Ele, Ela e o galão

Ian Perlungieri

Uma mesa familiar. Daquelas de madeira rústica que você encontra na casa da sua avó, mas, que antes, pertencia ao seu bisavô. Dedos com unhas curtas dançam sobre o mogno avermelhado. Ela, uma freira de quarenta anos, suspira, puxa a manga e encara o relógio de pulso, que marca dez e trinta e dois. O couro aperta seu punho, mas Ela o massageia enquanto bufa e encara o galão de água no outro canto da sala. Entre Ela e o galão, a mesa, duas cadeiras estofadas e um tapete antigo como a mesa, daqueles com as pontas levantadas após os frequentes passos tortos que o esmagaram por anos. Ela abandona o punho e passa a pressionar os dedos nas têmporas, numa tentativa ineficaz de conter os gritos das crianças que se espalham por todo o ambiente. De um lado, Ela inspira. Do outro, o galão expira.

Ele chega. Com o coração acelerado, entra na sala, mas a alça de sua pasta fica presa no batente sem portas. Ele retorna para soltar o couro enquanto Ela, com um olhar inquisidor, o encara. Ele entra em seguida. Desculpa o atraso. Tem um copo de água? E mergulha no estofado da cadeira.

Ela aponta para o galão de água, sem tirar os olhos dele. Ele deve ter uns vinte e poucos anos. É jovem demais, transpira como um porco e está atrasado.

“São dez e trinta e quatro”, Ela diz.

Ele faz que sim com a cabeça e ergue seu corpo, dando uma inspirada profunda e um sorriso sem-graça em seu percurso até a bebida. Dá um leve tropeção esmagando ainda mais a ponta levantada do tapete. O ônibus atrasou. E muda de assunto. Bem que o Senhor podia estar aqui para isso aqui virar vinho, né? Ela não ri.

No entanto, a ausência de um sorriso não abala sua determinação. Afinal, precisava de um emprego antes que não pudesse mais tomar um banho quente, ou pela ausência de luz, ou pela ausência de água. Logo, transpirava. Em razão da correria e da necessidade de conquistar o posto como docente. O problema era que Ele também transpirava por conta de sua outra necessidade. Afinal, possuía uma tara inexplicável por freiras. Talvez por ter estudado em colégio católico? Mas não. Não era pelas freiras que Ele estava ali. Ele estava ali para ensinar, e não para jogar Ela sobre a mesa e montar naquele corpo maravilhoso vinte anos mais velho do que Ele. Ele estava ali para ensinar, e não para beijar as suas sardas e insistir para que Ela mantivesse o véu, de onde alguns fios ruivos teimavam em escapar. Ele estava ali para ensinar, e não para arrancar o terço do pescoço dela com os dentes enquanto Ela arranha suas costas. Eu estou aqui para ensinar.

“Sente-se, por favor”, Ela diz.

Ele tropeça novamente na ponta levantada do tapete. Já tomou um copo de água, mas leva o segundo copo até a mesa em que Ela aguarda do outro lado. Ela diz:

“Vamos terminar onze e meia. Seu atraso não será levado em consideração e você terá menos tempo do que os seus concorrentes.”

Não preciso de muito tempo. Meu currículo. Tira um papel impresso da pasta e entrega para Ela, que o coloca em um canto da mesa sem lhe dar atenção.

“Prefiro que você fale comigo. Tem alguma experiência?”, Ela pergunta.

É minha primeira vez. Ele coça o rosto e bebe a água. Digo, tirando o estágio. Os dedos dela dançam mais uma vez. A unha em contato com o mogno faz um som abafado pelos berros infantis, mas Ele escuta mesmo assim.

“O senhor está familiarizado com nossos métodos?”, Ela questiona.

Ele toma mais água. Mais ou menos. Posso pegar mais? Ela faz que sim com a cabeça, Ele tropeça outra vez e Ela continua:

“Ainda não queremos saber nada sobre o senhor. Apenas a maneira como você conduz.”

