Olho de sal

Ian Perlungieri

Vou escrever no Word primeiro. Juro que o texto apenas terá um horário distante entre seu início e fim em razão da nadadeira. Eu sei que a intenção não é essa, que eu devia apenas escrever direto na caixa de mensagens e enviar sem cortar o excesso de sinceridade que pode vir a aparecer. Juro que tentarei não editar esse texto, mas preciso escrever no Word primeiro. Apenas preciso. Sempre escrevo as respostas dos e-mails aqui primeiro e me dá alguma ilusão de controle e de rotina. Deus sabe que preciso dessas coisas. E lá vou eu, como sempre. Mancharei o branco imaculado da página com as malditas linhas pretas. Sou culpado como aquelas pessoas que poluem o mar na virada do ano com latas de cerveja, isopor e merda.     Bom, vamos direto ao ponto. Sou um dos responsáveis em responder os e-mails que a Prefeitura recebe. Não sei em quantos somos e não saio de casa, lugar onde nasci, vivo e trabalho. Sou solteiro e aqui somos só nós dois, eu e meu gato, Betta. Compro tudo pela internet, da ração aos brinquedos do Betta, de livros ao cano PVC, no caso de algum vazamento exigir minhas habilidades manuais.     Enfim, tenho um emprego parecido com o seu, imagino. Assim como você, escuto pedidos desesperados e dou respostas mais ou menos padronizadas. “Envie sua solicitação anexando os seguintes documentos”. E dou aquela lista gigantesca apenas para ganhar tempo. “Por favor, encaminhe seu e-mail para x@y.com”. Mas sou eu o verdadeiro responsável pela resolução daquele problema. “Agradecemos o contato. Aguarde nosso retorno”. E nunca mais entro em contato com o destinatário desse tipo de mensagem.     Você é assim também, não é? Aposto que, como eu, você está em casa, usando seu pé para acariciar seu Betta enquanto beberica um suco de caixinha e responde e-mails de gente sem esperança. Eu te entendo. Mas, por aqui, algo mudou. Um e-mail que recebi me informava que a minha irmã do meio havia se suicidado.     Nada que eu não estivesse acostumado. Ela era minha favorita, mas não foi a primeira irmã que cometeu algo do tipo consigo. Acho que ela é a terceira ou a quarta, se não me engano. Respondi um “Meus pêsames, Att” para minha mãe e continuei meu trabalho, mas a surpresa me atingiu logo em seguida como um daqueles raios repentinos que precedem a tempestade.     Meus olhos ardiam e lacrimejavam. Eu não estava triste pela notícia, porém meu corpo parece ter reagido a ela de modo detestável. As lágrimas iniciaram seu percurso pela minha face e impedi seus caminhos usando as costas da minha mão contra minhas bochechas. Esforcei-me na tentativa de fechar os olhos para conter a umidade, no entanto me sentia incapacitado de cerrá-los. Eu não conseguia piscar.     Fui até o espelho e encarei meu reflexo, notando que minhas pálpebras haviam desaparecido. Hesitei em minha conclusão, já que eu encarava uma imagem minha mais ou menos disforme, em razão de uma visão embaçada como quando você tenta abrir os olhos dentro de uma piscina. A piscina existia apenas em minha comparação, mas meus olhos ardiam como se estivessem mergulhados em cloro.     Decidi lavar o rosto e, finalmente, houve o alívio. Não entendi, mas me adaptei. Fiz alguns testes e conclui que agora possuía olhos de peixe. Para manter minha rotina de respostas, acrescentei o hábito de enfiar minha cabeça em uma vasilha de água com sal a cada cinco respostas enviadas. Dessa maneira, o embaçar da minha visão não prejudicava o trabalho. Até aí, tudo bem.     Para quem acredita que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, veio uma nova surpresa algumas semanas depois, quando acordei com uma nadadeira no lugar de um dos braços. A adaptação agora era mais difícil, já que eu precisava dos meus dez dedos para digitar na velocidade em que estava acostumado. Eu sabia que, se não me aperfeiçoasse, correria o risco de ser desligado pela Prefeitura.     Não foi fácil. As frases se formavam mais ou menos sozinhas, mas o uso do Enter exigia demais do meu dedo mínimo, que se afastava dos outros apenas para pular uma linha. Quando tive uma câimbra e fui obrigado a parar o trabalho por algumas horas, passei a escrever tudo em um bloco gigantesco de texto, usando o indicador para o Enter e escrever o “Att” no final. Por uma questão de orgulho, ainda exigia um “Att” em uma linha diferenciada. Para facilitar a leitura em textos grandes, dava um espaçamento maior entre os parágrafos inexistentes. Ninguém da Prefeitura reclamou a respeito ainda, então acredito que eu esteja sendo bem-sucedido. Pelo menos, por enquanto.     Achei que meus problemas haviam terminado, mas depois de algumas semanas meus beiços incharam, pressionando as extremidades contra o meio dos meus lábios, como se eu aguardasse por um beijo que nunca é saciado. Pior, não consigo mais falar e Betta tem me mordido mais do que de costume. Claro, isso não atrapalhou o meu trabalho para a Prefeitura de modo direto, mas a falta de comunicação com Betta me abalou o suficiente para reduzir o número de respostas enviadas em um dia. Ele era meu amigo e nossa relação fraternal parece ter evaporado, dando lugar a alguma outra. Não quero ser desligado da Prefeitura, mas gostaria de lhe pedir a dispensa. Afinal, acredito ter cumprido minhas metas de maneira eficiente durante todos esses anos.     Reli o texto e, conforme prometi, não farei as devidas alterações. Portanto, peço que ignore alguns pontos. Quando eu disse “juro que tentarei”, não é um juramento. Eu, de fato, não fiz alteração alguma. Se não, teria cortado essa parte em vez de explicar a expressão equivocada que utilizei. Ademais, nunca fui à praia, portanto eu não deveria ter feito a comparação da página em branco com o mar em final de ano. Mais uma decisão equivocada.     Ainda noto o excesso de palavras que se iniciam em caixa alta, como betta e att. Acredito que tenha sido uma correção automática do word e peço que as desconsidere. Sei, em nome de deus, que apenas o início das frases e a Prefeitura devem possuir uma primeira letra com maior altura, representando a sua grandiosidade e magnificência.     Temo que alguns trechos também podem ser tratados com ambiguidade, como a parte em que escrevo “nasci, vivo e trabalho”, o que pode suscitar em uma comparação inconsciente com a popular sequência “nascer, viver e morrer” como se comparasse o trabalho com a morte. Isso seria uma interpretação errada, já que amo o trabalho que executei durante, praticamente, toda a minha vida. Ou, ainda, quando listo as obrigações de meu trabalho. Realizando uma segunda leitura, acredito que possa correr o risco de que descrevi minhas atividades com ironia, o que não é o caso.     Ainda noto que usei livros como exemplos de compras, mas juro que apenas uso os Kafkas para que meus joelhos não encostem no chão durante o conserto dos vazamentos. Se possível, peço que desconsidere todo o texto anterior e considere apenas o que vem a seguir.     Virando um peixe. Solicito dispensa.

Att.

Links:
Livro Eu Nunca tinha Passado por Aqui
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