A infancia perdida

O leitor da feirinha

Helô Mello

Paulo era um solteiro convicto. Viveu com a mãe até o ano passado, quando ela dormiu e não acordou. A casa, onde moravam juntos, se manteve. Só aumentou a poeira e as caixas que pareciam brotar do piso. Armazenava LP’s, fotos antigas de família em má conservação, cartões postais, slides e seus projetores que nunca testou. Graças a um acerto com os garis do bairro, comprava as quinquilharias que separavam nos lixos.  

Ler as imagens ou as cartas, para ele era o mesmo que ler um livro. Por isso, se dizia um grande leitor. Nas estantes encontrava-se de tudo, como um binoculo caolho, uma boneca sem braço, xicaras lascadas. Não havia critério ou ordem. Só carecia de livros.  

Se dedicava a escavar histórias que chegavam até ele para serem desvendadas. Passava tardes olhando fotos amassadas, e imaginava a vida dos outros. Inventava nomes, traições, amores impossíveis. Traçava tramas. Uma vez teve certeza que descobriu um caso secreto entre dois casais de amigos a partir das entrelinhas de cartas que espalhou pela mesa mal iluminada. Para ele era visível o sorriso amarelo da esposa traída ao lado de seu marido. 

Desde pequeno, achava que poderia ter sido um bom detetive. Quando tinha sorte, os garis, agora já seus amigos, traziam as sobras de uma venda de “família muda-se”. Gastava dias investigando pistas. Acompanhava a as crianças em branco e preto que brincavam nos jardins coladas em algum caderno, ou meninos comportados e penteados, sentados na mesa do almoço, em uma foto esquecida na caixa de sapato. O que teria acontecido com eles depois de adultos? Será que encontraria algum pela rua ou na feira de antiguidades? Poderia reconhecer? Com o tempo elegia personagens como parte da sua família. Ao adotar as imagens, adotava suas histórias. Arrancava da sua memória uma cena, um episódio. Se descobriu presente no dia do batizado dos gêmeos grudados no álbum com rendinha encardida na capa. Criou a cena da viagem que fez com uma tia mais velha pelas montanhas de Campos do Jordão quando mal andava. Estava no carrinho de bebê, no canto da foto.

Seu mundo eram histórias inventadas. Passava dias em casa sozinho. Conversava, criava intrigas, desfazia casamentos e construía casos de amor dentro das caixas. Era tão difícil se separar desse mundo como foi se despedir de sua mãe. 

Por isso, em sua barraca na feira do Bexiga, era criterioso. A maioria das caixas deixava embaixo da mesa. Expunha poucas. Escolhia os clientes. Os feirantes brincavam que ele gostava de levar sua coleção para passear. No domingo passado a garoa fina escorria pelo toldo. Cuidou para não deixar os furos no teto danificarem sua mercadoria.  Foi obrigado a expor tudo, já que o chão estava molhado e o papelão iria encharcar. Reparou no homem indo embora. Andava devagar sem desviar das poças. Tinha uma cara familiar. Como tivesse escutado seus pensamentos, ele se virou. Atravessou a rua, e a chuva apertou. Veio na sua direção.  Nem se olharam. Não cumprimentou. Mudo, sem pedir “posso dar uma olhada”, foi direto para aquele álbum esgarçado, quase sem cor no fundo da caixa. Começou a folhear. As folhas de papel de seda amareladas separavam as páginas. Paulo não planejava expor, bem esse! A história daquela família estava por descobrir. Supôs que o pai abandonou a família. A mãe mal se vê. Devia estar ocupada. Se concentrou na história do filho, na casa de longas sombras e pouca luz, afundado na poltrona, outras vezes sentado no chão. Seu olhar indireto conversa com a avó perdida no seu tempo.  A cada página o visitante parecia rememorar um episodio de olhos castanhos. Paulo tenso. Se despindo. Desapareceu a avó, a camisa de domingo, a calça curta, os sapatos de amarrar. Sem largar o álbum, o visitante pergunta: “Quanto é”? E Paulo perde a infância. Perde o chão. 

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