O Portador das Más Notícias

Por Filipe Masini

Se você me perguntasse se eu imaginava o que estaria fazendo hoje e eu falasse que sim, estaria mentindo. Todos os planos e estratégias que traçamos ao longo da vida servem apenas para nos dar uma falsa sensação de controle. Entretanto a vida teima em nos levar por caminhos inesperados. Talvez eu esteja falando isto para que você possa entender um pouco de que forma cheguei aqui.
           
Nunca fui uma daquelas crianças que desde cedo já sabe o que quer ser quando crescer. Quando a professora perguntava para a classe, meus colegas prontamente respondiam: bombeiro, médica, ator, arquiteta e por ai vai. Ao chegar na minha vez, eu cortava a corrente com uma resposta seca, “Não sei”.  A minha indecisão não me preocupava, afinal outros assuntos me eram mais urgentes, como qual seria o lanche que minha mãe havia mandado. Mal sabia, entretanto, que logo receberia o meu chamado.

Eu tinha 9 anos e andava para cima e para baixo com o Jorginho, meu melhor amigo. Como morávamos próximos, após a aula, passávamos à tarde sempre juntos inventando mil coisas para fazer. Sua mãe, dona Lourdes, era uma mulher muito brava. A sua casa era um campo minado para crianças. Por ser muito religiosa, a decoração, entulhada, era composta de anjinhos de porcelana, imagens de santos e o objeto mais macabro, um vaso contendo as cinzas da avó de Jorginho, dona Genô. A sala de estar era território proibido para nós dois.

Um dia, desobedecendo sua mãe, estávamos correndo de um lado para o outro dentro da casa e em um momento de desatenção, ao passar pela sala, Jorginho tropeçou e esbarrou em uma luminária fina e comprida que por sua vez tombou e derrubou o tal vaso. Depois de tanto tempo quieta, dona Genô fez um barulhão e se espalhou pelo chão. Desesperado e sem saber o que fazer, Jorginho me implorou para eu contar para a mãe dele. Ele achava que se eu falasse, ela ficaria sem jeito de dar uma bronca tão grande e aliviaria para o lado dele.

Lá fui eu chamar dona Lourdes no quintal para contar o ocorrido. Você precisava ver como eu tremia de nervoso, com medo da reação dela. Porém quando comecei a falar, palavras começaram a brotar da minha boca e surgiu uma sensação de controle da situação. Eu me senti tão à vontade e tão confiante que quando me dei conta, dona Lourdes estava concordando comigo que ali não era o melhor lugar para se colocar o vaso e que cedo ou tarde aconteceria isso mesmo. Por fim, ainda estava aliviada por ninguém ter se machucado.

Jorginho não conseguia acreditar no que havia acontecido. Perguntava como tinha feito aquilo. Eu não conseguia explicar, mas para mim havia sido natural. Era como se eu soubesse exatamente o que dizer e da melhor forma para que a pessoa recebesse aquela notícia ruim.

A partir desse episódio, eu virei uma espécie de portador das más notícias de Jorginho. Sempre que ele fazia alguma besteira ou queira falar algo desagradável a alguém, eu era chamado. Quando ele quis romper com a sua primeira namorada e não teve coragem. No final, a coitada estava triste, mas agradecendo pela oportunidade que Jorginho havia dado a ela de estar ao seu lado. Ou da vez que ele repetiu de ano.

Com o passar o tempo, fui percebendo que aquilo tinha o potencial de se tornar uma espécie de serviço que eu poderia oferecer às pessoas. Afinal, quem gosta de dar uma má notícia para o outro? Você há de concordar comigo. Não só eu livrava a pessoa de uma situação desagradável, como o resultado final obtido era muito melhor para ambos os lados.   

A prática vai levando à perfeição. Fui apurando a minha técnica e entendendo como aplicá-las em diferentes situações e contextos. Eu não tinha um ramo específico de atuação, atendia a qualquer chamado. Rompimentos amorosos; demissão; falecimento; doenças. Minha cartela de clientes variava do hospital ao puteiro; da igreja ao escritório de advocacia. A minha fama se espalhou rápido em minha cidade. Quando eu andava pela rua, as pessoas se escondiam de mim com medo de que elas fossem as vítimas da vez. Assim, resolvi me mudar para uma cidade maior para manter o meu anonimato e em busca de um mercado potencialmente mais lucrativo. 

Os casos variavam muito, uns mais graves, outros mais fúteis, mas a técnica empregada por mim era basicamente a mesma. Primeiro, você precisa estabelecer um vínculo com a pessoa que irá receber a notícia para ganhar a confiança dela, seja compartilhando alguma história da sua vida ou contando alguma intimidade. Em seguida, para colocá-la em perspectiva, você pode contar uma história triste de outra pessoa. O ser humano gosta de se comparar ao outro, então quando ele vê alguma pessoa em uma situação pior que a dele, de certa forma, isto o consola.

Por exemplo, há uns cinco anos teve um episódio de cortar o coração. Uma mulher ficou esperando no altar pelo seu futuro marido que não aparecia. Não só ele havia desistido, como também havia fugido com a irmã gêmea dela. Para completar, a irmã estava grávida dele de gêmeos. Quais são as chances disto acontecer? Quando ele me ligou em cima da hora para resolver o problema (inclusive cobrei uma taxa de urgência), fui correndo para igreja e encontrei a noiva aos prantos e os convidados especulando sobre o que poderia ter acontecido com o noivo e a irmã. Depois de conversar com ela por uns quinze minutos, ela se acalmou e resolveu aproveitar a festa, afinal já estava paga.

Quando você já ganhou a confiança da pessoa e a fez se sentir melhor com a desgraça alheia, chega a hora de dar a notícia. Você tem que olhar bem no olho da pessoa, assim, desta forma, como estou fazendo. Coloca a mão em seu ombro e fala a notícia bem pausadamente… Luiz Cláudio vai te deixar pela secretária dele e pediu para você arrumar suas coisas e sair da casa.

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