Medonha

por Susy Freitas

Se você realmente quer saber como comecei no mundo do crime, terei que contar que medonho é uma palavra que aprendi com a Dona Liliosa. Nunca fui de muita conversa, então quando ia de patins comprar picolé no bazar dela, ficávamos pelo balcão conversando enquanto as outras crianças brincavam de barra bandeira. Se um moleque era descongelado pelo parceiro e saia correndo capturar a bandeira em tempo recorde, ou se outro gritasse para liderar sua equipe, ela levantaria as sobrancelhas e sussurraria “Mas que menino medonho!” como se contasse um segredo que, se dito em voz alta, traria consequências incalculáveis e irreversíveis.

Enquanto eu comia meu picolé escorada no balcão e esfregava as rodinhas só de um dos patins pra frente e pra trás, tentava imaginar o que medonho queria dizer. A Dona Liliosa não falava como se a palavra fosse algo ruim. Ela nunca falaria medonho, por exemplo, para a história do Seo Antônio e como ele se enforcou em casa, na rua de trás. Ou sobre como o filho dele nunca mais jogou bola com os meninos do bairro depois disso. Ele ouvia o barulho da bola, aquele baque seco de pé e ar, e fechava as janelas. Eu estudei com o Antônio – o filho, não o pai – e pensava muito sobre como deveria ser ter um pai suicida. Medonho não era, disso eu tinha certeza.

Naquela época eu já tomava uns remédios e me saia bem em passar por neurotípica. Claro, sempre tinham umas situações comuns para as outras crianças, mas delicadas para mim, como a hipersensibilidade a sons e cheiros, um ou outro shutdown e tudo o mais. Mas no bazar da Dona Liliosa eu não precisava me concentrar para fazer as coisas como os adultos queriam. Podia atender clientes com a cara encostada no ventilador, falando com a voz filtrada pelo vento como se fosse um robô, separar as balas por cor ou tamanho, enfim, me entregar a quaisquer rituais que me viessem à cabeça.

Ela não dava a mínima. Talvez por já ser meio gagá ou porque os parentes raramente apareciam por ali, a Dona Liliosa não parecia ligar muito para o que era ou não aceitável no meu comportamento. Nunca quebrei nada no bazar, e isso parecia bom o suficiente para ela. Deve ser por isso que ela alimentava algumas das minhas manias, como o mapeamento de gatos da rua.

Começamos com as gatas do Seu Roberto, o cabeleireiro. Ele tinha duas siamesas idênticas, a Safira e a Rubi. Como a Dona Liliosa tinha algum problema na dentadura que a atrapalhava de pronunciar algumas palavras direito, ela as chamava de “as duas Safiras”. Acabei pegando a mania. Todo dia depois da aula, eu ia de patins para o bazar. Comprava um picolé de goiaba e dávamos início à conferência.

“A Safira é a que tem a coleira amarela, o Roberto me garantiu quando veio comprar vela ontem. A Outra Safira veste uma rosa”. Esse definitivamente era um ponto chave da coleta de dados.

“Safira: coleira rosa. Outra Safira: coleira amarela”, li em voz alta, repetindo o que escrevia no caderno. O desenho de um gato encardido, feito com lápis de cor, ganhava uma coleirinha rosa choque, forçada com pincel atômico. Com isso, pude separar duas colunas com as atividades de cada uma nas redondezas. A Safira, por exemplo, limitava-se a subir no muro do salão de beleza por volta das cinco, quando o sol já estava ameno. Ela odiava sol forte. Passava uma meia hora lá, cumprimentando outros gatos que eventualmente passassem por ali. Era tão sociável que poderia ser confundida com um cachorro. Já a Outra Safira preferia as escadas, dedicando a tarde a subir e descer, do salão para a casa de Roberto, que ficava no andar superior. Também tinha um pavor descomunal de borboletas, ao passo que moscas e gafanhotos eram suas opções de caça e tortura favoritas.

