direito, mas confesso que devo ter exagerado no creme de leite. Está com um gosto forte de paçoca.
Desço as escadas e volto para o caixa. Digito os botões para abrir o meu caixa e peço para que o próximo cliente se aproxime. O Tico diz alguma coisa, mas eu o ignoro como minha mãe fazia quando eu dizia que seria a próxima Rainha dos Doces. Eu dizia mãe, eu vou ser a próxima Rainha dos Doces, que nem a vovó. Eu vou decorar todas as receitas do livro e todo mundo vai amar, você vai ver. Eu vou chegar lá, mãe. Eu vou chegar lá.
O Tico sai e volta com a Val, que me pergunta o que é que estou fazendo no caixa. Respondo que estou trabalhando, mas ela dá uma bronca em mim de novo. Diz que é para eu fazer a minha seção. Fico constrangida como a milésima vez em que me aproximei da minha mãe para falar os chás que eu conhecia de cabeça. Mirtilo, framboesa, ginseng, boa noite, chá verde, chá verde com limão, chá verde com limão e mel, chá para o … Ela me interrompeu e falou um monte de grosserias para mim. Usou a Rainha dos Doces para me bater e depois jogou fora o caderno da vovó. Nunca chorei tanto.
Ah, é. Eu quero ir no banheiro. A caminho de lá, passo por um garoto, que parece perdido. Pego umas balinhas brancas de uma prateleira e dou para ele experimentar. Criança gosta de loja de doce como eu gosto da minha cozinha. Minha filha até que gostava de cozinhar comigo, mas ela faleceu dando luz à minha neta. Meu genro, pra variar, fez que nem biscoito de sequilho em contato com a boca e desmanchou. Aí precisei cuidar sozinha da menina. O problema é que ela não se interessava tanto pelas receitas. Só gostava dos chás, que sempre soube recitar de cabeça.
A moça dá um novo berro, acho que é Val o nome dela. Tira o doce da mão da criança e fala que eu sou uma irresponsável, que não posso dar aquele doce para a criança. Aí teve o escarcéu. A moça fica na dúvida se chama a polícia ou a ambulância e todo mundo parece gritar comigo. A moça me leva pro andar de cima. Achei que ela estava me levando para o banheiro, mas ela me coloca em um depósito e me faz sentar em uma cadeira. Ela implora para que eu fique sentada por lá enquanto ela liga para alguém. Já já alguém vai subir aqui ficar com você, calma. E fecha a porta. Fico ali sentada, com várias cartelas de doces brancos ao meu redor. No centro da sala, estou em um trono. Eu conquistei o meu lugar, mãe. Eu cheguei lá. Sou a Rainha dos Doces. Me sinto orgulhosa como quando fiz o brigadeiro pela primeira vez. Me sinto feliz como quando confiaram em mim nos doces e salgados da festa junina. Me sinto maravilhosa como… como… como.
