O BRILHO DE MIL SÓIS

Fábio Kalvan

Doutor, me perdoe se me demorei, é que fiquei nervoso quando a vi a viatura parando lá em casa, o rapaz me entregando a intimação que não mencionava assunto nem nada. Quase não dormi. Mas autoridade é autoridade e a gente não pode fugir. Agora estou mais tranquilo, depois que o senhor disse que só queria conversar sobre o Anatólio. Só fico me perguntando: qual Anatólio?

Sim, fomos muito próximos. Eu o conheci no Laboratório Nacional de Luz Síncroton, sabe? Fica para os lados da Unicamp e é um negócio impressionante. É um acelerador de partículas, um tubo circular gigante onde elétrons e prótons são acelerados a velocidades assustadoras. Alta tecnologia, Doutor. Serve para várias coisas, para engenharia, medicina, química. Coisa de cientista. Só saí de lá aposentado, graças a Deus. Eu, que operei muito equipamento na vida, hoje sou só um operador de pia e de fogão.

Como ia dizendo, Doutor, Anatólio entrou como técnico de manutenção elétrica, eu era da instrumentação e controle. Por causa disso a gente trabalhava sempre junto e com o tempo surgiu a amizade. Me afeiçoei como se fosse a um irmão caçula. Rapaz bom, sério e aplicado, entendia do serviço e tinha futuro. Fazia engenharia elétrica, se virava no inglês e sabia alemão, porque nasceu em Santa Catarina ou Rio Grande do Sul, não sei direito.

Aquele dia não me sai da cabeça. O chefe da manutenção mandou a gente ver um problema, tinha que ser rápido. Cheguei, fiz umas verificações e o Anatólio entrou em ação. Depois de um tempo disse que precisava abrir o tubo. Tudo no Laboratório era muito controlado, verificado, uma preocupação absurda com qualidade e precisão, para não ter erro. Mas o erro é ligeiro e fica na espreita, à espera de um descuido. Uma chavinha de segurança não devia ter permitido o funcionamento da máquina, mas permitiu: no que colocou a cabeça lá dentro, Anatólio caiu para trás com o tranco que tomou de um feixe de prótons. Entrou perto do nariz e saiu pelo topo da cabeça. Fiquei uns segundos congelado pelo susto. Parece que não sentiu dor, mas o cheiro de cabelo e pele queimados foi medonho…

Anatólio ficou desacordado, todos acharam que não ia durar muito, inclusive o médico do SAMU. Mas não é que acordou dali a pouco? Ficou um tempo repetindo a mesma coisa, que tinha visto o brilho de mil sóis. Incrível, Doutor, incrível… Duas semanas e retornou ao trabalho, novinho em folha. Tão novo que parecia outro. Era outro, na verdade.

Percebi na hora em que o vi chegando a pé, um gingado que não era dele. Não sei, mas senti. Parecia mais arisco, mais debochado também. E respondão, ele que sempre foi muito educado. Tanto é que dias depois se envolveu numa discussão com um outro técnico. Depois ainda quase saiu no braço com um pesquisador. Por fim, mandou o próprio chefe para a puta que o pariu, o senhor acredita? No começo o pessoal do Laboratório ficou todo cheio de dedos, acho que por causa do acidente, medo de algum processo. Mas a situação foi ficando difícil, então um dia decidi ir à casa dele tentar saber o que estava acontecendo. Fui num sábado pela manhã e estava apenas a Margarida, a esposa, que só chorava. Ele? Tinha saído na sexta para trabalhar e não tinha voltado ainda. Nem deu notícia. Só voltou para casa no domingo na hora do almoço. Ele, que era tão sério, deu para conhecer todas as boates da cidade. Pobre da Margarida…

E trabalho mesmo durou pouco, porque foi demitido logo depois. Também, virou um inconsequente, um falastrão, que arranjava briga por qualquer coisa, virava e mexia aparecia todo lanhado no trabalho. Não queria saber de receber ordem. E deu de beber. Mesmo comigo, fazia pouco caso do que eu falava, dava risada. Eu tentava dar conselho, tentava lembrá-lo dos planos que ele fazia para o futuro, mas que nada… ele dizia que quem pensa muito no futuro não vive o presente. Veja o senhor, não era o Anatólio de sempre, ninguém o reconhecia mais.

Passou a viver outra vida. Largou da mulher, não ligava mais para família e amigos e estava sempre metido nalgum rolo. Deixou a faculdade e desaprendeu o alemão. E, lógico, não parou em emprego nenhum. Depois ficou zanzando por aí, sem destino: fez bicos no porto de Santos, foi contrabandista de cigarros na fronteira do Paraguai e chegou até o Chile. Dizem que estava com aqueles mineiros que ficaram presos na caverna, mas nisso não acredito, que o Anatólio tinha medo de escuro. A não ser que até isso tenha mudado…

Por que da transformação? Não sei ao certo, Doutor. Chegaram a me dizer que ele estava possuído, que precisava de uma sessão de desencapetamento. Besteira. O problema foi o acidente, o feixe desregulou tudo na cabeça dele. Ou como se o cérebro tivesse sido formatado e um novo sistema operacional defeituoso tivesse começado a operar. Nem os médicos conseguiram explicar. Se bem que eu já me perguntei, será que o Anatólio não usou o acidente como desculpa para mudar de vida? O senhor sabe quando a pessoa é de um jeito mas queria ser de outro? Então…

Por isso que eu pergunto: de qual Anatólio o senhor quer saber? Do primeiro ou do segundo? Qual deles é o verdadeiro? Nem eu sei, Doutor… E o senhor, o que acha? E agora esse retorno a Campinas, desse jeito. Será que ele escapa da acusação de assassinato?

https://pt.wikipedia.org/wiki/Phineas_Gage

https://en.wikipedia.org/wiki/Anatoli_Bugorski

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