por Bruno Vicentini
Eu entro na portaria às sete nos dias em que trabalho, isso porque a jornada é de doze por trinta e seis, então eu tenho dias intercalados de folga, quer dizer, nem sempre é assim, porque quando pinta algum bico eu também faço, pra tirar um extra. É a vida. Alguém que vê o mundo com os meus olhos, caso pudesse optar, provavelmente não escolheria ser porteira de clube, ainda mais de um clube assim como esse, tão decadente. Mas eu preciso trabalhar. Não posso ficar escolhendo serviço, tive que agarrar a oportunidade quando ela apareceu. Depois eu fui me virando, pegando o jeito. Acabou que eu desenvolvi artimanhas, macetes, quase um método mesmo. Nem sempre consigo explicar como faço o que eu faço. Mas funciona.
Hoje é terça-feira. São nove horas e chegam dois garotos, forjando comigo uma intimidade que não têm. “Aê, Sandrinha! Libera aí… a catraca!” Um é loiro e o outro, moreno. Eu deduzo, pelo atrevimento presente na voz do garoto que gritou e pela mochila que o outro usa num ombro só, que são os dois meninos que moram na rua de baixo e por isso chegam caminhando, para a aula de natação. Um deles é neto do pioneiro que fundou o clube. Melhor abrir logo a catraca.
A maioria dos sócios sequer sabe da minha desordem mental. E é melhor que isso continue assim. Esse povo rico só faz reclamar, reclama de tudo, tenho certeza que eles iam fazer a minha caveira. Como é possível que a responsável pela portaria tenha cegueira de feições? Bom, eu mesma não sei, só sei que nessa de não saber eu já estou aqui há nove anos. É claro que no princípio houve algumas cenas de constrangimento. Episódios difíceis de explicar sem que eu precisasse contar a verdade. Foi a certeza da demissão que fez com que eu mantivesse o meu segredo. E funcionou, tem funcionado, com o tempo minha técnica foi ficando apurada, a ponto de eu conseguir decifrar em segundos quem vem chegando, na grande maioria das vezes. Quando não consigo, disfarço. Mas quando tenho certeza, gosto até de abusar um pouco, chamando as pessoas pelo nome. É a minha vingança pessoal contra o meu transtorno. Boa tarde, Seu Leandro. Bom dia, Dona Júlia. Seu filho tá na lanchonete, esperando o senhor. A senhora precisa passar na tesouraria, pra acertar a mensalidade. Jonas, some daqui, seu pentelho! Me deixa fazer meu trabalho.
Quase todos os sócios chegam de carro, o que facilita muito a minha vida. Eu aprendi logo a decorar – marcas, modelos, cores. Placas de carro são como crachás de identificação, carteirinhas que eu não preciso pedir pra olhar. E como rico não empresta carro pra ninguém, a chance de algum estranho entrar no clube dirigindo o carro de um sócio é remota, improvável. Então eu não hesito em abrir a cancela e, se o motorista entra com o vidro abaixado, eu até cumprimento, me vingo mais um pouco da minha cegueira tão particular. Nunca deu problema. Pelo menos não que eu saiba.
Já são onze horas. O tempo passa rápido na portaria, ao contrário do que as pessoas pensam. Agora o movimento começa a diminuir e só vai aumentar de novo perto das duas da tarde. Se fosse fim de semana seria diferente; os horários e as rotinas mudam por completo. Vem chegando um senhor grisalho, com uma pasta de couro na mão, fedendo a água de colônia verde. Seu Raul. Vai começar a beber agora, no bar da piscina, e vai beber até sabe lá que horas. Quando ele vai embora eu nunca estou mais aqui, nunca vi ele saindo.
Meu almoço eu trago de casa. Além de ser mais barato, seria arriscado sair da minha guarita, de onde eu aprendi a ler o mundo do clube. Dentro do refeitório, por exemplo, eu não saberia dizer qual funcionário senta em qual mesa, ou qual marmita é de quem, e, por isso, estaria logo cercada por estranhos. As pessoas, fora das rotinas e dos horários que eu conheço, viram incógnitas.
São três horas. A piscina do clube ferve de crianças. Algumas mães e pais na beirada, de olho nas menores. Mas fora isso, o resto do clube é meio morto, como um brinquedo que os adultos já tivessem descoberto que não tem tanta graça. Eu passo as manhãs e as tardes fazendo palavras-cruzadas. Dentro, um caderninho escondido, onde anoto características dos novos sócios, aqueles que eu ainda não consigo identificar de imediato. Por serem novos, não consolidaram ainda uma rotina, o que dificulta muito as coisas para mim. Por outro lado, também por serem novos, não pega mal eu pedir pra olhar a carteirinha. Assim posso anotar no caderninho que o novo casal de sócios é composto por Julio, um rapaz que tem uma perna mecânica, uma característica fácil de decorar, e por Fabrícia, que tem mau hálito, o que é impossível de esquecer.
Já são quase seis horas, vou largar em breve. No ponto, cumprimento qualquer pessoa que olhe para mim por um segundo a mais. Já dentro do ônibus, onde a chance de gafe é zero, não converso com ninguém. Os sócios do clube jamais entraram num ônibus, não sabem nem fazer o motorista parar. Lembro agora da minha maior gafe, ainda no meu primeiro ano, quando eu barrei na portaria um senhor que eu não tinha conseguido decifrar muito bem quem era e pedi pra ele mostrar a carteirinha. Era o presidente do clube, que no dia tinha chegado de táxi. Pra piorar, minha entrevista de admissão tinha sido com ele. Por pouco a demissão também não foi. Vejo que o sol já está baixando, as crianças vão saindo, cabelos molhados. Deixo elas pensarem que a minha vista, meio perdida, é só culpa do cansaço do longo dia.
***
Eu não entendo muito bem como fui parar dentro da sauna do fundo, a mais afastada. O investigador desconfia de mim, não entende como eu não consigo identificar nenhum dos homens, eram pelo menos cinco. Nus, todos eles. Todos brancos, todos meio gordos, nenhum traço distintivo. E para sempre pregado no meu nariz aquele cheiro, um cheiro que pode ser de água de colônia verde, mas pode ser só o eucalipto.
