Fábio Kalvan
Meu avô era um homem “à moda antiga”. Mesmo aos domingos estava de camisa social para dentro da calça, nunca um jeans, e relógio de pulso. Nos dias calorentos a camisa poderia ser de mangas curtas. E muito de vez em quando se permitia bermuda e sandálias. Recordo-o com o corpo espigado e peito de pompo, ressaltando o crucifixo do qual nunca se separava, altivez e decisão que contrastavam com a pouca instrução e a vida de ganhos modestos. Das imagens que guardo dele, em uma está sentado num banco de Kombi que fazia as vezes de sofá e toca algo no cavaquinho (um chorinho?), mas em nenhuma há um sorriso. Figura fácil no bairro, o ter-se tornado ministro da eucaristia o fez ainda mais popular. “Seu Pedro está? É que minha mãe está acamada e queria uma oração” e lá ia meu avô rezar e distrair um pouco as pessoas, atividade que aumentou após a morte da vó Dirce, de quem pouco me ficou, quando então passou a visitar o hospital público lá de Álvares Machado pelo menos duas vezes na semana, dando alento e ouvido a fiéis enfermos, crentes de ocasião, desenganados ou aos apenas necessitados de um pouco de conversa. Uma disposição com os de fora que divergia do tratamento econômico que dedicava aos de dentro de casa, no caso, meu pai e eu, a quem falava apenas o suficiente.
Levávamos então uma vida simples mas sem escassez do essencial. O que escasseava era a voz de meu pai, um quieto cumpridor dos deveres de pai, de filho, de trabalhador. “José, precisa fazer isso”, meu avô dizia e meu pai fazia, “José, você tem que providenciar aquilo” e meu pai providenciava. Até hoje não sei ao certo se era um sinal de respeito, de submissão ou de surda revolta de um filho contra o pai. Já comigo essa parcimônia das palavras não escondia o carinho tímido que me dava, flagrado nos seus gestos um tanto desastrados, nos olhares de canto de olho e no esforço para que não me faltasse nada, fosse uma roupa, uma boneca ou o que fosse.
Mas faltava. Nos dados do CPF, o campo “nome da mãe” preenchido com “mãe desconhecida”. No RG o espaço respectivo em branco, assim como na certidão de nascimento, origem de tudo. Meu pai nunca me falou dela, de onde veio e para onde foi, sequer mencionou um nome. Às minhas perguntas respondia com desconforto e viagens ou mortes inventadas, nas quais eu acreditava cada vez menos, na mesma medida em que percebia que minha curiosidade decretava um silêncio denso em casa. Acostumada com a ideia de família de avô, pai e eu, além do Tio Daniel, irmão mais novo de meu pai, a ausência materna foi me incomodar mesmo quando comecei a frequentar a escola. Aprendi letras, palavras, nomes e sons, mas sobretudo aprendi a lidar com constrangimentos, brincadeiras e provocações vindos desses bichos cruéis que são as crianças. Cheguei mesmo a inventar nomes, rostos e histórias para saciar a indiscrição alheia, mas que acabavam alimentando minhas próprias fantasias e me envenenavam.
Aos quinze anos mudamos para a vizinha Presidente Prudente, estaríamos mais perto do emprego, disse meu pai, embora hoje eu saiba que essa foi apenas a deixa para que fugíssemos da onipresença de meu avô. Nosso ambiente enfim se distendeu: as idas à missa foram rareando, rareando até que nunca mais fui, ouvir minhas músicas no micro system deixou de ser pecado capital e apareceram as primeiras maquiagens. Meu pai, porém, continuou esquivo como um gato. Se não estivesse no trabalho, via tevê, cozinhava ou tentava saber como eu ia na escola, momentos em que o sentia mais próximo. Quando era minha vez de querer saber coisas e esclarecer minhas sombras, ele se refugiava em seu quarto e em frases genéricas, à beira da irritação. Nessas horas nossa casinha se agigantava e demorávamos a nos esbarrar de novo.
Assim foi até 1.999, quando passei no vestibular e fui estudar Química em São Paulo. Foi difícil, tive que me virar, administrar saudade de casa e dos amigos, insegurança e pouco dinheiro que vinha do interior ou de bicos eventuais, mas também foi fácil, agora que não precisava dar maiores explicações, bastava dizer que minha mãe havia falecido e pronto. A distância até Presidente Prudente, que no começo era um problema, virou boa desculpa para raras viagens, sempre agridoces no reencontro dos dissabores antigos. Depois vieram estágio, formatura, emprego… e assim fui ficando em São Paulo. Agora tive que vir: meu pai está morto. Dizia-se bem há duas semanas, quando nos falamos, mas o coração parou de repente. O enterro discreto, poucas pessoas… bem a cara dele. Nesses dias tenho ficado na nossa casinha, organizada e quieta como de costume, e voltei a dormir no meu quarto, onde criei mundos, estudei, explorei corpos e sentimentos, mas que hoje me parece tão pequeno.
Aproveitei também para fazer o que deveria ter feito há anos e fui rever meu avô. Tudo tão familiar e tudo tão estranho. Mesma casa de antigamente, mas com um verde clarinho nas paredes enfim rebocadas e cerâmica bege no chão depois que o Tio Daniel foi lá morar, separado da Tia Nice, faz alguns anos. Cheguei pelo meio da manhã e seu Pedro, corpo vergado pelo tempo, assistia à tevê, ou só olhava para ela como se estivesse diante de um objeto qualquer, não sei. “Bom dia! Como está o senhor?” Senti a mão ossuda e de papel que pousou sobre a minha. “Bom dia. Bem. E a senhora?”. Senhora? Será que meu cabelo curto o deixara confuso? Mudei tanto assim? “Sou eu, vô, a Jussara”. “Ah… está certo. Pensei que fosse a Marta”, respondeu fazendo menção a uma parente falecida há muito. Insisti, indiquei meu lugar na parentada, ele até parecia concordar com um “está certo” mas a informação não era registrada. Estivesse uma pessoa completamente estranha no meu lugar, ainda assim o comportamento dele seria o mesmo. Na verdade, eu era uma completa estranha.
Eu sabia do Alzheimer mas não que o estrago era tamanho. “Por isso não o levei ao enterro, ele nem reconheceria seu pai”, Tio Daniel explicou. Minha esperança era que a doença tivesse derrubado barreiras ou provocado frestas por onde alguma informação de minha mãe pudesse enfim escapar. De novo falei de mim, de meu pai e perguntei sobre “a mulher do José”, mas nada, fosse um nome, uma pista, um porquê. Apenas frases ou perguntas que meu avô repetia a cada três minutos. Tive a sensação de que tentava conversar com alguém que não estava mais lá. Meu avô não estava mais lá e aquilo não era uma conversa. Mas desde quando? A partir de que momento a pessoa deixa de existir? Quando morre, como meu pai? Ou quando ela mesma não sabe mais quem é, quando o passado se apaga, quando pessoas, memórias, e sentimentos acumulados se fundem e desaparecem? E minha mãe, desapareceu também? Será que existiu?
Fiquei até de noitinha. Deixei meu avô naquele presente constante, indiferente à passagem dos dias e ao passado que acumulou. De algum modo nos reaproximamos, ignorantes de origens e memórias.