Conduzo? Volta ao seu lugar. Ela não tira os olhos dele e Ele não tira os olhos dela, mas suas motivações são diferentes.

“É. A sua aula.”, Ela responde.

E prossegue.

“Temos dois temas e o senhor terá que discorrer a respeito de um deles.”

Entendi. Eu posso escolher o jeito que eu quiser, então? Bebe mais água. O copo sacode levemente na mão dele. Ela diz:

“Sim. Entre os temas, o senhor pode escolher o que quiser. Os temas que selecionamos são o evolucionismo e o sistema reprodutivo.”

O sistema reprodutivo? A água balança dentro do copo e respinga no tapete. Ela percebe.

“É esse que o senhor quer?”, Ela pergunta.

Ele pigarreia e solta o copo sobre a mesa. Não, ainda não decidi. Os temas só me pegaram de surpresa. Ele inspira enquanto o galão expira. Ela justifica:

“O objetivo é justamente entender como o senhor ensinaria esses temas em um colégio como o nosso. Isso é um teste, o senhor sabe.”

E que teste. As costas dela vão de encontro às costas da cadeira e Ela cruza os braços, o que faz seus seios inflarem sob o hábito. Vou de sistema reprodutor.

“Estou aguardando”, Ela diz.

Vou levantar, tudo bem? E levanta. O estofado da cadeira abandona a marca da bunda dele aos poucos enquanto Ele usa os pés para desvirar a ponta erguida do tapete, sem sucesso. Ela dá um leve sorriso e diz:

“O senhor fique à vontade.”

Ele pigarreia enquanto crianças correm pelo corredor atrás do espaço em que deveria haver uma porta. Barulho de mochilas de rodinha sendo arrastadas se misturam com o pigarro dele. Para Ela, Ele é jovem demais e vai chamar atenção das alunas do ensino médio pelos motivos errados. Talvez chame atenção de alguns alunos também. E Ele é homem, ainda. Homens não são discretos. O sistema reprodutor. Pigarreia. Toma mais um gole da água e pisa de novo no tapete na tentativa de manter sua ponta abaixada. Fica em cima dela. Desculpa. O sistema reprodutor. Mais barulho de rodinhas. O sistema reprodutor é um sistema do corpo humano que garante a reprodução. Os dedos dela brincam com duas bolas, ou seja, duas das contas maiores do crucifixo que está em seu pescoço. Ele é formado por órgãos internos e externos e o sistema reprodutor masculino é diferente do sistema reprodutor feminino. E Ele fala. E Ela escuta. E o galão expira.

“Me fale mais sobre os testículos”, Ela diz.

E continua.

“E rápido, porque já são onze e vinte e sete.”

O barulho das crianças já diminui o bastante para tornar aquela entrevista quase silenciosa, como se Ele e Ela estivessem dentro de uma igreja vazia. Como assim testículos? Ele termina seu quarto copo de água. A ponta do tapete continua de pé. Ela justifica:

“Eu dei aula de Sociologia. Eu sei que os alunos gostam de provocar.”

Ele prende a respiração. Espera… você deu aula de Sociologia nessa escola? A confusão invade o rosto dela. Ela prende a respiração. Você estudou aqui, não foi? Foi você que na terceira série… e Ela para de falar. O olhar dela encontra o olhar dele e ambos enrubescem. Ela encara o galão e Ele encara a própria pasta, agora em seu colo. Vermelhos como o mogno, mantêm o silêncio. O relógio dela marca onze e trinta e quatro. Os dedos dele dançam sobre o couro. Ele puxa a manga para seus pelos respirarem. Além deles, há na sala uma mesa com um cheiro forte de madeira selvagem, um tapete cuja ponta está mais em pé do que nunca e um galão que suspira. Eles finalmente trocam um olhar. Um olhar fugaz. Um olhar familiar.

Links:
Livro Eu Nunca tinha Passado por Aqui
Curta Ao Som da Chuva

Currículo Ian Perlungieri

Deixe um comentário