Silvia Argenta
Dona Celeste, a Tati não largava o celular para nada. Acordava e logo acessava o twitter para saber o que aconteceu durante a noite. No caminho para o banheiro, tirava a remela para enxergar melhor. Em pouco tempo já sabia quais eram os assuntos do dia e começava a planejar as atividades de sua equipe de trabalho. Explorava as mídias sociais com a ajuda de cinco colegas. Eles nem olhavam direito para a comida. No café, almoço e janta discutiam as estratégias para chamar a atenção para algum produto ou ideia que precisavam vender e então acionavam os disparadores de mensagens.
O negócio estava prosperando a custo de muitas dores nos pulsos e nas costas. De uns tempos pra cá, Tati também tinha notado que os olhos já não davam conta das letras miúdas. Quando se sentia exausta, dizia que vinha à mente a voz maternal da senhora mandando ela deixar o celular de lado. Mesmo assim, não se rendia. Sempre era possível trabalhar mais um pouco. Nem ao se deitar dava descanso para a cabeça. Ficava horas e horas rolando a tela. Lia mais e mais e mais. Andava tão obstinada que acabou dormindo com o aparelho nas mãos.
No outro dia, acordou, procurou o celular e o encontrou embaixo do travesseiro. Ao ligá-lo, ela sentiu um desconforto e ficou um pouco tonta. Abriu os olhos novamente e não reconheceu o local onde estava, apesar de familiar. Tirou a remela, viu algo passando muito rápido na sua frente e escutou o barulho de um estalo. Na verdade, o som parecia de uma metralhadora. Se jogou no chão e sentiu algo batendo no ombro. O impacto foi tão forte que fez com que ela virasse para o lado. As pernas também foram atingidas.
Deitada, procurou algum lugar para se esconder e enxergou seus colegas, posicionados atrás de uma barreira de proteção. Enquanto corria em direção a eles, percebeu que havia várias letras soltas pelo ar. Quando enfim os encontrou, se deu conta de que o abrigo era formado por palavras. E que as mais resistentes eram as que vinham depois de uma hashtag. Conseguiu identificar que os tiros não eram de balas de revólver, mas de letras, palavras, frases e até mensagens inteiras com cento e quarenta caracteres. Diz ela, dona Celeste, que foi sugada pelo celular.
Os disparos não paravam. Por sorte, foi atingida pelas letras “i”, as mais leves, e não se machucou. Logo entendeu que se alguém fosse atacado por um tweet inteiro era capaz de morrer. Percebeu que a letra “l”, dependendo da fonte, não servia de abrigo porque o quadril dela ficava exposto. Hélio, seu colega de um metro e oitenta, estava deitado atrás do “paralelepípedo” porque não encontrou outra palavra que pudesse protegê-lo. Ela contou que ficou curiosa para saber por que alguém tweeta algo sobre uma pedra. Mas logo pensou que podia aparecer uma publicação com “comorbidades” e ele conseguiria trocar de refúgio para ficar mais longe dos tiros.
De noite, a situação se acalmava. Com disparos esporádicos, conseguiam dormir um pouco. No dia seguinte, novas pessoas apareceram, e Tati dava as orientações de proteção, como se manter agachados ou deitados. As letras maiúsculas eram as melhores para servir de escudo. Quando buscava refúgio em alguma palavra e já tinha alguém ali, era preciso trocar de trincheira. Pensar rápido era crucial. Se estava cansada, usava o “g” para enterrar a cabeça e não ouvir os tiros. Com o tempo, mais pessoas surgiam do nada no meio dos disparos.
Ao contrário do que fazia com as táticas ofensivas de sua empresa, o tempo todo era dedicado a se defender. Nos períodos com muito bombardeio, eles conseguiam se organizar para se proteger atrás de mensagens inteiras. Em alguns dias, as frases rareavam e ficavam apenas palavras soltas para servir de abrigo; em outros, só letras mesmo, sem sentido algum. De vez em quando, até recebiam a visita de um pássaro azul.
Aos poucos, foram se formando grupos com interesses dos mais diversos. Acreditavam que, mesmo se defendendo, podiam melhorar suas condições de vida virtual. A turma amante do bom português achava que palavra com grafia errada deveria ter morte instantânea e que se poderia adotar tuíter e rechitegue. Outros se juntaram para pedir o aumento do número de caracteres dos tweets. Haveria mais risco de vítimas fatais atingidas pelos disparos das mensagens, mas também teriam mais possibilidade de se proteger.
Cheios de ideias e opiniões, não sabiam a quem pedir as melhorias. Começaram as discussões e os casos de mortes. A primeira baixa foi de um homem atingido na cabeça pela hashtag #STFVAGABUNDOS. A caixa alta é usada pelos reacionários, tendo mais chance de abatimento. Muitos ficaram com ferimentos graves, capturaram a #CLOROQUINAPARATODOS, tomaram e depois morreram.
Também vieram os óbitos por #OMSCOMUNISTA, #BRASILACIMADETUDO e #FECHADOSCOMBOLSONARO. Em pouco tempo, contaram cinquenta mil óbitos. Ninguém sabia o que colocar nos atestados, se a morte era por disparo robótico, homicídio ou comorbidades. Tati acabou abatida pela #MOROVEMAÍ.
Essa foi a história que ela me contou quando reapareceu depois de dias sem que ninguém soubesse do paradeiro dela e dos colegas. Quando encontrei o celular na cama dela, dona Celeste, percebi que tinha algo errado. Agora, ela conta que virou ativista de hashtag e está obcecada em criar um novo sentido para o símbolo no twitter. Posicionada no início e no final do texto, quer popularizar a hashtag do xilindró. Vai fazer de tudo para #queirozcontapranós# entrar ainda hoje nos trending topics.
