por Américo Paim
Ô, rapaz, obrigado por vir! Senta aí. A cerimônia será simples, como lhe disse. O Alberto é aquele ali, de pé, camisa azul, olhando a placa nova na fachada. Deve estar até com uma dor, de tanto orgulho. Ele é um cara respeitado aqui, mas, acredite, não foi sempre assim. Para você que adora ler e escrever, a história dele pode parecer interessante. Vou lhe contar. Vai compensar a viagem até aqui, mas não esqueça que quero sua ajuda no final.
Há muitos anos, ainda menino, a aviação era seu sonho, sua ideia de felicidade, nascida ainda, como me contou, nas brincadeiras de pé no chão, correndo a segurar qualquer coisa como se fosse seu avião. Pilotos e comandantes eram seus destemidos heróis.
Como isso aqui não é conto de fadas, o sapo não virou príncipe. Quem inventou isso de querer é poder não passou pelos testes para a academia. Foram demais para o conhecimento dele. Foi isso, sem romancear. As muitas noites de estudo e os sacrifícios deram em nada. Talvez ele não devesse guardar rancor por tanto tempo, como o fez, só porque a vida não cumpriu o que foi combinado – apenas na cabeça dele, diga-se. Não decolou.
Um dia, o dinheiro acabou. Sem ter para onde ir, mudou-se para essa cidade, onde seu tio e último parente vivo, o acolheu. É muito agradecido ao velho. Foi trabalho em troca de casa e comida. Claro que a padaria não era seu sonho, vá lá, mas ganhou mais tempo para pensar no rumo da vida, mesmo sem render ideia brilhante, segundo ele mesmo. Conheceu pessoas, mas fez poucos amigos. Era mais um comum, sem ambição ou carisma e sabia disso. Ninguém se interessava por ele e vice-versa. Se acomodou, virou vaso de planta, desses de plástico, baratinhos. Vivia enfiado na produção dos pães e era conhecido como o sobrinho do Seu Juvenal da padaria. Nem seu nome falavam. Quando o velho morreu, lhe deixou a padaria, que logo teve que ser vendida para pagar as muitas dívidas do tio, contraídas na jogatina, como depois se soube. A sorte não lhe dava as caras e ele estava quase de volta à estaca zero.
O que houve? Calma.
Se não fosse aquele dia terrível da festa da padroeira, ele talvez ainda estivesse pagando os pecados e ninguém soubesse de sua passagem pelo planeta. Repare só.
Com o pouco que lhe restou, quis ficar uns poucos dias na cidade e não sabe porque resolveu aparecer na festa. Em cinco anos, nunca foi. Já era noite, a praça toda enfeitada, cheia de gente, movimentada. No meio da multidão, ele procurava a esmo por Felícia, morena bonita que trabalhava em um armarinho e que ele já tinha visto em uma de suas visitas à igreja. Tinha uns barracões na praça e em um deles vendiam fogos de artifício. Acredite se quiser, meu caro: tinha dinamite no meio dos fogos e não perceberam. Como terá acontecido? Sem sobreviventes, ninguém nunca soube.
Quando a barraca explodiu, foi um estrondo absurdo. Correria, gritaria, fogo, fumaça, morte. Cenas horrorosas. Sabe o que deu no Alberto? Parece que nosso herói teve um surto naquela noite. Nem ele explica! Correu para dentro da confusão, creia! Não bastasse ajudar no combate ao fogo e a acomodar pessoas em lugar seguro, carregou sozinho quase vinte pessoas feridas, algumas bem graves, para o posto de saúde! A cereja do bolo foi entrar na casa de Dona Dulce, que foi atingida pelas chamas, para resgatar, com sucesso, Aurora, filha dela. Sem treinamento, uma insanidade. Se arriscou muito, como disseram os bombeiros, vindos de cidade vizinha, atrasados por causa de uma queda de barreira na estrada. A pior notícia de todas foi Felícia estar entre os que se foram. O cara só pisava em rastro de cobra. Tudo que lhe restava era ir embora, certo?
Não, o jogo virou.
O ocorrido lhe trouxe destaque e o povo falou por muito tempo. Sua ajuda foi muito requisitada nos dias seguintes. Como a cidade não tinha corpo de bombeiros, ele sugeriu ao prefeito – que concordou – a criação de uma brigada voluntária para combate a pequenos incêndios e apoio a outras situações de risco. Claro que ele foi o comandante! Em outras tantas ocasiões, provou sua coragem e construiu nova imagem na cidade. Virou celebridade, apareceu muito mais.
Entre as pessoas que lhe procuraram à época da tragédia, Dona Dulce. Talvez sentindo-se em dívida por causa do salvamento da filha, o convidou a trabalhar na floricultura dela. Mãe solteira, quase idosa, ela vivia sozinha com Aurora, ainda uma mocinha, sem experiência. Já há algum tempo precisava de alguém para tocar a loja.
O movimento da floricultura aumentou demais, só por ele estar lá, meu caro! Percebendo isso, foi esperto e começou a estudar as flores e saber os gostos das pessoas. As compras para a loja lhe davam prazer! Ele, que nunca na vida tinha pensado em viver disso, ficou feito pinto no lixo. Seus clientes viraram amigos! Olha que coisa! Vinham à loja, compravam as flores preferidas, partilhavam segredos, dores, ideias, amores. Vou lhe dar uns exemplos.
Tem o pobre do Eduardo. Só gosta de amor perfeito, para lembrar da Lúcia, a ex-noiva que foi embora com um engenheiro que fez a obra de recuperação da praça – compra toda quarta-feira, o mesmo dia da fuga dos dois. No aniversário dele, sempre toma todas com Alberto até caírem bêbados, ouvindo a trilha sonora do casal que nunca foi.
A Dona Amélia sempre o convida para um café com sequilhos às terças. Órfã e viúva há tanto tempo, sem filhos, mora sozinha e gosta de enfeitar a casa com flores. A preferida é a begônia cor-de-rosa, que, segundo ela, dura muito como seus amores. O pequeno altar na cômoda do corredor, com as fotos do marido e dos pais, não fica completo sem as flores.
Mariano e Zé de Linda, os irmãos do açougue, sempre querem flores do campo, que levam todo mês ao cemitério. Dizem que a mãe adorava e que lhes recomendou que nunca faltassem em sua sepultura. Ela deixou até dinheiro para isso, creia!
Padre Hipólito vem buscar rosas para pôr aos pés da imagem da santa e Mãe Edna leva flor de laranjeira para o terreiro. Deixam bençãos e orações. O Alberto, religioso, dá lá seu jeito de não cobrar.
Tem também os rapazes da Rua de Cima, que depois do sucesso de uma dica de flores que o Quinzinho levou para a Maria junto com o pedido de namoro, vêm fazendo fila para ouvirem os conselhos de “Seu Alberto”.
E tem sua cliente preferida, a Carminha, que compra flor para colocar no cabelo e diz que está na moda. Ela vem mesmo é colocar ideia na cabeça dele. A cidade toda fala. Ela é bonitona e um dia ainda vai tirar esse zero do placar.
Pois bem, apesar de ter virado o extintor de incêndio oficial, o que ele gosta mesmo é de ser “flower influencer”. Tem uns seis meses que Dona Dulce morreu e a placa é homenagem a ela. A filha Aurora, agora sócia dele, aprovou o nome: “Flores da Dona Dulce”.
Eu não gostei. Chamaria de “Flor-de-fogo”, muito mais apropriado.
Agora, com seu conhecimento de escrita, me ajude. Estou em um curso de ficções breves. Será que dá para me ajudar a elaborar um conto sobre essa história?
