Silvia Argenta
A mesa de jantar é grande. Já apareceu em dezenas de fotos de colunas sociais que enaltecem as recepções da família Albuquerque. Há anos, o móvel de jacarandá serve de apoio para que os convidados, sentados nas cadeiras com encosto alto e estofamento de veludo vermelho, saboreiem as comidas sofisticadas e discutam sobre negócios. No sábado, normalmente um dia movimentado na casa, apenas dois dos dezesseis lugares estão ocupados.
A bagunça está por tudo. Papéis e lápis de cor de todas as tonalidades estão espalhados em cima da mesa. Os rabiscos são de bonecos, com o corpo estruturado por linhas retas e o rosto circular. Para poder desenhar, Juliana fica de joelhos na cadeira e se apoia em cima do papel. Não entendo por que essa menina não se senta direito. A cada pedido para que desenhe melhor, joga tudo no chão. Maria junta os papéis e os lápis e os coloca de volta na mesa para que a filha continue a rabiscar.
Não sei mais o que fazer com a Ju. Ela está em choque e não quer falar, mas pelos desenhos ela pode se comunicar. Da porta da sala, Alexandre observa a filha riscar o papel compulsivamente e pensa que ela só está brincando, como toda criança da idade dela. Maria se angustia com os bonecos feios. Antes, os desenhos dela eram tão coloridos, com bichinhos e árvores, às vezes até laguinhos. O investimento nas aulas de pintura e desenho foi grande. A decepção também é grande. Parece que regrediu tanto…
A garota tem apenas oito anos e logo deve se recuperar do trauma. Mas o tempo corre e é preciso de uma resposta rápida. Não posso esperar muito. Nas primeiras trinta folhas, Ju desenhou bonecos sem rosto. Tem um monte de lápis de cor na mesa e ela só usou a lapiseira. Na segunda leva, começou a desenhar a boca rosa. Agora, todos os bonecos têm os olhos azuis. Alexandre liga para o delegado para saber como anda a investigação. Tudo foi muito rápido. Ela não viu nada. O quarto estava escuro.
Desde o crime na noite anterior, o caso tem sido mantido sob sigilo. Para evitar especulações da imprensa, o delegado foi até a mansão para tentar buscar provas e lá mesmo tomar o depoimento dos proprietários e funcionários. O circuito interno de câmeras foi desligado cinco minutos antes da ação criminosa. Nenhum dos seguranças notou movimentação estranha e quando perceberam que havia falha na transmissão das imagens chamaram a equipe técnica para resolver o problema. Nada foi gravado. Os cabos das câmeras foram cortados dentro da casa. Não entendo como isso pode ter acontecido, já que ninguém saiu pelo portão da frente. Quanta lenga-lenga desse delegado. Quero uma resposta logo e meus filhos de volta já!
Ju nada falou. Só agarrou uma boneca e caiu no choro. O delegado mostrou fotos de alguns suspeitos, mas ela não reconheceu ninguém. Devia estar dormindo. A insistência com as perguntas não vai dar em nada. Ele quer fazer um retrato falado para divulgar na imprensa. Jamais! Como a caçula não fala, Maria toma a iniciativa de incentivá-la a escrever algo. Com a lapiseira na mão, Ju começa a desenhar. Depois da boca rosa e dos olhos azuis, os bonecos também têm correntes douradas com pingente de cruz.
Vendo os desenhos, a mãe desconfia de um funcionário de olhos claros. Quero que interroguem o jardineiro. As mãos calejadas de Jurandir tremem. Ele mal consegue responder as perguntas do delegado, que insiste em repetir os mesmos questionamentos. O trabalho é sua única fonte de renda e não pode vacilar nas respostas. Não estava na mansão na hora do crime. Ontem à noite ele foi para o hospital visitar sua filha que tinha acabado de parir. O jardineiro é descartado como suspeito.
Ju já estava acabando com a resma de papel, quando o telefone da casa toca. É um pedido de resgate de Renata, a irmã com quem Ju dividia o quarto. A voz metálica do outro lado da linha informa que os cinquenta milhões de reais devem ser depositados numa conta fora do país em duas horas. O recado é tão rápido que os policiais não conseguem rastrear a ligação. Não entendo por que só pediram resgate da Re e não falaram nada do Leo. O celular dele está na casa e não tem como saber para onde ele foi levado. Alexandre decide transferir o dinheiro imediatamente. Tomara que os dois estejam juntos.
A menina escuta a conversa dos pais e volta a desenhar. Além da boca rosa, dos olhos azuis e da corrente, esboça os cabelos loiros enrolados. Maria está convencida de que a filha desenha o criminoso. Alexandre não entende do mundo feminino. Ela tenta buscar alguma pista na montoeira de papel. Analisa cada folha para se certificar de que nenhum detalhe passou batido. Pensa nos funcionários e professores da escola da menina, nos frequentadores do clube, nos amigos da família. Nada.
Ao passar pela sala, o delegado vê o desenho e pega uma foto de cima do aparador. Ele pergunta se o menino loiro da foto é seu irmão. Ela balança a cabeça para cima e para baixo. Depois, questiona se o menino loiro do desenho é seu irmão. Ela novamente chacoalha a cabeça confirmando. Minha filha não pode estar insinuando que o Leo sequestrou a Re. Ju, enfim, volta a falar. Foi ele!
O choro é inevitável. Os pais, perplexos, não acreditam na caçula. Ela deve estar confusa. Mas não. Ju gosta de tudo colorido. De noite, mesmo no escuro, conseguiu ver os olhos de mar do mano. A cor havia atraído a pequena. Em pouco tempo, os policiais descobrem um sótão fechado numa das casas ao fundo do terreno da mansão. A operação envolve vinte policiais e cachorros farejadores. Abrem a porta sem dificuldade e encontram os dois adolescentes escondidos. Sãos e salvos.
Eles se reúnem na sala de jantar. A mesa continua firme. A família nem tanto. O jacarandá veio lá do interior da Bahia. A árvore era tão grande que o móvel foi feito sem nenhum corte. Só foi talhado. Os pais não se conformam com a atitude dos filhos, que confessam que queriam sair de casa, mas sem perder as mordomias. Enquanto discutem, uma reportagem na televisão conta a inacreditável história de sequestro na família Albuquerque, dona da maior rede de vigilância do país.