A nêmesis da Safira era a Liza Minelli, a gata mais enigmática da rua. A mãe da Liza era uma persa cinzenta, a Leslie, que, nas palavras da Dona Sebastiana, “foi deflorada pelo gato galeroso do Éter”. Éter era o apelido do filho do Seo Evandro, um viciado que vivia de pular os muros dos vizinhos para roubar qualquer quinquilharia que pudesse trocar por droga. Mas como todos já o conheciam, iam direto na serralheria do Seo Evandro, onde o velho mantinha um verdadeiro Achados & Perdidos dos furtos do filho. O gato do Éter, que nós também chamávamos de Éter, não era zoado como o dono. Tinha o pelo preto brilhante, igual ao da Liza, com a diferença de que o dela era longo.

Eu nunca consegui ver a Liza Minelli. Ela só aparecia quando já era noite e eu não podia ficar na rua. Tudo o que eu sabia sobre ela vinha dos relatos de Dona Liliosa. “A Liza Minelli passou por aqui. Veio pelo muro, mas a Safira não encarou a bronca. A Outra Safira até se escondeu quando a viu”. Esse era o tipo de relato que envolvia a bichana preta. Ela tinha uma vida difícil, era negligenciada pelos donos e, apesar de sua beleza, a ausência de carinho a endurecera. “A Liza Minelli deitou no meio da rua ontem, bem na frente da garagem do Seo Otávio. Tu pensa que ela se levantou? Aquela gata é medonha!”. E eu ia anotando tudo no caderno, imaginando-a nas ruas madrugada adentro, conhecendo um mundo sobre o qual eu só ouvia os sussurros através da janela do quarto quando ia dormir.

O motivo da discórdia entre a Safira e a Liza Minelli era o Van Damme. Era um gato branco muito arisco, cujas principais ocupações eram estourar sacos de lixo, subir nas bancas de peixe da Rua Paraguassu sem ser anunciado e emprenhar o máximo de gatas do bairro. Sua fama de bad boy corria o conjunto. Ele também tinha heterocromia, o que lhe dava um charme adicional, juntamente com o fato de que, por mais selvagem que fosse, seus pelos estavam sempre impecavelmente brancos. Por conta de tudo isso, era natural que Safira e Liza disputassem sua atenção. A primeira tinha ampla vantagem, com seu pelo bem tratado e jovialidade amigável.

“Reza a lenda que a Liza Minelli já teve filho com o Van Damme, mas comeu os gatinhos”, murmurava Dona Liliosa. “Quem sabe ela pense em refazer a família. Sozinha a gente faz tudo, minha filha, mas tem horas que a solidão dói”. Ela ficou muito quieta após essas reflexões. Só depois de muito tempo eu fui saber que o marido da Dona Liliosa a abandonou grávida, partindo com outra mulher mais jovem. Humilhada e ressentida, ela fugiu de Lábrea para Manaus e nunca mais voltou.

“Deve ter alguma forma do Van Damme perceber que a Liza Minelli realmente gosta dele”, interrompi. “Que é o jeito dela ser assim, braba”. Uma lágrima muda desceu dos olhos da Dona Liliosa, os vãos das rugas tornando o líquido cada vez mais disforme na pele. Nunca imaginei que alguém pudesse ficar tão triste por causa de uma história de amor felino. Eu precisava fazer alguma coisa pela Dona Liliosa, minha única amiga. Foi por isso que, no dia seguinte, abri o depósito do meu pai e peguei a espingarda de ar comprimido. Por sorte, o Éter não a surrupiou numa de suas incursões em nosso quintal, assim como os chumbinhos que viriam a vitimar a Outra Safira. Quis o acaso que eu confundisse a cor das coleirinhas.

 

Links da autora:

Alerta, Selvagem (Ed. Patuá)

Véu sem voz (Ed. Bartlebee)

Revista Torquato

 

 

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