Minto que minto

por Américo Paim

A sala ampla, pintura em tons de marrom e iluminação fria, era dominada por um balcão em cor neutra com acesso pelas duas laterais, onde Jandira Santos, a jovem atendente, recebia as pessoas com sorriso treinado. “Fernandes e Novaes Associados”: a brilhante e cuidada logomarca em metal, bem centralizada, incrustada no mesmo balcão, refletia a imagem do sofá vermelho à sua frente. Na parede acima da mesa cara, ao lado do sofá, um Malevich era destaque. A mesa de centro destoava com publicações inúteis. O aroma enjoativo de jasmim fechava o insosso cenário onde ele, aparência mais jovem que a idade, cabelo recém-cortado, camisa escura sob o terno de mesmo tom, desconfortável com a escolha de gravata vistosa, transmitia alguma hesitação, algo proposital.

André Ribeiro estava ali para uma conversa com o Célio Fernandes, diretor. Chegou bem mais cedo. Nem notou Jandira sempre falar ao telefone olhando para ele.

“Dona Jandira, se chegar alguém para falar comigo, estou aqui no café da copa”, apareceu no início do corredor um homem baixo, jovial, de pernas curtas, camisa clara dobrada no antebraço.

Vou aproveitar essa chance. Quem sabe não é útil? Ainda tenho tempo. Acho que esse cara pode me dar boas informações. “Com licença”, falou para ela e seguiu o homem.

Na copa, simples, limpa e sem graça, os cheiros de resto de café e comida esquentada enchiam o lugar.

“Olá, que tal o café daqui?”, falou ele, estendendo a mão e apresentando-se. Disse-lhe estar ali para uma entrevista com o diretor para uma vaga de comprador.

“Prazer, André, Joel Virgílio, seu criado. Trabalho ali na Contabilidade”, apontou. “Essa sua entrevista deve ser para a vaga do Carneirinho. Pedro Carneiro, o que foi transferido”, comentou desinteressado. Hum, tem cara que gosta de uma conversa mole. Com esse peito de pombo aí, é batata.

“Estou nervoso. Um café vai bem”, desconversou, manobrando a máquina, a observar o Joel. Esse sujeito parece estressado. “Essas máquinas são um porre, não é?”, puxou papo.

“A empresa devia liberar as cafeteiras, em vez desse trambolho aí. Aqui é tudo assim, você vai ver logo”, falou sem pensar se o ouviam. “Tudo é liberado para as chefias. Para nós, é pão com pão. Nas salas dos “home”, com certeza tem cafeteira”, completou, com risada maliciosa.

“É, o café tá mais ou menos”, disse com cara de nojo, abandonando o copo plástico. “Trabalha aqui há muito tempo, Joel?”, lhe falou com interesse.

“Tempo até demais. Isso aqui não dá muito futuro, já lhe adianto. Se tem experiência, vai ver logo. Aqui só cresce peixe e parede tem ouvido”, falou em tom de voz mais discreto, quase em sussurro. Vou encher o juízo desse cara. “Você fale só o necessário. Sabe aquele aviso de cabine de motorista de ônibus? Nem se esforce muito – faça logo as amizades certas e vai se dar bem”, acrescentou. “Pode até ser produtivo, trabalhador, mas, no fim não vai dar em nada. Alguém vai montar em você e se dar bem. Comigo foi assim”, desabafou, de novo falando alto. Quero só ver o que ele vai falar agora.

“É mesmo? Li na Internet que a empresa tem boas perspectivas de crescimento”, provocou. Se eu apertar, ele entrega mais coisa. Bem que esse cara podia falar mais baixo.

“Opa, claro que sim. Crescimento dos lucros. Olhe, aqui não tem participação de resultados, essas coisas de empresa moderna. É pau, viola. Trabalhe muito, cumpra suas metas e será beneficiado com a não demissão”, falou sarcástico. “Também tem maus tratos, assédio, perseguição, verdadeiro espetáculo”, ironizou. Agora não vai aguentar, quer ver só?

O cara está vermelho, veia saltada! Eu não ficaria com essa conversa assim na frente de estranhos. Como ele sabe se não conheço alguém aqui? Cara descuidado. Mas, não posso perder essa pegada. “Que coisa, rapaz. Estranho. Procurei essa empresa porque li que o ambiente é muito agradável, transparente”, disse, forjando surpresa.

“Você anda lendo jornal velho. Olhe, deu sorte de falar com esse diretor aí, o Fernandes, que é até bonzinho. Veja só. Tá vendo aquela sala?”, apontou para uma porta de cor azul bem escuro: “Sala de Reuniões”. “A chefia fica muito ali. A placa devia ser seminário de ofídios, aliviando, pra não chamar de ninho de cobras. Teve um gerente aqui há pouco tempo que fritaram rápido porque quis fazer tudo certinho. Coitado, o pobre durou menos de seis meses. Se não rezar a cartilha dos “home”, tá morto. Outra coisa: o que falarem, apure. Tem muita mentira. Olhe, vou nessa. Se me pegam de conversa mole aqui, vai dar problema”, disse, encerrando o papo e saindo sem olhar para trás.

Caramba, será que é tudo isso? Ainda bem que cheguei mais cedo. Tá bem diferente do que eu queria. E agora? Como vou conduzir isso? Sinuca. Ainda esquentava a cabeça quando a Jandira veio avisá-lo que já seria recebido pelo diretor.

“André, esperou muito?”, disse ele, cordial.

“Não senhor. Cheguei um pouco mais cedo. Estava me ambientando”, comentou. Calma, passe segurança.

“Quero lhe lembrar nossa conversa definitiva no jantar de anteontem. Sei que fui claro e objetivo e que todas as informações, números e indicadores mostram a empresa destacada que somos e acho que são bastante suficientes para que possa começar de imediato. Precisamos de velocidade e ações em completo alinhamento com as diretrizes da companhia”, falou de forma firme, quase agressiva. Melhor dar o recado logo, sem deixar o cara pensar.

“Quando vai me apresentar?”, disse, apreensivo.

“Agora mesmo”, falou. “Temos uns dez minutos até todos estarem no auditório. Só uma coisa, antes. Soube que conversou com o Joel, da Contabilidade. Cuidado. Ele está em um momento um pouco complicado porque foi preterido para uma promoção no seu departamento. Às vezes as pessoas ficam ressentidas e falam bobagens, sabe como é”, falou seco e encarou. Como ele soube dessa conversa tão rápido? E agora, como vou saber quem falou a verdade? Em quem acreditar?

O burburinho era ouvido à distância no caminho até o auditório. Entraram no recinto e foram direto à mesa. André, tenso. Célio falava.

“Enfim, não foi possível convocar essa reunião com antecedência. Como parte das ações da diretoria para o crescimento dos negócios, lhes apresento o André Ribeiro, nosso novo Gerente de Operações”, disse, em tom festivo.

André levantou-se em meio aos aplausos, não sem antes confirmar que, na primeira fila, juntos, com olhar dissimulado, sem aparentar surpresa, a atendente e Joel o observavam e este, sem querer ser discreto, soltou um sorriso maroto e piscou o olho para o diretor, que devolveu com satisfação. Opa, tem algo aqui. Por que estão sorrindo? O que eu não estou lendo direito?

Diante de uma plateia em completo silêncio, André, com a mão no bolso do paletó, pigarreou e esfregou agitado o papel em que estava escrito o seu discurso, que ele agora não sabia se devia fazer.

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