Por Filipe Masini
Eu, Jota e Zacarias tínhamos oito anos quando nos conhecemos. Gostávamos de nos chamar de “trinca de ases”, mesmo sem entender o significado direito da expressão. Eu tinha ouvido meu pai falar uma vez em meio a berros e gargalhadas, durante uma daquelas noites enfumaçadas lá em casa, com os seus companheiros de sempre. Lembro bem do cheiro forte na manhã seguinte e da minha mãe furiosa limpando as bitucas de cigarro espalhadas por toda parte.
Éramos da mesma classe do Colégio Andrews, localizado na Praia de Botafogo. Não sei o que nos aproximou, talvez um tenha ido com a cara do outro. Acho que quando somos crianças, não pensamos muito nisso. As aproximações se dão naturalmente. Logo nos tornamos inseparáveis.
Jota era um menino miúdo e gordinho, que se escondia por detrás daqueles óculos de fundo de garrafa. Muito tímido, conversava com quase ninguém, apenas se sentia à vontade conosco. Sempre foi o melhor aluno da turma e tinha orgulho desses títulos. Gostava de ostentar as incontáveis estrelinhas douradas que a professora colava em seu caderno.
Zacarias era o oposto. Muito magro, cabelos muito lisos e falastrão. Era um péssimo aluno e todo ano dependia da boa vontade dos professores para ser aprovado. Essa boa vontade, cada vez mais utilizada, tinha uma razão: seu pai era um ator famoso na época. Na classe, todos queriam ser seu amigo. Sempre era o centro das atenções e isso o encantava. Talvez tivesse tomado gosto pelos holofotes também. A cada semana tinha uma nova namoradinha. Eu e Jota ficávamos muito irritados, pois acabávamos ficando em segundo plano. Até que ele cansava e voltava para nossa companhia como se nada tivesse acontecido.
Durante seis anos nossa amizade só aumentou. Passávamos as férias um na casa do outro; compartilhávamos as descobertas de nossos corpos em plena transformação; falávamos sobre primeiras experiências e decepções amorosas. Até que por fim a paciência dos professores chegou a um limite. Zacarias havia levado bomba. Para não repetir de ano, seu pai o transferiu de colégio. Esse novo colégio aceitava que o aluno fizesse a matéria em que reprovara, enquanto cursava a série seguinte.
A “trinca de ases” foi se enfraquecendo aos poucos. Tentávamos manter os encontros frequentes, mas as novas amizades, as demandas escolares e as diferentes realidades acabaram de vez com nossas tentativas. A trinca virou uma dupla, e eu e Jota nos mantivemos firmes.
Quinze anos se passaram e a vida adulta foi se apresentando e as responsabilidades se acumulando. É uma sensação de que entramos em um modo automático que a rotina diária nos impõe, e quando percebemos, já não tem mais volta. Eu já trabalhava em meu segundo emprego e estava de casamento marcado. No meio dessas situações marcantes em nossas vidas, somos acometidos algumas vezes por sentimentos nostálgicos. Às portas desta nova fase que se desenhava, lembrei de Zacarias. Pensei nos rumos que a minha vida tinha tomado e me deu uma vontade enorme de poder compartilhar com ele. Queria saber também o que ele estava fazendo, quais eram os seus planos e, quem sabe, reviver a “trinca de ases”.
Procurei em minha agenda telefônica o número da casa de Zacarias com a esperança que ainda fosse o mesmo. Liguei e atendeu uma voz de mulher, que reconheci como sendo a mãe dele. Perguntei se Zacarias estava e ela, de forma um tanto agressiva, me perguntou “O que você quer com ele?!”. Expliquei que tinha estudado com ele e que éramos muito próximos, mas que havíamos perdido o contato quando ele mudou de escola. Ela pareceu não se convencer pela minha história e disse que não poderia me ajudar. Apesar de estranhar a reação dela, resolvi não desistir. Era uma questão de honra encontrá-lo.
Como sabia que seus pais eram divorciados, fui à caça do número de seu pai na lista de telefônica. Após localizar, liguei e a recepção desta vez foi bem diferente. Contei a mesma história que havia contado antes. Ele ficou feliz em ouvir que um amigo de seu filho o estava procurando e que seria bom para ele encontrar alguém do passado. Ele me disse que daria o recado ao filho.
Passado alguns dias, Zacarias me ligou e reconheci a sua voz no ato. Era estranho pensar que mesmo após tanto tempo sem ouvir a sua voz, ainda lembrava daquele timbre rouco e meio esganiçado. Combinamos de almoçar no dia seguinte em uma churrascaria no Centro, pois tanto eu quanto ele tínhamos compromissos naquela região. Além disso, dava a possibilidade de uma desculpa factível, caso o encontro fosse um desastre.
Conforme havíamos combinado, cheguei no horário e aguardei na porta do restaurante. Esperei cerca de trinta minutos e nada de Zacarias aparecer. Aquela situação começou a me incomodar. Comecei a me perguntar se ele poderia ter desistido na última hora ou ter aparecido algum compromisso de trabalho inadiável. Até que reparei em um homem careca e barrigudo que aparentava a mesma inquietação que eu. Como não tinha nada a perder, fui até ele e perguntei incrédulo, “Zacarias?!” e ele compartilhando da mesma incredulidade, “Lico?!”. Confesso que fiquei bem ofendido na hora, pois diferente dele, eu ainda era magro e mantinha boa parte das minhas madeixas intactas.
Após o estranhamento inicial, entramos e nos sentamos em uma mesa mais ao fundo. Começamos a conversar e foi uma sensação incrível, como se tivéssemos voltado àqueles tempos de garoto e nada tivesse mudado entre nós. Lembramos das vezes que em que colocamos tachinha na cadeira da professora; das férias que passamos na praia; daquela garrafa de uísque que roubamos do meu pai.
Passada a euforia inicial e depois que todas as histórias em comum foram lembradas. Comecei a contar que estava muito animado, pois meu casamento seria em um mês. Cada vez mais estava me sentindo realizado em meu trabalho e que deveria receber uma promoção em breve. Quanto mais eu falava, mas Zacarias ia se encolhendo na cadeira e sua expressão se fechando. Aquela figura bonachona de antes foi sendo substituída por uma figura amarga e ressentida.
Quando foi a sua vez de falar, ficaram claros os motivos da sua reação. Zacarias estava em pleno processo de divórcio litigioso. Por isso sua mãe havia agido daquela forma ao telefone, pois achava que era algum advogado procurando o seu filho a mando da ex-esposa. Além disso, havia sido demitido do escritório de advocacia em que trabalhava. Para completar, tinha recebido uma ordem de despejo do apartamento que morava por falta de pagamento do aluguel.
Não sabia o que dizer, então não disse nada. O silêncio naquele momento era torturante para ambos. Resolvemos pedir a conta para o primeiro garçom que passou. Já do lado de fora do restaurante, trocamos mais algumas palavras. “Vamos marcar de novo um dia desses”, falei para ele. “Claro, nos falamos”, ele respondeu. Nos cumprimentamos de maneira fria e cada um seguiu para uma direção.
